segunda-feira, 24 de abril de 2017

Despacito

Despacito



Charlie utilizara de sua incrível capacidade de convencimento e nos arrastara para uma feira latina americana no subúrbio de Londres, em uma área muito parecida com os arredores de Camden Town. Eu não soube como me portar diante da súbita noite de diversão no fim de semana, uma vez que era tradição do NOC sentarmos diante da gigantesca TV da sala acrílica e assistirmos uma maratona de filmes aleatórios no sábado e o aguardado episódio semanal de Game of Thrones no domingo.
As confusões começaram antes mesmo de partirmos em direção ao local. Jess e Peter lotaram a pequena van que nos transportava à faculdade com tamanha rapidez que, ao aportar na calçada, recebi um olhar de compadecimento e um longo pedido de desculpas.
Desculpe, Pati, todos os lugares estão cheios. -Jess pediu. Franzi o cenho.
Eu acho que posso caber entre vocês dois. -apontei.
Ah, você não vai querer isso. -Peter devolveu, a apontar para o interior do prédio. – O russo vai sozinho, como sempre. Vá com ele.
E então, percebi que aquela súbita invasão de veículos era proposital. Queriam que eu fosse junto ao estranho de cabelo cinza.
Quem armou isto? -perguntei, curiosa.
Sra. Hiddleston. -Jess piscou o olho esquerdo com cumplicidade e eu só pude pôr as mãos na cintura para soprar um longo suspiro de derrota.
Charlie e sua impulsiva necessidade de unir casais.
E quanto ao italiano e a Amy? -questionei.
O banco de trás da Ferrari é tão pequeno e apertado. Vá no Aston Martin com o Johnny. -havia um vestígio de obrigação naquela voz pacífica de Peter.
Certo. Cruzes! -ergui as mãos ao céu, a caminhar de volta ao prédio. Tudo o que pude ouvir do lado externo fora a partida dos carros, a abandonar-me no maldito edifício com um russo de humor improvável.
Procurei-o através dos corredores, mas sem chamá-lo. Ele odiava isso. Era uma de suas peculiaridades: jamais atendia quando o chamávamos. Gostava de desafios e um deles era encontrá-lo.
Para a infelicidade de meu controle emocional, deparei-me com o vulto de sua silhueta altiva no segundo andar, a caminhar em direção à escadaria principal enquanto vestia uma camisa preta.
Ah, cacete! Ele precisa mesmo mostrar esse corpo demoníaco?!
Meus olhos trespassaram por seus braços fortes e dobrados sobre a cabeça, a enfiá-los pela vestimenta e assisti-a cair em seu tronco tonificado e pálido como um maldito papel. Disse a mim mesma para não decair em tentação e retomar à noite em que aparente inconsciência, ele dera-me um beijo caloroso na pista de patinação em gelo. Mas, como uma boa libertina, não pude parar de imaginar no todo comprimento de seu corpo alto. O que ele escondia por trás daquelas roupas escuras e tão sóbrias. Ele era a porra de um príncipe das trevas com tendências a elegância singular. O que me remetia à seu visual matinal, o qual usava para dar aulas em Oxford. Oxford!
Eu vou acabar a dar um derrame ao vê-lo dessa forma sempre.
A deixaram? -sua voz rouca pegou-me de surpresa. Engoli em seco.
Charlie mandou-me ir contigo. -expliquei.
Charlie manda em algo? -seu timbre sarcástico voltara com força total.
Bem, ela armou isso. Ela é quase genial. -brinquei.
Para física. Ler pessoas não é o forte daquela garota. -ele sacudiu as chaves no dedo indicador, e pareceu-me tão tentador que cheguei a indagar-me o que tinha de sensual em chaves. Talvez eu estivesse louca. – Espero que não se importe de passar um pouco de tempo comigo. Meu humor não é dos melhores. Mas é óbvio que você já sabe.
