quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

What's Going On?






Este conto se passa um pouco antes do fim de Love I’ve Found In You. Porque é claro que teremos que interligar todos os acontecimentos.

As pequeninas pernas da desinquieta Jess rodeavam os corredores do NOC com rapidez. Embora a pressa fosse parte da rotina dos últimos dias, a pequena garota não se acostumara muito com o pouco tempo que tinha para organizar tudo que lhe era para fazer. Enquanto segurava enfeites de natal em uma grande caixa nos braços, lembrava-se pois de como ela fora idiota em rejeitar a ajuda que Charlie a ofereceu. Agora ela sentia o peso –literalmente- de seus eventos com a fidelidade de um duende do banco Gringotes, do universo Harry Potter.
Se Johnny a visse naquele momento, diria que não somente a pressa e a responsabilidade a assemelhavam com os duendes, mas também a altura.
Logo em seguida ela se arrependeria de tentar agradar o homem.
Respirando fundo com o nariz vermelho após tanto espirrar ao desenterrar os enfeites natalinos do porão, Jess pôs-se a subir as escadas de acesso ao piso superior do prédio, em direção ao quarto 09. Quando lá aportou, chutou a porta levemente, pois suas mãos estavam ocupadas demais para bater. Alguns segundos depois a estimada ruiva portuguesa abriu-a, sorrindo bastante em vê-la. Não tardou a puxar a caixa pesada de seus pequenos braços e ajuda-la a entrar no quarto. Juntas, Jess fechou a porta novamente e começaram a cochichar.
— Bem, aqui estão os últimos enfeites que consegui encontrar naquele porão. –a baixinha disse.
— São ótimos. Bem que tu me disseste que seria uma ótima ornamentação. –Patrícia respondeu-a com carisma, checando algumas bolas brilhantes que jaziam lá. — Agora só precisamos separar os afazeres com os demais moradores e aprontarmos nossa festinha.
— Sabes de uma coisa? –Jess se aproximou. Patrícia ergueu as sobrancelhas com curiosidade.
— Diga.
— Amanhã também é o aniversário de Johnny.
Patrícia deixou a caixa cair sobre os pés, solavancando um pequeno grunhido de dor. Apavorada, Jess agachou-se e apanhou os itens derrubados, preocupada com o estado atual dos objetos. Por ventura, Patrícia permaneceu a olhar para o além, preenchendo seu rosto de um vermelho quase assustador.
— Por que sempre sou a última a saber destas coisas, porra?! –rugiu, indignada. Jess se desajeitou, jogando a caixa sobre a cama da ruiva.
— Desculpa-me, querida –iniciou, limpando suas mãos suadas na saia de seu vestido. — Pensei que já soubesse. Somente iria te relembrar.
— Eu moro aqui há um ano! Passamos um natal na praia, todos juntos e nada fizeram para ele! –continuou a gritar, dando de ombros a justificativa da colega. — Pois depois quando quero matar a todos, venham-me com histórias para que eu me acalme! Um caralho!
— Johnny não gosta de festas de aniversário! –Jess rebateu, temendo.
— Não me importa o que aquele incrível babaca gosta! –devolveu, unindo as mãos a torcer os dedos. — Dê-me licença. Irei até ele.
— A quem? –Jess correu até ela, segurando seus braços. — Johnny? Não mesmo, não a deixarei enfrenta-lo sozinho.
— Então vais comigo –Patrícia mordeu os lábios em raiva, puxando a pequena amiga rumo à porta. Jess não demonstrou resistência, pois era diminuta demais para isto.
Aprontou-se num ímpeto orgulhoso fazendo estalar o piso de madeira. Desceu as escadas em passos firmes a atravessou a cozinha, logo em seguida a sala do quadro acrílico e, quando já pouco cansada, adentrou o pequeno corredor entre os dois primeiros cômodos de entrada. Jess, logo atrás, ofegava. A porta de cor escura lhe fez perder ligeiramente a coragem.
Então as duas se deram conta que todas as perguntas que pensaram em fazer quanto ao aniversário, diante da porta, sumiram. Olharam para a madeira envelhecida da barreira com os cenhos franzidos. Por quaisquer motivos e razões, aquilo as faziam sentir um pouco de receio. Porque afinal, ali era o habitat inexplorado do russo mais temível de todos os tempos.
Tudo bem, elas também pensavam que o título dado a ele era um exagero. Mas para Patrícia, além de temível, ele era simplesmente um homem muito bonito. Ela não sentia medo de seu mau feitio. Sentia pavor de encará-lo e babar como uma idiota.
O que normalmente ela fazia quando ele se juntava com os outros na sala do quadro acrílico.
— Tu bate. Eu falo.
— Eu bato. Tu falas. –Jess repetiu. — Ótimo.
A pequenina mão da garota se fechou em um punho, encostando-se à superfície sólida da barreira que as separava do urso bêbado que habitava os pensamentos da portuguesa. Subitamente Jess socou a porta loucamente, como se quisesse derrubá-la. Patrícia arregalou os olhos, assustada com o impulso da amiga. Pensou em manda-la ser mais suave, mas de repente a pequena fugiu em passos largos pelo corredor, deixando-a sozinha ali.
Patrícia quis arrebatar seus sapatos na mulher.
