Algumas mulheres trajadas
provocativamente formaram um cerco ao redor do russo que, abstido na
extravagantemente grande tela de smartphone, sequer notou. Ele tentou
afastá-las com um aceno grosseiro de mão, mas as garotas pareciam querer
entender sua atitude.
— Vocês podem sair do meu
caminho? –rugiu ele, encarando-as, então.
— Querido, você está em um espaço
reservado para encontros casuais e sexo. –uma delas deu uma risadinha,
gesticulando de forma que o alto homem notasse onde estava a ir.
— Eu sei onde estou. –ele
respondeu.
— Então... o que deseja? –a mesma
interrogou.
— De vocês? Nada. –ignorou-as.
Elas pareceram levar um balde de
água fria.
— Então o que está fazendo aqui?!
–perguntaram-lhe, inquietas.
— HÁ A DROGA DE UM POKEMÓN NO
ESTANDE DE VOCÊS! SAIAM DA MINHA FRENTE!
Irritado, Johnny empurrou-as para
os lados e seguiu o rastro da câmera de seu aparelho eletrônico, arfando em
impaciência.
Você deve estar se perguntando ‘O
que diabos estou lendo?’ ou então ‘Bem, eu sei que lembro que parei de ler no
beijo entre o russo e a portuguesa! Que diabo é isso?’. E suas dúvidas serão
saciadas, querida.
Johnny, muito preocupado com o
destino que os beijos e esforços íntimos da noite passada, decidiu carregar
Patrícia até o quarto 09 após vê-la a dormir no sofá e, antes mesmo que
fechasse a porta, um certo italiano o parou no corredor.
— Noite longa, hein?
–provocou-lhe, a encostar-se na parede.
— Não sei do que está a falar –o
russo checou o relógio e franziu a testa. — De acordo com a matemática, a noite
passada teve a mesma duração que qualquer outra noite.
— Isso é um modo de fuga que os
psiquiatras chamam de ‘sou um bebê babão e não sei arcar com as consequências
de ter beijado Patrícia diversas vezes em meu sofá de couro velho e
provavelmente também não sei lidar com o fato de que esse foi o meu primeiro
beijo em cinco anos e que também há a possibilidade da ruiva nunca mais falar
comigo, porque eu sou um grande idiota e não sei agir com as mulheres, mas tudo
bem, eu posso me esconder por trás dessa máscara de sangue frio russo e me
prender no quarto da mesma forma que Stalin faria se ainda estivéssemos em
guerra’ mas claro, quem sou eu para repreendê-lo com isso... –o italiano falava
diretamente, com calma impassível. Ciente de seu próprio sarcasmo a alto nível,
ele encarou a porta de madeira do ex-quarto de Charlie e suspirou. — Qual é,
cara, se eu fosse você, estaria lá dentro, agora.
— Talvez sua voz e companhia seja
mais apreciada no quarto de cima, com sua bela esposa que certamente seria
sexualmente mais satisfeita se continuasse com o inglesinho mela-cueca. –Johnny
rebateu, abrupto como sempre. Seus olhos verdes faiscaram irritação. O
italiano, no entanto, apenas apertou suas íris azuis por trás das pálpebras e
soltou-lhe um sorriso torto cafajeste.
— Está a começar a aprender falar
como homem. Ótimo.
Johnny crispou os punhos.
— O que inferno você quer,
Martini?! –rugiu entredentes, a forçar sua voz não sair como um rosnado alto
suficiente para despertar a ruiva do outro lado.
— O comunismo. –brincou ele, a
olhar para a parede com humor. — Mas, para hoje, dou-me por satisfeito se tu me
acompanhares a um clube.
— A julgar tua personalidade, o
clube é horrível.
— A tirar as mulheres nuas e o
assédio sexual, é suportável.
— Cacete. Tu não pensas em nada
além de sexo, cretino?
— Em comunismo. Mas como eu
disse, não por hoje.
Luchnik segurou sua ira como
faria se pudesse segurar o pescoço do homem em sua frente. Ele o asfixiaria
lentamente, cravando suas unhas em suas artérias e assistiria seu rosto se
transformar em uma bola inchada de cor roxa. Seus olhos se tornaram vermelhos
por conta do sangue.
E, só então depois de toda a
tortura, ele o quebraria o pescoço com uma torcida tão forte que os ossos de
suas vértebras sairiam para fora da pele.
O pensamento fez o russo respirar
melhor.
— Não quero estar no prédio
quando Patrícia acordar, mesmo.
E assim, ele aceitou.