Eu iria para o inferno somente para babar em teu rosto, cara.
Não vejo problemas. Digo-te também que a minha personalidade tende a ser ácida e provocativa. Não importa-te, eu imagino. -aticei.
Segue. -indicou rumo à saída e o segui, fielmente.
Há duas coisas prazerosas em seguir aquele homem estonteante.
1- Ele é cheiroso como um inferno, e quando caminha, seu perfume tende a esvoaçar-se para trás. Em minha direção.
2- Aquela bunda deve ser aplaudida. Por mim.
Gostas da cultura latina e brasileira? -perguntei-o aleatoriamente, para suprir o silêncio sepulcral que nos envolvera.
Enfaticamente quente e irritantemente animado. -limitou-se. – Uma garrafa de vodka na neve estaria de bom grado para mim. Cerveja e dança, não.
Sorri com sua reclamação.
Isto é um esteriótipo. Como o mundo enxerga os latinos. Eles podem ser diferentes e nós estaríamos a ser preconceituosos com pré-definições. -argumentei.
Os únicos loucos que procuraram desentendimento com a cultura latina até agora foram os norte-americanos. Sou asiático e tu és europeia.
Asiático? Tu é tão europeu quanto eu. -rebati.
Nasci em uma cidade russa que faz parte do continente asiático, próximo à fronteira para o Japão. -informou-me com passividade, a fazer-me notar um vestígio de gracejo em sua voz.
Rússia. Sempre tão maldita e grande que toma dois continentes.
Mother Russia. -pronunciou em sotaque pesado, em um sussurro de zomba.
Seu Aston Martin estava curiosamente estacionado na outra esquina do prédio, numa área escura que podia muito bem servir de ponto de drogas ilícitas ou um ponto de encontro da máfia local. Havia algo inexplicável em Johnny, que induzia-me a sentir estranhamente segura ao seu lado, mesmo nos piores locais. Algo dizia-me que ninguém tentaria algo contra ele. E ao contrário do poder escancarado que o italiano repassava com sua postura rígida, a sobriedade e mistério de Luchnik era como um manto de proteção que, se desafiado, atacava.
Devo estar-me a envolver com criminosos e sequer sei. Sempre em problemáticas, Pati. Sempre em problemáticas. Droga.
Surpreendi-me e assustei-me com sua predisposição em abrir a porta para mim, com tamanha naturalidade que ergui as sobrancelhas para fitá-lo. Ele não aparentava ser cavalheiro.
Obrigada. -sacudi a cabeça.
Coisas estranhas acontecem.
Sua presença ao meu lado despertou um lado quase desesperador de minha personalidade. Não era de meu feitio grunhir de excitação por qualquer homem e aquele em especial estava a destruir minha insanidade aos poucos. Isso me instigava. Porra.
Arrependo-me todos os dias em ter conhecido aquela brasileira maluca. -resmungou, a acionar uma playlist de viking metal. Fechei os olhos em susto com o volume do som, a ocultar um riso em minha garganta.
Seus ataques de mau humor eram humorados, na realidade.
Ela não é tão má.
E depois o caralho do Mussolini sem bigode.
Ele não é um fascista. É bem mais para comunista… tal como tu. -provoquei, a virar-me para seu rosto.
Sabe pelo quê a Itália e os italianos são conhecidos? Sua enorme e falta de coragem. São uns merdinhas. Quando há guerra, traem mais que esposas de velhos ricos.
Céus. -gargalhei. – O que ele te fez?
Me arrastou para problemas.