Quis também chutar a porta do russo para derrubá-la de uma vez e fugir, também. Somente para irritá-lo. Arrumou os cabelos cacheados para trás da orelha e ensaiou palavras rudes com a parede, apontando o dedo como normalmente fazia o intimidar alguém. A porta envelhecida tinha a aparência do russo: desgastada, antiga, desalinhada, dura e irritantemente charmosa. Será possível achar uma porta charmosa?, ela pensou, mas logo retornou ao que fazia. Respirou fundo. Talvez os dias que passei em sua companhia na boa casa em Brighton o faça pensar duas vezes antes de empunhar algo cortante contra mim, ela voltou a pensar. Deu um passo à frente. Suas mãos tremiam. Ou não, já que ele percebeu que eu roubei suas alianças azuis. Merda. Estou fodida. Ela levantou o punho sobre a porta, fazendo menção em batê-la. A coragem lhe faltou novamente. Ou não. Ele teria feito algo antes. Ele não é de esperar. Encostou os nós dos dedos na madeira, ainda sem tocá-la. Retraiu a mão, novamente. Ou é? Bem, ele é russo. Não se pode baixar a guarda com eles. Patrícia mordeu o lábio inferior com ansiedade generalizada. Porra! Ele é só um homem. Eu posso lidar com isso. Eu não tenho medo de homens! Ela fechou os olhos, ponderando a própria mente. Um homem terrivelmente sedutor.
Subitamente as dobradiças do obstáculo diante da mulher rangeram e, em um pulo, ela solavancou seu susto ao se deparar com a porta sendo aberta abruptamente pelo ilustre homem que tanto analisava. Ele vestia uma camisa larga e preta, com uma estampa poderosa de Darth Vader e seu sabre de luz. As calças moletom cinza balançavam em seus tornozelos e seu cabelo, muito bagunçado, caíam sobre seu rosto de bochechas marcadas. Os olhos verdes a encararam semicerrados.
— Tu por um acaso pensa que minha porta é um saco de areia em uma aula de kickboxing? –sua voz rouca acentuou-se sem cumprimenta-la.
— Eu? Jess que quis botá-la abaixo.
— Não vejo a miniatura extravagante por aqui. –seus olhos verdes abriram-se momentaneamente, rodando o perímetro com exímia atenção. A portuguesa se perdeu na coloração chamativa do colega de prédio automaticamente, como se aquele verde brilhante e misterioso soubesse telepatia e entrasse em sua cabeça chamando-a para observá-lo.
Venha, Pati. Olhe para mim. Sou um belo verde, não achas?, ouviu uma voz imaginária ao fundo de sua cabeça. Ela sacodiu a mesma, buscando se livrar do delírio.
— Oh, foda-se isso tudo! –ela gritou, agitando os braços. — Como pôde esconder que teu aniversário é dia 25?
— Para isso queriam quebrar minha porta? –ele rebateu.
— Não queríamos!
— Vocês estavam a três minutos olhando para a minha porta. –murmurou lentamente, induzindo-a a prender as pernas no chão.
— Não se pode mais olhá-la? –questionou, elevando a voz.
— Olhe o quanto quiser. Mas avise antes que eu pense que você é sonâmbula e encontrou a razão dos seus sonhos nas rachaduras do carvalho dessa madeira.
Patrícia ergueu o olhar para o homem. Apesar de inclinado e de cabeça baixa, ele ainda era muito alto para se discutir. Ele cheirava bem. Ela mal reparou quando aumentou a intensidade de suas inspiradas, em busca da fragrância que exalava. Gardênias? Girassol? Alguma outra flor? Ou seria... grãos? Aveia? Milho? O maldito homem tem cheiro de milho?
— Qual é o seu cheiro, russo? –ela indagou repentinamente, causando o juntar das sobrancelhas do rapaz.
— Por quê? Te incomoda tanto assim?
— Claro que não! Diga-me!
— Você muda de perguntas muito rápido. Raciocínio quântico. –sibilou. Vendo que a garota não iria desistir, Johnny prosseguiu: — Tenho quase certeza que se trata de lavanda mentalizada. E eu ainda não sei como isso pode ser útil na sua vida.
— Oh, será. Será, mesmo... –balbuciou distante, rindo baixo. Imaginando o cheiro com mais afinco, ela se deu conta de que não lutara pelo motivo pelo qual estava ali, em pé, na frente de seu quarto inexplorado. — Russo! Por que não me disse que teu aniversário era no natal?! –retomou a gritar, ressuscitando o assunto.
— Novamente: como isso pode ser útil na sua vida? –repetiu, cruzando os antebraços musculosos. Ela os encarou involuntariamente. As veias contornavam a pele pálida como galhos em uma árvore na primavera. Lhe parecia sexy.
— E como pode esse teu mau feitio lhe ser útil na vida? –ela rebateu irritadiça, rangendo os dentes.
— Acredite ou não, ele me manteve vivo todo esse tempo. –soprou. — Se eu prometer-te um contrato exclusivo em relação ao meu aniversário, me deixará voltar a dormir em paz?
— Completamente.
— Pois amanhã comemorarei a merda dos meus vinte e nove anos com todas as pessoas que desejarem me encher a paciência. –iniciou. — Não prometo ser gentil. Mas prometo estar presente.
— Já é um ótimo começo. Por que não fazes uma festa com todos do NOC?
— Da última vez que os reuni em meu aniversário, tu me roubastes meu par de alianças. –disse sério. Patrícia engasgou-se com a própria saliva.
— Sabes... disso?
— Portuguesa, eu sou um ex-militar russo. Não é tão fácil esconder coisas de mim. –soltou.
A ruiva pôs-se a pensar em suas palavras. Ela sabia por vozes que Johnny era um soldado de alguma parte do exército russo anos atrás, mas sequer soube do restante da história. Sabia que ele ainda guardava traumas deste tempo e que desde muito cedo fora criado em instalações militares. Isso explicava bastante seu temperamento explosivo. Porém muito, muito analítico. Ela pôs-se a se aquietar.
— Deixa-me te dizer... eu prometo fazer algo simples para o teu aniversário.
É claro que Patrícia estava a mentir.