Veja bem, Johnny é reconhecido
mundialmente por sua coragem irresponsável. Se queres que ele pule de um avião,
ele o faz. Se queres que ele invada a casa de um milionário com apenas uma
espada em mãos, ele também o fará e talvez a rir. Mas lidar com pessoas, mulheres, não era o seu forte. A bebida
o tornava mais volátil para romantismo e a vodca incendiava partes de seu corpo
que ele sequer sabia que tinha, mas o que o fez agarrar a ruiva na outra noite
não era fora isso.
Bebida alguma o faria perder o
controle.
Mas Patrícia, talvez.
Era esse pensamento que o
assustava todas as vezes que fechava seus belos e extremamente verdes olhos. Perder
o controle. Por uma mulher.
Merda, isso acontecera com
Charlie no maldito ano em que a mesma se mudara para o prédio. E, para seu
total desprezo, a outra ruiva se envolvera com Hiddleston antes mesmo que ele
pudesse perceber o quão afetado ele se tornara por ela.
Ruivas. Sempre ruivas. Se
contabilizassem todos os interesses femininos que o jovem Luchnik tivera em
toda a sua vida, essa seria a lista, em ordem cronológica.
1— Velma, de Scooby-Doo
2— Hermione Granger, de Harry Potter
3— Yggrite, de Game of Thrones
4— Donna, do seriado Suits
5— Kimmy, de Unbreakable Kimmy Schmidt
6— Wisty, da trilogia Bruxos e
Bruxas
7— Amy Pond, de Doctor Who
8— Charlie, a maldita do quarto
09
9— Patrícia, a outra maldita do
quarto 09 que não existia para ele até uma maldita viagem na qual ela o ajudara
a cuidar de sua empresa em Singapura e agora a maldita não saía de sua fodida
mente.
A contabilizar as não-ruivas:
1— Ksenja, a maldita que fora assassinada e quebrara o
coração do russo
2— Jaimie Alexander, a badass do seriado Blindspot (ele
beijaria cada uma de suas tatuagens, duas vezes).
3—Amélia, a doida que o italiano não merecia ter (o russo
amava a forma que ela era rude, bebia como uma raposa louca, sabia lutar e
assistia programas que ele achava que ninguém assistia)
4— Lagertha, do seriado Vikings. Esta nem mesmo ele sabe
explicar a razão. Ela é badass, somente. Don’t mess with Lagertha, bitch.
Eis o que elas têm em comum: chutam bundas.
E russo ama chutar bundas.
Retornando, nosso querido Johnny estava a caçar pokemóns. O
italiano prometera voltar para sua companhia assim que buscasse algo para sua
mulher dentro do clube erótico. Sozinho e entediado, Johnny decidira sacar seu
smartphone e jogar um pouco de Pokemón Go. Para a sua sorte, ele logo recebera
o alerta de um Charizard entre os estandes de roupa íntima próximas a ele. Foi
o sinal para agir.
Se o ilustríssimo presidente Vladimir Putin observasse um de
seus melhores mercenários a vagar por uma loja repleta de mulheres, mas não à
procura de sexo, mas de pokemóns, ele certamente diria, num tom de voz
ameaçador como um sádico: A maldita Inglaterra fode a cabeça deste homem!
Tragam-no de volta para a Rússia!
De volta ao NOC, os dois homens saíram da Ferrari Califórnia
cor de vinho com objetos diferentes em suas mãos. O italiano, satisfeito,
carregava uma sacola de papel com uma fantasia erótica que provavelmente
assolava sua mente desde que a vira e o russo, esse mal humorado como sempre,
com um balde de carne frita, bastante molho de churrasco e uma garrafa de uma
boa vodca russa.
— Largue esse animal indefeso agora mesmo, Johnny Grigory
Luchnik! –era a voz de Patrícia, a gritar por sua janela no segundo andar.
Ele encarou-a com inquisição no semblante.
— Que animal? –ele retribuiu, calmamente.
— Esse bovino em seu balde! Seu assassino! –rebateu.
O italiano, logo ao lado, pensou em dizer o quão certa ela
estava ao referi-lo como assassino, mas sabia que o russo ainda não contara a
ela sua história sombria. Então, a rir com a situação, ele apenas adentrou o
prédio.
— Não me venha com essa conversa de vegetariano agora,
ruiva. –ele rosnou.
— Carne faz mal a saúde. –ela disse.
— Bebida alcoólica também, mas nós a bebemos. –Touché.
— Bebidas não são feitas de animais mortos. –ela era
igualmente boa no debate.
Johnny mergulhou sua mão esquerda no balde, a apanhar seu
bife apimentado com os dedos. Ainda a encará-la, ele mordeu como um selvagem
viking e ignorou os bons modos –ele não tinha bons modos, mesmo- a comer sem
qualquer pudor.