P.S.: Ouvir essa música de agora em diante. 


O bendito russo tinha razão quanto ao calor e as danças. Logo ao estacionarmos diante da feira, fomos ambos recebidos com um grito em conjunto de Charlie, Amy e outras pessoas desconhecidas que rodeavam as ruas vazias com animação quase invejável. Fui agarrada por Amy e um enorme copo de cerveja gelada, o que me causou um súbito bom humor. Enquanto bebia, remexi os quadris junto à ela rumo ao grupo de casais aleatórios que uniam-se a bailar. Apesar da música espanhola, pude entender que o cantor estava a falar sobre alguém ter roubado seu coração. Involuntariamente minhas pupilas focaram no desajeitado russo antisocial que cruzava as ruas e se sentava numa mesa qualquer, distante da agitação.
Já o dobrou? -Amy gritou em meu ouvido.
O que?!
Johnny! Já conseguiu… -fez um movimento sugestivo, a fazer-me rir.
Ele é indobrável, querida.
Ah, não. Duvido. Ele só é um poço de pessimismo. Quando encontrar prazer na vida, vai saber se divertir um pouco.
Ao olhar para seu olhar de reprovação para o lugar dançante, as palavras de minha amiga pareciam distantes e impossíveis. E, em curiosidade, aquilo não me incomodava. Atraía-me sua disfunção quanto às pessoas. Seu amor por privacidade e a distância para socializar.
Ele é muito mais gostoso assim. -admiti.
Amy correu a atenção sobre o russo, a entortar os lábios vermelhos em gracejo quase libidinoso.
Ele é gostoso. Irritantemente gostoso. E a julgar pela altura, o pau…
Por favor, não me faça imaginar.
Querida, estou a te fazer um favor. Imagine. -bateu em meu ombro.
Charlie, que andejava bêbada como uma raposa inquieta, pulou entre nós com um copo de uma bebida roxa com fragrância de uva, a mover seus braços como um boneco de ar. Incentivei-a a continuar, irrompendo minha gargalhada ao alto.
Dei uma garrafa disso aqui para ele. -disse, a apontar para o belo rapaz de cabelo cinza. Visualizei Hiddleston entregá-lo uma garrafa, o qual foi recebida de bom grado. – Russos não dispensam bebida. Agradeça-me em alguns minutos.
Ah, céus. O que destes a ele?! -questionei.
Isso se chama Catuaba. Também conhecida como a bebida da felicidade e do sexo no Brasil. -riu consigo mesma, ébria e entusiasmada. Segurei-a pela cintura.
Tu, Charlie, é a porra da mulher mais louca que conheço. Não bastava ter-me feito vir com ele no automóvel?
Não.
Se quiserem ir além… diga-me que te arranjo preservativos. -Amy sussurrou entre nós, em sua habitual feição repleta de pecados. – E um quarto.
Vocês são insanas.
De nada. -falaram em uníssono.
Deixei-me para preocupar com os efeitos da bebida roxa depois, uma vez que sabia-me bem que ele tinha uma capacidade não humana de suportar grandes doses de álcool sem sequer perceber. Deu-me tempo o suficiente para dançar durante horas, até o ápice do suor escorrer por minha testa e pingar em meu decote, a transformar-me numa espécie estranha de latina por breves momentos. Charlie dava-me possibilidade para isso. Ela quebrava o padrão bronzeado e caramelado que latinos costumavam ter. E isso era um esteriótipo maldito. Amy, ao contrário, esvoaçava seus cachos tão parecidos com os meus, remexia as pernas e o traseiro em coreografias sensuais, mas não vulgares. Era o tipo de sensualidade que era atrativamente visual. Senti uma ligeira inveja do olhar atento de seu marido sobre ela, o qual sequer piscava. Parecia desejá-la mesmo à distância. Ao seu lado, a roubar minha fixação, Johnny virava o último gole da garrafa e empurrava com os dedos o cabelo para trás, a retirar de sua face ligeiramente corada. Talvez já fosse efeito do álcool que eu havia ingerido, talvez fosse apenas a monotonia de minha vida sexual ou até mesmo a excitação da atmosfera latina, mas quando dei-me por mim, rumei em passos longos até sua figura sentada. Encarei sua face rúbea, suas longas pernas esticadas e os lábios pequenos tão beijáveis que eu gostaria de beijar novamente.
Dança comigo. -atirei-lhe a mão, a pedi-lo.
Suas íris absolutamente verdes encararam-me com suposta rigidez.
Não sei dançar. -foi rude.
Dançastes comigo no gelo. -rebati.
Patinei. É uma ação oposta.
Todos estão bêbados demais para perceber se tu sabes ou não dançar, merda. -reclamei, a enlaçar minha mão em torno de seu pulso. Sua pele era macia e cálida, tão diferente de sua personalidade. Meus dedos, que sempre julgava médios, tornaram-se pequeninos ao lado dos seus. Uma timidez rápida vagou por meu corpo, porém, permaneci firme e forte. – Por favor!
Assisti-o soltar o ar pelo nariz em forma de desdém, contudo, quando estava prestes a desistir da ideia, seu par de sobrancelhas quase inexistentes ergueram-se em contra resposta. Era o maldito olhar inquisitivo. Aquele que somente em fitá-la é capaz de arrancar sua sanidade com facilidade absurda.
Ya me cansé de tu tornillo suelto, cerca de ti estoy en desventaja. -pronunciou roucamente, num espanhol delicioso que cercara sua voz com volúpia arrepiante. Tão focada em seu timbre grave que sequer tentara entender o significado de sua frase.
Ele não me concedeu tempo o suficiente, mesmo.
Johnny guiou-me à uma parte inteiramente solitária do espaço de dança, com exceção de algumas mesas onde repousavam as bebidas e comidas tradicionais. E como se já soubesse, a acústica do som tinha poderio ainda melhor naquele ângulo singular. Há alguns metros, por trás das pilastras do portão principal da feira, permaneciam em conjunto os demais em diversão. Uma salva de gritos estridentes nos atingiu, dando-me a impressão que alguém colocara uma música realmente boa para tocar. Foi questão de tempo para que o eco límpido nos rodeasse. Com ritmo tropical e quente, o instrumental iniciara e em quase imediata ação, senti uma das mãos do russo alcançarem minhas costas e a outra, quase incerta, levitou meu braço em postura de dança.
Ele não está fazendo isso…
Seu pé trespassou o meu, a inclinar meu corpo quase ao chão. Nossos narizes se tocaram em ato perigoso e pude sentir o aroma adocicado da bebida em seu hálito. Rapidamente, então, puxou-me de volta.