Reencontrando com Jess minutos depois, as duas planejaram os detalhes de tudo. Patrícia havia chamado Mikhail para o Natal e acabou por sorrir sozinha quando percebeu que ele estaria presente para o aniversário de seu ‘pai’. Era difícil acostumar-se com uma criança a chamar Johnny de pai. Uma criança quase adolescente.
Por fim, as duas junto dos demais moradores puseram-se a ocupar-se com a comida e as decorações. Peter, munido de muita energia, foi ao mercado junto de Robbie e os nerds do andar debaixo, a comprar alimentos. Beijou a namorada mal humorada e cansada e prometeu voltar logo. Patrícia suspirou um pouco ao ver a cena. Enquanto o prédio era decorado e os outros nerds já sabiam o gosto da design de interiores para a posição de cada móvel e decoração, ela se trancou na cozinha para preparar alguns doces.
A pobre portuguesa já estava de cabelos presos em um coque alto com diversos fios saltando-lhe para fora do penteado quando às 17h30mim, um barulho ensurdecedor do motor de um automóvel fez com que Patrícia jogasse ao ar um pão recém-assado. Assustada, ela xingou mentalmente o dono do maldito carro e voltou à frente do fogão como se nada tivesse acontecido. Pôs a outra fornada de pães no forno e fechou as prateleiras do armário baixo. Novamente o motor rugiu. Ela bateu a cabeça nas portas de cima do mesmo armário. Desta vez, com seu orgulho ferido, a portuguesa chutou o móvel maldito e correu à porta do prédio, pronta para atirar bons palavrões ao dono irresponsável do rugido irritante.
Ela gostava de carros, na realidade. Mas o dia fora estressante e qualquer ruído além do alarme do forno avisando-a que o alimento estava pronto já era motivo de irritação. Para sua surpresa, encontrou a silhueta alta de Johnny parado junto a parede, de cabeça posta para fora do prédio.
— Já viestes botar para correr o carro? –aproximou-se ela dele.
— Estou prestes a por para correr o dono dele. –Johnny murmurou pouco à vontade. Patrícia resolveu abaixar-se e entrar debaixo do braço estendido do russo, colocando-se para olhar a rua também. Johnny não recolheu o braço, que agora descansava sobre os ombros da garota.
A ruiva se deparou com uma Ferrari F12 Berlinetta estacionada despojadamente nas calçadas do NOC. O motor estava apenas ligado, porém sem acelerar. O barulho, surpreendendo-a, era bastante macio assim. Como o ronronar de um gato. Mal foram suas palavras quando ela se abriu e revelou o motorista.
Puta merda. Que gostoso. Ela pensou consigo mesma.
Um tiro no centro da testa desse filho da puta seria tão bem vindo. Johnny, por outro lado, imaginou.
O motorista se aproximou em passos elegantes, pouco intimidado com a presença de Johnny. Patrícia arriscou que eles eram bons conhecidos, pois não o russo ao seu lado já teria atacado-o com a colher de pau que ela mesma segurava. O gostosão parou de frente a eles dois.
Olhos azuis. Muito azuis. Ela nunca tinha visto tamanha tonalidade de azul em toda a sua vida. Nem mesmo os olhos de Peter, ou até mesmo os de Tom Hiddleston eram como aquele par singelo de órbitas.  
— Buon pomeriggio –sua voz soava como um sussurro perigoso. Patrícia encolheu as mãos. — Come stai? –ela percebeu que o homem falava italiano e se dirigia estritamente a ela.
— Bene... –ela gaguejou, arriscando o que sabia.
— Russo –ele finalmente desgrudou suas órbitas para Johnny, que observava a cena com a testa apertada.
— Vadia –ele devolveu. — Que diabos faz aqui?
— Lembro-me bem que você atrapalhou o meu natal ano passado. Desta vez atrapalharei o seu. –limitou-se, entortando um sorriso. — Bela garota, Luchnik. Vou roubá-la de você por algumas horas. –ele olhou-a atenciosamente, novamente. — Ciao, ragazza. Per favore, ensina-me o caminho da tua cozinha? E acompanha-me nesse tempo, sim?
— Ciao, finoccio! Se quiser perder os braços, continue. –Johnny interviu, empurrando Patrícia para trás. — Cozinhar? No meu prédio? Você só pode achar que eu sou louco.
— Você, talvez. Eu? Com certeza. Saia da frente, Sheldon Cooper russo.
Patrícia imaginou que os dois sairiam aos tapas. Porém, quando menos esperou, o tal italiano segurou-a pelos pulsos e levou-a para dentro do prédio rapidamente, desviando do toque de Johnny. Ela o seguiu sem querer e sentiu como Jess se sentiu na manhã, quando arrastou-a pelo NOC como um cachorro encoleirado. Ela não se importava em seguir o homem desconhecido. Ele cheirava bem. Entraram na cozinha em seguida.
— Ha bisogno di aiuto? –ele perguntou, parando em súbito. Ela sem querer afundou o rosto em suas costas. Sentiu o rosto queimar com a aproximação.
— Eu não falo italiano! –resmungou, afastando-se. Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— Cosa c'è che non vá?
—  Whaaat?
—  Estou a brincar. –ele riu baixo, fazendo-a querer atingi-lo com um tapa. — Falo bem português, também. Estava a encher o maldito Luchnik. Você me parece bem íntima dele. –ele disse simploriamente, como se aquelas palavras nada mudassem o fato de Patrícia estar rosa em vergonha.
— Íntima? –gaguejou. — Não!
— O quê? Ele quase a afundou na parede quando me aproximei.
— Ele é possessivo com as coisas. –justificou a garota.
— Meu pau. –resmungou. Ela se engasgou. Ele percebeu. — Oh, desculpa-me. Às vezes esqueço que não estou com alguém que conhece minha má língua. Piacere, meu nome é Jaime.
— Jaime? –ela indagou. — Oh. Bem. Sou Patrícia.
— Eu sei. –ele se agachou diante do fogão, espreitando os pães que ela botara para assar. — Nascida em Portugal. Gosta de Star Wars. Cheiro aconchegante. Sorriso largo. Ótima de conversa. Gostosa.
— O quê?! –ela pulou, tanto assustada quanto intimidada. ‘Gostosa? Ele é louco?’
— É o que Luchnik diz. Relatório prévio sobre seu perfil. Ele não está tão enganado, afinal. Bem, Patrícia Viegas Caetano, se assim mesmo é teu nome, precisas de ajuda na cozinha?
Patrícia teve que se conter para não fazer alguma besteira. Diante das palavras do enigmático Jaime, ela somente pôs a sorrir nervosamente.
— Você sabe cozinhar? –questionou.
— Darei meu relatório a você: nasci em Roma, Itália. Sou um informante da Interpol, fui parceiro do teu querido russo algumas vezes, CEO de uma editora, doutor em História e louco. Literalmente. Eu tenho um atestado do governo.
Ela achou tudo aquilo bem interessante e quis tê-lo como amigo. Porque simplesmente Patrícia adorava pessoas estranhas e ainda mais aquele que se dizia louco. Só podia ser louco para ser parceiro de Johnny.
— Bem, confiarei em ti. Mostra-me teus dons culinários.
— Mostrarei. Aviso que se meu humor mudar e eu retornar a ser um homem mais antipático que Luchnik, não fique surpresa. São minhas personalidades. Posso variar de psicótico a sorridente em questão de segundos.
Ele parecia falar sério.
Patrícia correu o risco. Afinal, sua vida nunca mais fora a mesma depois de morar no NOC.