Patrícia entreabriu a boca para reclamar de sua repugnância,
mas o molho de churrasco manchara o rosto pálido de Johnny como se, de certa
forma, fosse sangue. A ideia de assistir aquele homem coberto de sangue a
deixava inexplicavelmente excitada. Isso a tornava uma mulher louca.
— Eu comeria isso até se fosse carne humana, portuguesa –ele
balbuciou, a chupar os dedos. — Não seria capaz de fazer metade das coisas que
faço se não me alimentasse de carne. Sou um leão, baby. Sangue faz parte da
minha dieta.
Porra. Era o tipo de frase que afastaria qualquer ser humano
normal.
— Não fale ‘baby’ como se fosse o tal Christian Grey,
cretino!
— Grey? O suposto CEO com insegurança interpessoal, frouxo e
mais fresco que um veado em um concerto da Beyoncé? Não, obrigado. Eu falo baby
como Winchester chama o Impala.
Dito isso, ele adentrou o prédio.
E Patrícia, inerte na discussão –aquilo foi uma discussão?-
ainda ponderava a ideia do russo tê-la chamado de Impala.
— Então, baby, você é o Impala daquele cara agora. –a
doidinha brasileira, que estava sentada em sua cama a observá-los conversar,
provocou. — E como mulher de outro doido por carros, eu digo-te, é uma porra de
um elogio e tanto. Ele pode ainda não saber, mas já te ama.
— Por isso tu és doida, Amélia. –Patrícia murmurou, a fechar
a janela. — Argh. Nem mesmo eu suporto esse papo de amor. Amor é para idiotas.
— O sexo que vem com ele é ótimo. –a brasileira comentou, a
morder o lábio em humor. Patrícia arqueou as sobrancelhas.
— Damn, girl. –falou em gracejo. — Tu podes dizer isso,
porque teu homem é gostoso como um inferno. Mas o ‘meu’ homem, apesar de ser
igualmente gostoso, não reconheceria um sentimento mesmo se esse o aparecesse
vestido como uma AK-47 diante de um terrorista.
Amy riu-se.
— Querida, acredite em mim, o teu homem sabe como usar uma
arma. Entenda como quiser.
Dito isso, Amélia a deixou sozinha, porém não sem antes
dá-la um olhar instigante. Patrícia, agora a sós, grunhiu como uma gata mal
humorada e retornou a fitar o horizonte através de sua janela. O céu
avermelhado de Londres encobria a cidade como um manto colossal cujo abraçava
os prédios e refletia suas cores nas vidraças que faziam parte do estilo
arquitetônico do centro da cidade mais ao longe. A rua do NOC, entretanto,
permanecia na mesma quietude sobrenatural. A ruiva se indagou, pela milésima
vez, a razão do russo tê-lo comprado aquele prédio tão antigo em uma área
não-nobre da cidade, embora tivesse dinheiro o suficiente para isso e muito
mais. Talvez esse fosse mais uma de suas misteriosas formas de agir e até
mesmo, num futuro próximo, ele imaginasse remodelar a área e transformar o
prédio num chamativo a mais. Tudo era de se esperar de Johnny.
A abandonar sua linha de raciocínio, a mulher tomou um banho
rápido e trocou-se na mesma rapidez, a dirigir-se, então, para a cozinha. Ela
quase se arrependeu de ter descido o andar. A caminhar pelo corredor, observou
as velhas garrafas de bebida alcoólica ingeridas na noite anterior; os pratos
sujos de comida sobre a pia; a bagunça na sala do quadro acrílico e, para o
desmaiar de sua consciência, deu-se conta de que ainda não lembrara do que havia
acontecido entre Johnny e ela.
Culpou a bebida por isso. A agarrar seus cachos com os
dedos, a ruiva permaneceu paralisada diante do sofá onde, de acordo com suas
memórias rasas, havia sido o local de seus beijos ardentes com o homem.
Involuntariamente, Patrícia deslizou a ponta dos dedos sobre os lábios
inexplicavelmente doloridos –agora ela tinha um argumento – e riu-se sozinha,
não de felicidade ou prazer, mas de nervosismo. A fitar a sala quase escura,
fechou os olhos e deixou-se cair no estofado, com o corpo pesado de
justificativas não alcançadas.
— Não, nós não fizemos isso... –ela balbuciou para o
relento, incrédula. — Ele estava bêbado como um gambá e eu também.
A bater em sua testa, a mulher refletiu por incontáveis
minutos. Uma vontade de gargalhar por descrença entorpeceu seu corpo, porém,
mesmo sem ela entender, ao invés de rir, prendeu uma crise de choro. Por que
raios estou a querer chorar?! Ela sabia a resposta, mas não queria acreditar em
tal futilidade. Merda, não. Por que tudo parece tão confuso em minha cabeça?! É
este maldito homem! Ele nunca age como um ser humano! Ora me beija, ora me
ignora!