Sí, sabes que ya llevo un rato mirándote
Tengo que bailar contigo hoy
Vi que tu mirada ya estaba llamándome
Muéstrame el camino que yo voy
Tú, tú eres el imán y yo soy el metal
Me voy acercando y voy armando el plan
Solo con pensarlo se acelera el pulso

Os dedos firmes cruzaram minha cintura com quase malícia, a obrigar-me a mover junto a ele, em coreografia ritmada e ligeiramente semelhante à uma luta oriental. Ele movia-se com facilidade, maestria e uma dominação quase erótica. Pisquei sequencialmente, a procurar minha localização naquele turbilhão inédito de sensações.
Despacito
Quiero respirar tu cuello despacito
Deja que te diga cosas al oído
Para que te acuerdes si no estás conmigo
Despacito
Quiero desnudarte a besos despacito
Firmo en las paredes de tu laberinto
Y hacer de tu cuerpo todo un manuscrito

Agarrei-me em seu pescoço, rindo comigo mesma. Ele, nitidamente sério como de costume, apenas torceu os lábios em evidente satisfação com minha surpresa. Com a pouca sanidade que me restava, percebi que ele reproduzia em nossa coreografia tudo o que a letra da canção cantava. Em outro inclinar, recebi o arrastar de sua boca em meu pescoço úmido de suor, a dar-me beijos rápidos e lentos.
Si te pido un beso, ven dámelo
Yo sé que estás pensándolo
Llevo tiempo intentándolo
Mami, esto es dando y dándolo

Ele lia a minha mente, isso era evidente. E assustador. E excitante.
Em um giro quase completo, minhas costas deram-se em choque contra seu peito, a solidificar a diferença entre nossas alturas. Respirei profundamente, a buscar o fôlego que perdera. Seus passos eram ironicamente idênticos ao de Amy, com uma singela diferença no rebolado. Johnny não rebolava. Era elegante, ríspido e sedutor como um dançarino de tango. Porém, a maneira que me movia… obrigava-me a remexer cada parte de meu corpo. Sem querer.
Ao término da canção, ouvi-o respirar próximo a meu ouvido. Permanecemos paralisados, em silêncio. A brisa gélida da noite tocou-me as pernas desnudas, a retirar-me do vão mental.
Você não sabia dançar. -ralhei.
Imitei sua amiga brasileira e tentei lidar como se tudo isso fosse uma luta. Kung fu é bem semelhante. -distanciou-se, a fazer-me grunhir internamente.
Beija-me de novo! Imploro!
O que queres de mim? -arfei, dificultosamente.
Ele franziu o cenho em conturbação.
Foi você quem me arrastou até aqui. -observou, a fazer-me concordar com seu argumento. Aparentemente minha cabeça não funcionava com ele por perto.
Certo. -tossi propositalmente.
Senti-o se aproximar novamente, depositando então um beijo em minha testa.
Não quero ser um completo idiota contigo, por isso tento diverti-la um pouco, às vezes. Mas não creio que isso seja algo bom. Alguém como você não deveria se aproximar de alguém como eu. -sibilou entredentes, em timbre sussurrado como um segredo a ser contado. – Eu sou completamente fodido, portuguesa. E, portanto, não quero magoá-la com isso.
Você sequer sabe se também não sou fodida como tu.
Um sorriso irrompeu sua boca.
Você é como um nascer do sol e eu sou como uma chuva ácida. Esses são os níveis entre nós dois.
Sabes que disso nasce um arco-íris, não sabe? -interroguei.
Uma probabilidade escassa.
Droga, se não quer nada comigo, não me iluda. -cruzei os braços em irritação.
Não posso fazer isso, porque não sei o que quero. Eu entendo muitas coisas, mas a minha cabeça não é uma delas. -defendeu-se. – E o que você quer comigo, afinal?
Não faço a mínima ideia do que eu quero, só sei que quero agora.
Estou na mesma que você.

Ótimo. Dois fodidos. 





Feliz aniversário, Pati <3
 

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