— Os efeitos estão errados, Ronnie! –Peter gritou, estressado. Era estranho vê-lo daquele jeito. — Coloque mais tingimento nesta fonte!
— Oras, somos químicos! –rebateu Ronnie. — As experiências precisam dar errado algumas vezes.
— Sim, somos químicos. Cinco malditos anos na faculdade para aprender a misturar amido de milho com água e fazer com que crianças idiotas afundem a maldita colher na solução!
— Não grite comigo! Tu que quis montar essa fonte de amido!
— Pois! –Peter tomou a caixa de amido de suas mãos. — Ajude Charlie no globo elétrico que está a montar na sala!
— Aquela mulher não gosta que ninguém se aproxime do maldito globo! –Ronnie tomou a caixa de volta.
— Ajude Patrícia com a comida –Peter pegou-a de novo.
— Há um homem estranho com ela lá. –disse.
Peter passou a mão pelo rosto e suspirou.
‘Belo natal’, ele pensou. ‘Maldito aniversário’.
— Onde está Johnny? –Peter gritou, quase chorando.
— Trancado no quarto!



Johnny se sentou em frente à janela com uma caixa gigante em mãos. Ainda de pijamas, o russo prendeu o cabelo longo num rabo-de-cavalo e esperou que a noite caísse no céu. Era pouco mais de 18h00min quando ele decidiu voltar a dormir. Antes disso, escondeu a caixa debaixo da cama.
Se ela achar isso uma idiotice, concordarei’, resmungou enquanto tirava a camisa e jogava-se no colchão. Encarou o teto.
Que belos olhos ele tinha.



Às 21h30min do mesmo dia, Peter teve a brilhante ideia de acordar o russo com uma música não muito comum para a ocasião. Com a ajuda dos demais moradores, conectaram todas as caixas de som do andar e puseram a tocar a maldita canção como um coro.

And I sing, hey, yeah, yeah-eah
Hey, yeah, yeah
I said, hey! What's goin' on?
And I sing, hey, yeah, yeah-eah
Hey, yeah, yeah
I said, hey! What's going on?

—  O que querem?! Derrubar os muros de Jericó?! –o russo, que muito depois de pensar, surgiu à porta de seu quarto empunhando em mãos uma espada samurai detalhadamente. Detalhes esses que diante da tensão atual serão esquecidos rapidamente pelos rostos assustados dos moradores do prédio. Peter, por ventura, riu. — Eu juro em nome de Odin que irei desligar o maldito som e pegar minha arma e enfiar no rabo de cada um por cada estalo que meus tímpanos deram agora a pouco! Em quem doerá mais? Digam-me!
— Feliz aniversário, Elsa! –Peter gritou, arrebatando um ovo à distância. Johnny, embora sonolento, agarrou o ovo ao ar e jogou de volta, acertando-lhe com força no rosto.
— Talvez eu comece por você, filhote de Wendigo –rosnou. — Não é dia 25 ainda!
— É véspera de natal! Acorde, Valentina Tereshkova! –Jaime surgiu da cozinha com Patrícia, que ria intensamente. Johnny não gostou do que viu.
— Vá se foder! –reclamou.
— Mais tarde foderei, tenha certeza. Com a bela companhia de minha mulher. –respondeu sobriamente, retirando o avental que Patrícia o cedera. — Vou buscá-la agora, falando nisto. Volto em poucos minutos, russo –caminhou até ele, encarando divertidamente a espada. — Sentirei saudades.
— Valentina Tereshkova foi um elogio, digo já. –Johnny murmurou entredentes. — E vá se ferrar. 
Jaime saiu de sorriso largo, gracejando. Por outro lado, os moradores ali reunidos somente encararam o russo como se ele fosse um maldito louco armado. O que realmente ele era. Johnny percebeu que estava apenas de calças e sem camisa. Só percebeu quando viu Patrícia corou. Ele se trancou no quarto novamente.
— Saio em cinco minutos! –gritou ele, fugindo.