A ruiva ponderou em sua mente o que poderia responder suas
perguntas à respeito de Johnny. Ninguém entendia aquele homem. Ninguém jamais se
dera ao trabalho de tentar compreende-lo e ela não seria a primeira a isso. Ou
seria? Patrícia suspirou em reação à ansiedade que assolou seus nervos e
praguejou baixinho suas frustrações. Ela sentia como se lidasse com uma pessoa
com perda de memória ou humor volátil. Uma pessoa que um dia a reconhecia e no
outro, não. Isso a doía. A machucava. E essa ideia de se machucar a fazia
sentir raiva, porque ela era uma mulher resolvida. E dúvidas, receio e dor não
eram coisas que ela pensava sentir por conta de um homem.
Principalmente por Johnny. Porque ele, acima de todos os
homens, não era alguém com quem se entrava numa briga.
Ela se recordou da noite de natal, em que ele a fez se
sentir como uma adolescente feliz. Ele a presenteara com coisas maravilhosas, a
levara para passear de moto em plena nevasca e depois, como se já não fosse o
suficiente, a ensinara a patinar no gelo sem cair. Naquele momento, debaixo das
luzes coloridas natalinas, encobertos pela névoa gélida da nevasca e o ar que
escapuliam de suas bocas sempre que se falavam, o universo parecia ter parado
para observá-los. Johnny, de repente, era alguém acessível. Ele sorrira um
pouco para ela. Aquele sorriso delicioso que nem mesmo ela sabia que ele tinha.
Porque nunca o vira sorrir com sinceridade.
E, depois, ele a beijara.
Patrícia imaginou que morreria naquele instante. Não por
paixão, por satisfação ou futilidades amorosas. Ela morreria de surpresa, pelo
gesto do homem. Ela morreria de curiosidade para entender a razão que explicava
seu comportamento com ela. Será que ele gosta de mim? Ou o espírito natalino o
fizera agir sem pensar? Não, ele não parece alguém que age sem pensar. Ele é
russo. Por que ele é tão sensível e agradável às vezes e, noutras, é um
completo selvagem irresponsável, grosseiro e solitário?
Ele ao menos sabe o que causa em mim? Ou ele sabe e se
diverte com isso?
Ele é um psicopata? Um sociopata?
E por tens que ser tão gostoso daquela forma?!
O que eu fiz para merecer isso?!
Merda!
A recuperar seu fôlego, a mulher se arqueou do sofá com a
pouca força que coletara de suas reflexões. Uniu-se a seu casaco –o mesmíssimo
que Johnny a dera- e, com relutância, encarou o frio da cidade rumo à parada de
ônibus. A ouvir um rock progressivo em seus fones de ouvido, Patrícia trilhou
as ruas com a mente a viajar em outra dimensão. A cidade a acompanhava por onde
quer que ela fosse. Luzes natalinas continuavam a enfeitar a vitrine de lojas e
a montar figuras de animais e papais Noéis ao redor das propriedades; as
pessoas trilhavam as calçadas vestidas como pequenas bolas de tecido cobertas
com tanta roupa e, outras, elegantes como modelos com seus sobretudos e botas
de couro.
Patrícia deu-se por louca quando encostou-se ao portão
gigantesco da casa de Hiddleston. Às vezes ela não acreditava que se tornara
amiga íntima do cara. Ou que sua amiga Charlie era sua esposa. Ou até mesmo que
Hamish, o filho deles, era seu afilhado. E Johnny o padrinho. Porque eles fazem
isso de propósito.
Após alguns toques, a própria Charlie abrira a porta para
que ela pudesse entrar. Com um sorriso cansado em seu rosto jovial, a outra
brasileira abraçou-a fortemente e a convidou para tomar um chá. Agradecida,
Patrícia respirou melhor com o aconchego da casa quentinha. Juntas, elas foram
até a cozinha colossal de móveis planejados adornados em granito e aço.
Patrícia tinha uma atração perigosa com móveis e decoração. Era seu trabalho,
afinal. E a casa dos Hiddlestons era como a Comic Con dos design de interiores.
Cada centímetro daquele lugar era batizado por elegância e bom gosto. Luxo,
praticidade, grandiosidade e criatividade.
Charlie odiava aquele lugar.
— O que a traz aqui, logo em um dia de nevasca? –a
brasileira perguntou, servindo-a uma xícara enorme da bebida quente. A ruiva
assoprou o calor e bebericou.
— Preciso fazer algumas perguntas a você, se não se
importar... –admitiu.
— É claro que não. –Charlie deu um pequeno riso, porém
deu-lhe sua expressão de curiosidade. — Sobre o quê são as perguntas?