 Cinco minutos depois, como Johnny mesmo havia dito, ele saiu de sua toca escura que orgulhosamente chamava de quarto. Trajado com uma camisa azul escura e jeans, balançando as pernas junto às botas de cano longo e cabelo penteado –por fim!- o homem se apresentou na sala do NOC.
Patrícia não o viu. Estava no banheiro a se trocar.
Muitos moradores estavam em seus respectivos quartos se trocando. Apenas Charlie e seu pequeno filho sentavam-se no puff roxo do russo, que também orgulhosamente chamava de seu canto especial da sala acrílica. A morena levantou-se em súbito, correndo para abraçá-lo. Johnny aceitou de bom grado e apertou a pequena como um urso de pelúcia de curvas suntuosas.
— Hamish escolheu teu presente. Thomas irá trazê-lo. –ela sussurrou.
— Ele vai se suicidar? –motejou.
— Comporte-se uma vez na vida, Nik. –bateu em seu braço. — Diga-me... tudo está pronto para Patrícia?
— O que quer dizer com isso?
— Sei o que está preparando. Você a olha como Han Solo olha para a Milenium Falcon! –exclamou. O pequeno bebê sorriu. Johnny semicerrou os olhos para o afilhado.
— Vocês estão confraternizando mágoas comigo. Não estou a fazer nada.
— Acredito. Bem, diga-me também quem és o homem maravilhosamente esculpido que saiu daqui?
— Esqueça-o! –Johnny rugiu, tomando de seu colo o pequeno Hamish. — Todas vocês encaram o maldito italiano como se fosse um pedaço de carne.
— Ele é. –Charlie insistiu. — Teu amigo?
— Mais para inimigo. Ele cozinhou a ceia com Patrícia. Longa história –desdenhou. — Garoto, tu estas crescendo demais. –disse ao Hamish. — Por favor, não se pareça mais com seu pai.
O menino sorriu novamente, encolhendo a cabeça nos ombros do homem. Charlie acenou e tentou pegar o filho de volta, mas a criança insistiu em ficar com o padrinho. Quando estava prestes a lutar pela guarda do filho, a mulher entreabriu a boca e olhou por cima dos ombros de Johnny a saiu correndo na direção oposta. Johnny virou-se tardiamente, mas pôde ver Patrícia surgir à porta com um sorriso estampado no rosto.
Holy Putin, ele solavancou mentalmente.
A portuguesa vestia uma camisa preta quase igual a do próprio russo, porém os dizeres ‘Star Wars’ estavam estampados sobre seu peito. Ele sentiu um nó se formar em seu estômago quando reparou que seus cabelos ruivos cacheados estavam caídos sobre os ombros e seu sorriso largo lotava as bochechas coradas da moça. Hamish entendeu o que se passava com o padrinho e tornou a sorrir. Ele era uma criança bastante sorridente.
— Boa noite, Johnny –ela disse, adentrando. Ele balançou a cabeça, ainda fixado nos dizeres de sua saga preferida no blusão.
Patrícia no entanto sentiu que ele olhava seus peitos.
— Hamish, querido, vamos encontrar seu pai. –Charlie interviu, tomando o filho sem pedir. Sorriu travessamente para os dois e caminhou até a porta. — A minha parte do presente ficou no porta-malas do Jaguar. Já trago.
— Que presente? –Patrícia indagou.
— Segredo de estado, Pati. Divirtam-se.
Patrícia e Johnny se entreolharam. Sempre que faziam aquilo, conectar as íris um do outro, sentiam que poderiam sobreviver pelo resto da eternidade sem divergência alguma. Não era algo romântico, porém. Johnny achava que poderia encontrar um mundo inteiro quando dava sua atenção ao par de olhos abertos e límpidos da mulher, tanto que não fazia questão de mostrar-se sóbrio quando o fazia. Seus verdes olhos cobriam o da portuguesa com uma quase fome de saber. Saber o que ela escondia por trás daquele sorriso absurdamente gostoso de se ver.
Ela por um acaso pensava em como a vida era pequena quando entendeu que eles dois foram postos para se conhecerem. Pois ele era improvável e talvez sua companhia e até morar junto dele era algo como uma prenda simpática do destino. Aquele homem tinha um significado especial. E novamente estava ela a babar por ele. Quando percebeu, tossiu.
— Vamos jantar? –Johnny murmurou, estendendo o braço a ela. Patrícia piscou seguidamente, encarando sua mão grande com precaução.
— Sim, vamos. Jaime e eu tivemos muito trabalho para deixarmos que somente os brutamontes comam tudo. –ela disse a sorrir, encostando seus dedos nos dele. Prendeu a respiração quando Johnny, surpreendendo-a, levou sua mão até os lábios finos e avermelhados e beijou-a delicadamente. O cabelo longo do homem caiu sobre sua testa. Patrícia se contorceu.
— É um costume russo beijar as mãos das damas. Espero que não se importe. Normalmente não exerço esse costume. O mau feitio me impede. –justificou de boca colada em sua mão, olhando-a profundamente. Ele não sabia que aquilo era sexy.
— N... não. Ótimo! –Patrícia tossiu, puxando-o para perto em um impulso inexplicável. Ele sem querer encostou seu corpo no dela, de forma que quase se abraçaram. Em um rápido movimento ele retomou a compostura, desculpando-se pela falta de decoro. — Eu que te puxei. Desculpa.
— Vamos jantar. –Johnny entortou os lábios, envolvendo seu braço ao redor de seus ombros.
Todos do NOC se reuniram no corredor, onde Patrícia ornamentou que posicionassem a grande mesa de madeira para que todos tivessem um lugar para se sentar. A mesa estava recheada de comida; pães assados, vinho, cerveja, coca-cola, bolos, tortas, pratos salgados, sorvete, peru, peixes, carnes e todos os tipos de pratos vegetarianos possíveis para se preparar numa tarde. Os pratos italianos que o desconhecido sedutor preparara estavam sendo servidos quando o mesmo anunciou-se à porta junto da mulher. Usando uma jaqueta de couro e uma camisa de algodão branco por baixo, ele parecia-se muito despojado. O russo com sua presença apenas arregaçou as mangas da camisa, libertando seus braços largos para comer.
— Deixem-me dizer que o espaguete está ótimo. Patrícia adicionou um ingrediente próprio em minha receita. –ele disse.
— Ou seja, ela salvou o natal de vocês. –a bela mulher que o acompanhava troçou, fazendo-o apertar o cenho em censura. — Oh, seu narcisismo afeta os outros.
— Amélia –ele sussurrou. — Eu cozinhei. Sério.
— Aposto que passou a tarde toda com as vadias. –ela rolou os olhos, tomando um lugar ao lado do russo, que acolheu bem.  — Boa noite, pessoal. Vejo que Jaime já intrometeu-se aqui com vocês então estou pegando a intimidade. Não se importem, sou brasileira. Chegamos desse modo em todos os lugares.
— Sabemos. Charlie se comporta como uma sanguessuga. Fique à vontade. –Robbie sorriu derretido, encantado com a nova garota.
— Obrigada. –Amélia respondeu. — Vai ficar de pé, querido? –questionou a Jaime. Ele, em resposta, sentou-se ao lado de Jess e ofereceu-a um sorriso torto.
Oh, sim, brigas de casais.
E em falar em casais, minutos depois Thomas e Charlie trouxeram os presentes dos moradores e também a secreta prenda que comentara com o russo. Quando Patrícia tentou enxergar o que ela havia trazido, Charlie ameaçou-a com uma torta contra o rosto. Amélia pôs-se a rir e esqueceu-se de indagar o que Thomas fazia ali. A garota já estava bêbada.
Jaime, por outro lado, não. Houve alguns gritos da parte de ambos. Muita história veio à tona. Deixaremos isso em segundo plano. O que realmente importa é o seguimento do jantar.
Quando Johnny conseguiu acalmar os dois homens, deixou-os em cantos opostos na sala. Charlie e Amélia, pelo contrário, tornaram-se boas colegas. Charlie soube que a mulher tinha um filho com o italiano e logo trataram de conversar sobre filhos amistosamente. Os demais moradores do NOC cantaram em um karaokê a mesma música que despertou o russo e em resposta, Luchnik xingou-os de todos os palavrões possíveis em vinte línguas diferentes.
É óbvio que houve mais briga e todos lutaram como vikings bêbados.
À meia-noite, quando o dia 25 chegou, deixaram as desavenças para trás e parabenizaram o russo. Patrícia trouxe um bolo gigantesco com uma bandeira russa desenhada com doces minúsculos. Ao invés de champanhe, brindaram com vodka e isso fez com que Johnny se sentisse bem pela primeira vez em muito tempo.
Ele procurou esperar até que a movimentação no NOC se dissipasse para correr atrás da portuguesa e agradecer pelo esforço tido para agradá-lo. Mas todos pareciam querer cumprimenta-la pela boa festa, tão que o russo esperou e esperou por toda a noite até que ela se sentasse ao lado de seu puff roxo, exausta e com chocolate quente em mãos. Uma música lenta ecoava pelo prédio, embalando a dança embriagada dos nerds. Somente ela e o russo estavam ali, sentados na sala acrílica. Ele, afundado no puff. Ela balançava as pernas ao ar.
— Obrigado. –sussurrou ele. Ela piscou.
— Oh. Deixa-te de merdas. Foi um prazer. –ela gargalhou. Estava pouco corada pela bebida. — Espere um pouco... Hoje é natal –a portuguesa iniciou, deixando de lado sua caneca de chocolate quente sobre a pequena mesa de centro que Charlie insistira em trazer para a ceia. O russo, por outro lado, balançou a cabeça levemente.
— Percebi. –disse em mau humor. Patrícia sorriu divertida por sua carranca eternamente desgostosa e levantou-se.
Ela lhe estendeu a mão, olhando-o com ambas as íris brilhando em entusiasmo. As órbitas verdes do homem, porém, pairaram na imagem de sua pequena mão estirada como se uma análise detalhada não fosse o suficiente para fazê-lo apertar seu cumprimento.
— O que planeja? –ele perguntou, sussurrando.
— Dar-lhe sua prenda de Natal, oras –ela disse como se nada temesse, até mesmo entortou seu sorriso aberto. Johnny desviou sua atenção para sua boca larga, perdendo um pouco de seus pensamentos nos dentes alinhados da mulher. ‘Droga, eu quero sorrir quando ela sorri. Instigante’, ele pensou contra a vontade.
Por fim, ele cobriu seus longos dedos ao redor da palma quente da ruiva. Ele se arqueou de seu querido puff roxo e pôs-se de pé, fazendo-a se perder em sua pequena estatura ao lado dele. O rosto de Patrícia estava à altura de sua clavícula. Ela sempre odiara e amara ser tão minúscula próxima de Johnny. Gostava de relembrar-se disso sempre.
A garota inclinou-se rumo à árvore de natal onde anteriormente Johnny se escondera para assustar os moradores. Emparelhado ao tronco, apanhou uma pequena caixa de presente de cores variadas e um grande laço colorido, entregando-o com um olhar debochado. Ele entendeu que ela brincara com a embalagem infantil. Ele tentou rebater, mas deixou-se suspirar em resposta. Gostava de sua ousadia.
Enfim, ele abriu.
Seus olhos verdes talvez tiveram pouco tempo para assimilar o que ela lhe presenteara. Uma delicada peça azul, como uma miniatura perfeitamente montada de uma pequena casinha em madeira. Era exatamente como a maquete que eles se desafiaram a construir para passar os dias em que ela estivera resfriada. Quando ninguém mais estava no prédio do NOC. Ele riu.
Tu és uma pecinha difícil de se encontrar atualmente, pois –Johnny prendeu a língua, arriscando seu português pouco exercitado. Patrícia revirou-se internamente, ouvindo a deliciosa sensação de ouvir sua língua pela boca travessa do russo. O sotaque a fez se sentir agradecida por ter tanto trabalho ao construir tão minúscula casa. Ela iria falar algo em resposta, mas ele pousou seus dedos sobre seus lábios e pediu silêncio. — Muito obrigado. Tenho que dizer que também preparei algo para ti. Espere um segundo. –ele continuou em português, puxando charmosamente o ‘r’ e o ‘s’ como um nativo, mas sem deixar seu rústico russo de lado.
Patrícia torceu as mãos em surpresa. ‘Ele tem algo para mim??’ , gritou mentalmente.
Quando Johnny retornou, tinha em mãos uma gigantesca caixa de madeira decorada com pequenos desenhos verticais, como linhas elegantes perpendiculares. O acabamento era em tinta dourada e os dizeres ‘Patrícia V. Caetano’, em preto detalhavam a superfície superior. Ela se queixou um pouco pelo tamanho e a elegância, mas lembrou-se que ele era rico. E que por mais que ela pedisse para não preparar-lhe aquilo, ele prepararia por sua teimosia. Ela aceitou.
— Não precisavas disto. –ela disse.
— Não me dê ordens. Apenas abra-a.
Ela sorriu um pouco receosa, mas pôs por pousar suas mãos para abri-la. A tampa suscitou um ruído de travas interiores e com um puxão, ela se abriu, revelando departamentos e prateleiras iluminadas com luzes minúsculas de LED em seu interior. Por Odin, era extremamente luxuoso.
— Tire o plástico de proteção. Tua prenda está dentro.
Patrícia arregalou os olhos, porém prendeu os lábios nos dentes e puxou o maldito plástico de uma vez.
— Puta que pariu! –gritou, entusiasmada.
Na primeira prateleira um exemplar de ‘Os Lusíadas’ em impressão original tomava lugar. Ela apanhou-o e então havia uma página marcada com uma fita vermelha.
— Leia. –Johnny pediu.
 "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano".
— “Os Lusíadas” - Episódio de Inês de Castro (Canto III, estrofes 118 a 135)