Patrícia respirou fundo. Apesar de ser bastante franca e
sincera com as pessoas, a portuguesa tinha certos receios ao falar de sua vida
pessoal. Mas Charlie era como sua irmã, em muitos aspectos. Tinham os mesmos
gostos. As mesmas ideias. Até falavam o mesmo idioma.
— É sobre o russo. –desabafou. Charlie alargou os lábios
rosados com quase malícia e Patrícia a interrompeu instantaneamente. — Não é o
que está a pensar!
— No que estou a pensar? –provocou a amiga.
— Sexo, certamente. Porque tu és uma incorrigível.
— Está me confundindo com a Amélia. –Charlie desdenhou.
Foi a vez de Patrícia sorrir.
— Sente ciúmes dela com Thomas, não?
Charlie bebericou o chá como se fosse um copo de cerveja. A
coloração de seu rosto se tornou vermelho e a portuguesa riu-se ainda mais,
pois sabia que ela havia ingerido a bebida quente demais. Mas a amiga era
durona. Aguentaria aquela queimadura na boca por tempo necessário até que
Patrícia parasse de gargalhar.
— Ora, ela anda para cima e para baixo com aquele traseiro
arrebitado e Tom já esteve dentro dele. –argumentou, rude. — Ela tem cara de
vadia.
Patrícia inspirou.
— Ela é uma vadia legal. –a portuguesa comentou. —
Libertina. Bissexual. Resolvida sexualmente, independente, luta kickboxing, tem
um Mustang e um marido gostoso. Bem, eu quero ser essa vadia algum dia.
Charlie engasgou-se.
— Podemos voltar com o assunto do russo, por favor? –pediu a
brasileira.
Patrícia cruzou os braços acima do mármore do balcão, a
endireitar sua postura. Sequer sabia por onde começar.
— Primeiro... tu sabe dizer se ele tem algum problema
psiquiátrico? –a ruiva questionou.
— Ah... –Charlie passou a contar com os dedos. Patrícia se
preocupou. — Talvez... bem, sim, ele tem. Não sou capaz de contabilizar.
— Porra! Ele é realmente louco?!
— Não! –Charlie defendeu-o. — Ele teve uma vida difícil,
Pati. Muitos traumas. Viu coisas horríveis. Fez coisas horríveis.
— Está a começar a me assustar.
Charlie soprou o ar pela boca, entrecortada. Então,
subitamente, ela entrelaçou a mão nas de Patrícia e puxou-a em direção a sala,
a desviar dos brinquedos de Hamish jogados sobre o chão. Juntas, sentaram-se no
sofá em formato de L.
— Johnny tem muitos problemas de personalidade, Pati. –foi
direta. — É chamado Transtorno de Personalidade Limítrofe.
— O mesmo da Amélia?! –Pati se excedeu, a gritar espantada.
— Sim, o mesmo. Mas eles diferem bastante em seus estados de
humor. –Charlie disse, a tentar se lembrar do que lera no perfil psicológico do
russo ao descobrir que ele era um mercenário, dois anos atrás. A palavra
mercenário era proibida nos diálogos com Patrícia, por pedido pessoal de
Johnny. — O Nik é como uma concha com pérolas roubadas, entende? Todos nós
nascemos com uma personalidade principal, a qual desenvolvemos com o passar de
nossos anos, certo? O Johnny não teve isto. Bem, tudo o que eu posso lhe dizer
que ele foi impedido de ter sua própria personalidade, pois vivia num rígido
governo e seguia regras lamentáveis. Ele foi ensinado a fazer certas coisas
desde quando criança e cresceu sob essa perspectiva. E essas coisas o
atrapalharam no desenvolvimento emocional. Por isso o quociente intelectual
dele é tão alto e ele é um gênio. Quanto maior o intelectual, menor o
sentimental.
Patrícia assemelhava-se a um desenho animado, porém sem a
parte animada. Ouvir a voz da amiga a explicar um pouco de Johnny era como
receber uma carga elétrica de dúvidas, questionamentos, angústia e empatia pelo
homem. Uma enorme curiosidade torturou sua cabeça: o que diabos havia
acontecido com ele?
— Sabes de algo a mais? –gaguejou a portuguesa.
— Sei que ele não sabe quem é. Quando o conheci, Johnny era
um nerd mal humorado que gostava de reclamar. Com o passar do tempo, viramos
grandes amigos. Ele, mesmo com aquele jeitinho abrupto, sabia me fazer sentir
bem. Ele é engraçado, às vezes. Me fazia rir. E quando ele bebe, deus...