Achei uma representação de Pati e Johnny! Ahahahahaha!

Ela levou as mãos à boca, sentindo os olhos despejarem então algumas gotas de lágrima. Não sabia a razão de chorar no momento, mas tinha certeza que jamais alguém a descrevera um poema de Luís de Camões com tanta sutileza. Quanto ao sangue retratado, ela sorriu. Sorriu porque sabia que aquele trecho, por mais sombrio que parecesse ser, tratava-se da sublime personalidade de Johnny.
E se ele aras banhar em sangue humano, ela sabia que aquilo era algo importante a dizê-la.
— Russo... –ela sorriu, encarando a caixa com mais animação.
— Espero que anote para ti o significado do trecho. Continue a explorar tua caixa. Terás detalhes do resto da noite cá aí.
Ela descansou o livro sobre a mesa de centro e embora com bochechas úmidas de choro, explorou-a com destreza. Da segunda prateleira conseguiu enxergar um par de sapatos de patins de gelo, com grossas lâminas debaixo de suas solas. Um casaco de espessura e detalhes pequeninos em azul, o qual ela percebeu ser pequenas TARDIS de Doctor Who também tomava lugar ali. Ela encarou-os com os olhos trêmulos em curiosidade, e o russo apenas acenou divertido.
— Vista o casaco. Segurarei os patins para ti. –ele apanhou-os, segurando junto de si. — Olhe a terceira prateleira.
Ela o fez. E quando o fez, gritou em felicidade.
Um capacete de motocicleta de adesivos de caveiras enfeitava a última prateleira da gigantesca caixa. Suas iniciais pintadas em dourado, ao contrário da decoração, fizeram com que a portuguesa atirasse-se sobre o russo com afinco e abraçasse-o mais forte do que podia. Respirou seu cheiro de lavanda mentalizada e notou que não se tratava daquilo. Ele mentia ao dizer seu cheiro. E ela sabia que seu cheiro era melhor do que qualquer outra coisa explicável. Suspirou fundo.
— Obrigada, obrigada! –ela repetiu, apertando-lhe. Ele soltou o ar pelo nariz, abraçando-a também. Era a primeira vez que iam tão longe.
— Não agradeça ainda. A surpresa maior há de vir. Todas as prendas têm um significado.
Johnny levantou-se do puff com Patrícia em seu colo, fazendo-a exclamar um ruído de susto. Sem escutá-la, o russo sorriu pela primeira vez em todo o dia e levou-a de pernas ao redor de sua cintura pelo NOC, surpreendendo os moradores com a cena. Patrícia sentiu o rosto avermelhar-se em timidez, mas o seu querido companheiro parecia desfilá-la como um prêmio divertido aos demais colegas. Jaime e Amélia que ali estavam, gritaram frases de malícia enquanto Thomas e Charlie ao lado, acenavam para que logo se beijassem. Patrícia escondeu seu rosto na curva do pescoço de Johnny. E se sentiu mais envergonhada com isso.
Ela percebeu que ele a carregava com facilidade, como se seu corpo fosse como um pequeno gato qualquer. Ele era forte, pois. E abraçá-lo para não cair era a parte mais vergonhosa de tudo. Nik era muito alto, também. Se ela por um acaso soltasse-se, iria cair ao chão e machucar seu joelho que há pouco tempo estava a doer. A saída era segurar-lhe com força, mesmo.
Como se também não o incomodasse, Johnny levava o capacete de Patrícia e os sapatos de gelo em uma das mãos. Saíram do prédio e caíram na nevasca de Londres, enfrentando o frio que ali fazia. Patrícia encolheu-se no casaco. Johnny se sentiu em casa com o frio. Ele por fim colocou-a no chão. Ela puxou a blusa que havia arqueado ligeiramente instantaneamente, embaraçada.
— Tu és doido! –disse ela.
— Vamos lá, comemore meu aniversário comigo! –ele exclamou. — Suba em minha moto. Coloque já este capacete.
— Odin! –Patrícia retrucou. — Onde está ela?!
— Coloque o capacete e me siga. Tenho que mostrar-te algo. –ele piscou-lhe o olho direito. Ela sentiu o estômago dançar tango.
— Vamos, russo medíocre! Termine o que tens que fazer! –Charlie gritou da janela do quarto 09, ecoando sua voz para toda a rua. Hiddleston encostou-se ao seu lado, tampando-lhe a boca com as mãos. Ela se debateu, afastando seu toque. — Não me atrapalhe, inglês maldito! Vamos, Johnny Grigory Luchnik! Acabe com isso!
— Charlie, cale a boca! –Johnny fez um gesto com os dedos, olhando-a friamente. Patrícia não entendia o que estava ocorrendo. — Thomas, vá comer sua mulher! Tire-a daqui!
— À vontade, maldito. Só tenho que dizer que a próxima a gritar será a Amélia. –alertou, rindo bastante.
— Mande o italiano amarrá-la na árvore de natal, porra! Ou amarre você mesmo. Costumava fazer isso antes, não? –provocou-o. Charlie socou o ombro de Tom com força. Johnny riu em escárnio. Por fim, entre brigas e tapas, o casal retirou-se da janela e deixou com que o silêncio e a privacidade retornasse aos dois que conversavam na calçada.
O russo direcionou seus olhos para Patrícia que, em reflexo, engoliu em seco, mas manteve-se altiva. Ele suspirou.
— É talvez a coisa mais íntima que já mostrei a alguém. –continuou, voltando à puxá-la pela rua desértica. Ela o seguiu pelo percurso da avenida pouco iluminada, enfrentando a neve que caía torrencialmente. Patrícia meteu suas mãos nos bolsos do casaco, encarando a camisa de algodão que Johnny vestia com furor. ‘Ele não sente frio?’, pensou.
— O que é? –ela perguntou.
— Meu passado.
Aquilo soou estranhamente dramático. Eles seguiram ao norte da rua, onde um velho galpão tomava o restante do quarteirão. Como se nada quisesse, Luchnik guiou Patrícia pela escuridão, experiente em andejar em locais como aquele. Desviando de obstáculos, ele destravou o alarme de sua Ducati 1199 Panigale S Senna. Um nome bem esquisito para uma moto. Ele trespassou suas pernas pelo contorno do veículo e subiu, ligando-o. Os faróis acenderam e a portuguesa teve um ímpeto de conhecer o motor de perto.
A Ducati assemelhava-se a algo grandioso. As grandes rodas largas e tintura cinzenta metalizada, banco alto e desenho futurista agradaram cada mínimo gosto da ruiva. E com razão.
— Suba! –Johnny mandou-a.
Por mais que se sentisse estática com tantas surpresas de uma só vez, ela o obedeceu. Respirou fundo e abraçou a cintura do homem, pois era o único lugar seguro. Ele nada fez, apenas fechou o capacete. Ela fez o mesmo. Em uma única retirada, ele acelerou. Ela sentiu o corpo pender para trás junto ao ar que cortou-os, porém a sensação era tão libertadora e agraciada que de sua boca apenas ecoaram risos afoitos e gritos de animação. O russo sorriu com a alegria da ruiva e apertou o punho no acelerador. 200km/h era o ponto máximo que conseguiam na cidade.
O vento gélido a fez abraçar-lhe mais forte. Os flashes de Londres pela velocidade anormal da Ducati junto ao barulho de seu motor entorpeceram os sentidos da portuguesa como se lhe injetassem alguma droga líquida. Odin, a sensação era muito boa.
Quando ela acostumara-se com o modo ágil e agressivo dele dirigir, estacionaram.
E então, recobrando a sanidade após a alta velocidade, seus olhos se depararam com a gigantesca pista de gelo que tomava o quarteirão rumo ao grande jardim central. E ela só pôde segurar o braço do homem de tão paralisada que se encontrava.


— Seus patins, por favor. –Johnny divertiu-se, colocando os capacetes no banco da Ducati. O cabelo dele estava arqueado com o vento, mas aquilo dava-lhe uma aparência jovial e rock’n roll o bastante para agarrá-lo.
— Para isto? Juras?
— Prometi te mostrar meu passado. –ele falou. — Eu patinava quando criança. Era muito bom nisso. –estendeu-lhe a mão. — Vamos?
— Odin... eu não sei fazer isso. –ela temeu.
— Portuguesa, tu irá entrar neste inferno comigo mesmo que eu a carregue nos ombros. –ele ameaçou, abaixando-se diante dela. — Levante os pés, vou pôr seus sapatos.
— Levante daí! Estão a nos observar!
— Foda-se isso! Ei, babacas! Olhe como estou ajoelhado diante dessa bela garota! Ela não é linda?! Olhe este sorriso! Apaixonante! E eu sequer sei o que é admirar-se por estas coisas! –ele gritou com sua voz rouca poderosa, fazendo-a aquecer o rosto em vergonha e constrangimento.
Patrícia colocou as mãos no rosto,  desejando sumir. Enquanto buscava esconder-se, e enquanto tentava, o russo trocou seu par de all-star pelos patins de gelo sem ela mesma perceber. Quando finalizou, bateu amistosamente na perna da garota.
— Vamos lá. O pior já passou. –ele incentivou.
Ela ponderou sobre o quão insano era estar com ele, por mais que apenas alguns minutos tivessem se passado. E quando se deu conta, percebeu que ele já a levava para o centro da grande pista de patinação. Patrícia descreveu aquele momento como ‘flutuar nas nuvens com o homem mais improvável do mundo’. Seus olhos se submeteram à paisagem linda do inverno inglês, das grandiosas árvores decoradas com pequenas luzes natalinas, com as sequenciais quedas que as crianças levavam ao redor do parque e, com gentileza, viu alguns casais velhinhos andejarem nas calçadas. Quando Johnny entrelaçou suas mãos nas dela, ela pensou ter um infarto. Somente notou que ele a segurava para que não caísse no gelo quando percebeu que realmente adentrou a pista, deslizando a lâmina do desconfortável sapato.
E como ele patinava bem. Johnny era gracioso e elegante ao desviar das demais pessoas; segurava-a com força e firmeza, sem deixá-la perder o equilíbrio. Quando Patrícia tomava seu próprio ritmo, ele retirou uma das mãos e apenas com a esquerda segurando sua direita, rumou com ela em seu enlaço. Ele gargalhou quando ela gritou para que ele a esperasse. Johnny, porém, rodopiou um salto extravagante que fez com que os desconhecidos parassem para observá-lo. De pernas duras, Patrícia lamentou. Luchnik desgrudou-se dela por um segundo e quando ela menos esperou, sentiu suas duas mãos gigantes agarrarem-na pela cintura, por trás.
— Guiarei você. –ele sussurrou. Ela prendeu a respiração.
Juntos, eles desbravaram toda a pista com sutileza. Ele a guiava, realmente. Como Jack e Rose, em Titanic. Ele atrás, ela à frente. Em certo momento Patrícia abriu os braços para sentir o vento enquanto ele, logo em seguida, desvencilhava-a dos obstáculos. Os dedos do homens poderiam segurá-la para sempre.
Ele se sentiu a liberdade pela primeira vez. E ao patinar, ouviu o rugir de seu espírito russo ao fundo de sua cabeça.
Patrícia gargalhava nervosa e animada o tempo todo.


Por fim, só então aí, que Johnny contornou o corpo da ruiva e pôs-se diante dela. E ela pôde ver seu rosto límpido, pálido e sorridente. O sorriso dele queimava como o fogo de mil dragões. Os lábios dele pediam para falar algo. E ele o fez.
— O natal na Rússia é atrasado 13 dias. Seguimos o calendário juliano. –ele iniciou. — Então não, eu não nasci no dia do salvador dos crentes.
Ela sorriu, pois o homem sempre tinha vários assuntos a dizer.
— Nos séculos 16 e 17, os czares visitavam asilos e prisões a distribuírem dinheiro aos carentes. Mendigos e necessitados vagavam por Moscou e se juntavam em grupos, pois sabiam que à meia-noite, o czar passaria pelas ruas espalhando moedas. Chamamos isso de ‘Sotchelnik’ –ele murmurou em russo, fazendo-a se arrepiar. — Então voltamos para casa, comemos kutja, um prato principal do nosso natal. Sei que tu não é adepta a carne, pois então posso sugerir que coma-o. É feito com grãos e mel, frutas secas e nozes.
— Está me convidando?
— Para o meu natal, no dia 7 de janeiro. –ele completou. — Vamos bailar como czares. Distribuindo dinheiro aos necessitados. É isso o que eu faço com os meus ganhos anuais.
Patrícia riu-se como uma criança orgulhosa. O coração do homem era bom, afinal. Disso ela sempre soube. Questionou-se sobre a razão dele estar sendo tão atencioso com ela, subitamente. Johnny sempre atribuía-lhe ciúmes e possessão com os outros, mas aquilo... aquilo era simplesmente, romance. Ela teve que se segurar. Talvez estivesse enganada. Afinal, eles eram amigos. Amigos faziam aquilo, sempre. Talvez de forma mais simples.
Mas nada era simples com Johnny.
— O que queres de mim, russo? –ela soprou. Ele mordeu os lábios.
— Eu não sou bom com palavras, Patrícia Viegas Caetano. A não ser quando praguejo alguém.
— Disso eu sei.
— Mostrei-te com gestos o que eu prendia por esse tempo. Podes me entender?
— O quê? –ela tremulou.
— Gosto de ti. De um modo... não convencional.
— O que seria isto? –ela riu nervosa.
Johnny piscou os olhos verdes como um felino à caça. O vapor de suas respirações embaçava dramaticamente o cenário daquela noite em especial. Do rosto vermelho da portuguesa ao pálido do russo, muitos pensamentos se dissipavam. Do cheiro desconhecido de Johnny, ela nada podia pensar. Apenas que... era bom estar ali.
Johnny Grigory Luchnik repensou diversas vezes o que falar. Mas realmente ele não era bom com palavras.
Como dizer que apesar de toda a frieza e comportamento psicótico, ele sabia reconhecer que gostava de alguém? Ele sequer sabia diferenciar amor de amizade. Sequer sabia sentir amor, na realidade.
O amor é algo para burros, ele sempre dizia.
E ele quis se sentir burro, ali. Somente naquele instante. E com esse pensamento, Johnny segurou o rosto de Patrícia.
Com esse pensamento, ele aproximou-se.
Com o mesmo pensamento, ele a beijou.

Intensamente.







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