— A primeira vez que o vi, ele estava bêbado. –Patrícia
sorriu quase comovida, a recordar-se da noite em que o vira, vestido de
Stormtrooper, na festa de formatura da Universidade em que ele dava aulas e que
Vincent a convidara. Também, no mesmíssimo dia, conhecera o NOC. E Hiddleston.
— O melhor dia da minha vida. –falara ela, humorada.
— Ele me fazia chorar e rir no mesmo dia. Passava meses sem
dar-me um oi e em uma semana levava-me para jogar Dungeons and Dragons.
Dizia-me para esquecê-lo e outra vez foi ao Brasil me visitar. Ele é repleto de
polos opostos, Pati.
— Sim, disto eu sei bem. –ela suspirou.
— Eu acho que Johnny tem vários Johnnys dentro dele. Mas ele
não sabe uni-los numa pessoa só.
— Como Jaime? Múltiplas personalidades?
— Não... mais como Jack, de Fight Club.
Pati pensou.
— Agora estou a imaginá-lo a lutar.
Charlie riu internamente, segurando-se para não dizer ‘Ele
luta melhor que os caras do filme, Pati, querida’. Mas, ao invés disso, ela
acariciara seus ombros e beijou-lhe a testa carinhosamente.
— Sei que há algo entre vocês desde aquela primeira dança na
universidade. E, querida, é algo grande. Tudo com aquele homem se torna
intenso, possessivo e interminável. Você vai ao inferno e chega aos céus com
ele. Johnny é um demónio e um anjo, simultaneamente. E foi por isso que pedi
para que você tomasse meu quarto quando eu partisse. Sei que você lidará bem
com aquele russo impossível.
Pati mordeu os lábios, quase emocionada. Charlie era como um
livro de conselhos ambulante. E, depois que se tornara mãe do pequeno Hamish,
ela ficara melhor nisto. Era como uma mãe para todos que a procuravam. E a
coitada ainda tinha 23 anos!
— Como sabe que isso é romance, Charlie, sua doida? Eu só
disse que queria perguntar algo sobre ele! –Pati se indignou, gracejando.
— Depois do natal, eu aposto que há algo a mais que amizade
entre vocês. Querida, eu sou míope, mas não sou cega.
Patrícia deu-se a gargalhar.
— Ele me beijou. –secretou, divertida.
Charlie abriu a boca.
— Oh meu deus! –exclamou, incrédula. — Ele beija?!
— Muito bem, posso lhe dizer...
— Merda, e como foi?
— Intenso. –disse, sem vergonha alguma. — Ele... segura meu
rosto com as duas mãos quando o faz. É como se me prendesse diante dele, como
se eu pudesse fugir de seu toque.
— ‘Quando o faz’, então foi mais que um beijo???
— Bem, ontem nós nos beijamos após aquele jogo de verdade ou
desafio. Nos beijamos muito. –a ruiva mordeu a parte interna da bochecha,
conturbada. — Talvez tenha sido a bebida, mas, deus, ele me beijou como eu
nunca fui beijada antes. Foi... lascivo. Quente. Por alguns segundos tive a ligeira
ideia que iríamos tirar as roupas e transarmos naquela sala. E eu quis que ele
fizesse. Deus, como eu queria. Foi tão arrebatador.
— Conte-me mais, estou a amar isto. –Charlie ditou, de rosto
sério.
— Você já viu aquele abdômen, certo? Aqueles braços que
poderiam nocautear uma pessoa num abraço?
Charlie revirou os olhos, tentada.
— Qual é, garota, eu passava metade do dia a olhar para
aquele tronco.
Pati riu-se.
— Imaginas aquele corpo todo em cima de ti. Estávamos assim,
ontem. Eu abracei sua cintura, toquei suas costas largas, senti seu perfume,
seu calor por cima do moletom. Não sei como continuei sã.
— Puta que pariu.
— Eu não sei como, mas ele conseguiu ser ainda mais tentador
que aquela dança que o italiano fez comigo.
Charlie balançou a cabeça, como se seus cabelos tivessem a
pegar fogo. Era o desespero de imaginar os dois homens. Pati entendia bem.
— Por favor, não fale daquele homem. –pediu a amiga
brasileira. — Ele não é um bom...
— Ah, ele é bom. Muito bom.
— Não, ele não é. Ele olha para mim como se quisesse...
— Te foder. –a portuguesa completou. Charlie, chocada,
negou. — Querida, ele quer. Ele mesmo disse a mim.
Charlie sentiu-se tão pequena e envergonhada que poderia
esconder-se numa caixa de fósforos.
— Como ele pode dizer isso sobre mim? Ele é casado. Eu sou
casada. Céus.
— Acho que eles chamam isso de orgia. Quando ele fala que
quer te foder, ele quer te foder junto a mulher dele.
Charlie poderia desmaiar com aquilo.
— Sabe qual é uma boa ideia? Converse com o italiano sobre o
russo. Ele é marido da louca, então sabe lidar com este transtorno. E, além
disso, é amigo do russo. Ele responderá melhor do que eu. –engoliu em seco.
— Ele responderá, mas eu não irei entender nada, porque
estarei ocupada a imaginá-lo nu.
— Bem, compreensível.
— Aqueles olhos podem te engravidar.
— Não, obrigada.
— Eu faria dez bebês com ele.
— Foque no russo, Patrícia. No russo. –Charlie enfatizou.
— Eu faria vinte filhos com o russo. Meu útero é bom,
realmente bom. Meus ovários são esplêndidos. Falta-me o homem. Eu farei tantos
filhos com eles dois que me tornarei uma versão feminina do Ragnar Lothbrook, o
rei dos Vikings.
Charlie, apesar de confusa, sorriu com a brincadeira da
portuguesa.
— Não se anime. Ter filhos é bastante dolorido. Experiência
própria. Você não sentirá sua vagina por três meses.
— Tudo bem, eu posso adotar.
A retornar para o prédio do NOC
no subúrbio de Londres, a cabeça de Patrícia, pela primeira vez em muitos dias,
se tornara mais leve. Graças a Charlie. E como se os conselhos e explicações
não fossem o suficiente, a amiga a dera uma bolsa de couro francês de uma marca
famosa que a mesma não sabia qual era. Esse era o maior problema de Charlie ao
viver com Hiddleston: presentes luxuosos. E Charlie os odeia.
E usa Patrícia para escapar.
Ou seja, a portuguesa
ocasionalmente tem em seu quarto caixas e mais caixas de roupas, bolsas,
perfumes e produtos da elite do mundo. E a única razão pelo qual ela os aceita,
é porque Patrícia tem bom gosto. E, claro, ela adora a liberdade de poder
misturar suas peças de roupa excêntricas com artigos de luxo e provocar
pequenos infartos nas ruas e olhares distantes de madames de vadias ricas. Patrícia
ama encará-las e poder enxergar em seus olhos o pensamento onde aquela mulher
roubou dinheiro para comprar essas roupas e meu deus quanta heresia da parte da Chanel.
Johnny faz o mesmo ao esbanjar
sua fortuna em outro continente e permanecer a viver num prédio rústico. Nós
chamamos isso de ‘Sarcasmo, a língua primordial da humanidade’ ou, como o
italiano costuma falar ‘Filosofia de Tyler Durden, de Fight Club’. Amélia, no
entanto, embora sem saber deste curioso fato de amizade entre Charlie e
Patrícia, também colabora para o derrame cerebral de senhoras ricas da elite
londrina. Ela costuma usar a Ferrari do marido para se locomover e estacionar
em locais luxuosos, porém, sempre se veste como uma lésbica participante de
Orange is the new black. Sem pentear o cabelo. Ela chama isso de ‘Houston, nós
temos um problema’, porque, sim, foda-se eles.
Patrícia suspirou alto ao se acolher
no calor do prédio ao entrar. A neve que caia a fazia pensar em como Portugal
parecia quente, mesmo que o seu país realmente não fosse nada quente. Nesses momentos
a ruiva lamentava pela diferença climática entre o Brasil e a Inglaterra e parabenizava
suas amigas brasileiras pela resistência ao frio. Nesses momentos infinitos de
reflexão, Patrícia enfim entendeu a razão de Charlie nunca sair no inverno. E,
agora, por ver Amy enfurnada em seu quarto desde que chegara na cidade.
Assustando-a, Jess surgiu no corredor com um pincel acrílico em mãos. Seu rosto
angelical parecia perturbado. Patrícia arregalou os olhos.
— Meu Deus! O que aconteceu?! –perguntou
a ruiva.
Jess ofegou.
— Johnny conseguiu driblar o
sistema de GPS de Pokemón Go e agora sabe as coordenadas para capturar os mais
raros! –exclamou, a alargar a boca num sorriso quase psicótico. — Ele encontrou
um Mewtwo.
Patrícia arqueou as sobrancelhas,
mais intrigada do que surpresa. Ela tinha conhecimento da genialidade do russo,
mas nunca a vira em ação até então. E ficara um pouco desapontada que a
primeira experiência tivera sido com um jogo. Mas seu lado fã do anime japonês
e da programação de aplicativos a fez manear a cabeça em um gesto de
positividade e, enfim, marchou até a sala do quadro acrílico para apreciar a
testa franzida do homem de cabelo cinza.
— Então, você come animais mortos
para descobrir pokemóns, que são um tipo virtual de animais que você também irá
capturar? –Patrícia questionou ao russo, de timbre irônico em sua voz.
— Não, eu como animais mortos
porque estou no topo da cadeia alimentar. Descobrir como quebrar o sistema do
jogo é uma consequência que uma boa alimentação me traz. Deverias tentar. Se
comesse um prato do meu melhor churrasco, terminaria suas maquetes em tempo
recorde. –provocou ele, altivo como usual.
— Vocês são incapazes de dizer ‘oi’
e se cumprimentarem como pessoas normais? –Amy interpôs, de semblante
conturbado.
— Quem é você para discutir isso?
Você é louca! –Johnny rebateu, contudo havia um vestígio de humor raro em sua
rouquidão. — Todos nós nesse maldito
prédio somos loucos.
— Eu tenho que concordar com o
homem. –a portuguesa apoiou.
O russo olhou-a com um brilho de
satisfação em suas íris verdes.
— Essa será a primeira vez que o
faz. –disse ele. Abruptamente, seu corpo se arqueou da poltrona e atirou o
pincel –que parecia minúsculo em suas mãos marcadas- acima da mesa de centro e
sacou-lhe o smartphone do bolso, a abrir a tela inicial do aplicativo que
corrupiara. Com os lábios presos em uma expressão maquiavélica, Johnny ergueu o
aparelho a todos. — Estão todos de férias?
Os moradores do prédio pareciam
não acreditar em sua pergunta. Porém, embora conturbados, concordaram com a
cabeça.
— O que quer com isso? –Peter finalmente
inquirira.
— Alguém topa caçar Pokemóns ao
redor do mundo?
Um cochicho mútuo se fez na sala
principal do prédio do NOC. Patrícia, intrigada, juntou-se a cacofonia das
vozes espantadas dos colegas de moradia, a tentar se situar no ocorrido. Os
únicos silenciosos da quadra, não surpreendentemente, eram Johnny, o casal de
loucos e Hans, que preferia rir ao se juntar aos fanáticos.
— O que você quer dizer com isso,
cara? –Peter novamente perguntou. Johnny encarou-o com descrença.
— Está a perder seus neurônios,
químico. O que acha que eu sugiro com a pergunta?
— Não sei, cara, porque você é
doido!
O italiano entortou o riso ao
assisti-los.
— Luchnik quer usar suas férias
para um tipo de... excursão pelo mundo. Mas, ao invés de conhecermos países e
sermos meros turistas, teremos a missão de capturar todos os pokemóns e zerar o
aplicativo.
O NOC pareceu desmaiar. Todos,
simultaneamente.
— Eu disse. A carne deixa ele
louco. –Patrícia finalizou.



A foto da capa dá logo cabo do meu pequeno coração meu deus !! Tanta tesão junta numa só pessoa ~ se abana~
ResponderExcluirAmei todo este capitulo, mais simples sem muita ação mas meu deus, todos esses sentimentos, todas estas conversas dão cabo de mim *O* AMEI demais tudo isto.
Russo a jogar Pokemons é obvio que seria assim ahahah, ele é demasiado louco para ser normal *O*
As conversas entre o Martini e o Johnny sempre são tão educativas ahahah Mas tive de engolir em seco com o que o Italiano gostoso disse ao russo ... Demasiado "profundo" eles se conhecem muito bem .
Estupidamente me senti uma badass por isso ahahah --- — " Não quero estar no prédio quando Patrícia acordar, mesmo." Russo com receios ... se Ariel o visse diria que ele está a ficar um maricas.
Todos os interesses do Johnny são muito admiráveis, para quem não é ligado a mulheres mãe do céu o homem sabe escolher bem !! E me sinto uma diva por estar lá no meio dessa lista.
Putin certamente diria aquelas palavras ahahahha
" A ideia de assistir aquele homem coberto de sangue a deixava inexplicavelmente excitada. Isso a tornava uma mulher louca. " Isto seria o paraiso *O* Eu o violaria na hora.
~imaginando o russo a dizer baby como o Dean ~ ~morta~
Amélia sua doida *O* Cada vez a adoro mais no meio do noc... ela é tão da casa ahahahah uma filha da mãe que manda as dicas e depois sai como se nada fosse ahahahah <3
Charlie a mamã <3
Amo nos juntas ai <3
Ela é tão boa para dar conselhos meus deus, te quero aqui ao pé de mim para deitar a cabeça no colo e chorar com o stress T.T ~ foge para ai~
Ela é tão senhora de si e toda curiosa com os outros mas depois é "timida" com o gostoso do italiano ... eu cá para mim ela tem é medo de cair nas garras dele ... ~ olhar malicioso~
Mas quem é que não iria estar com medo .... Ele engravida só a sorrir meu deus
~imaginando a conversa com o italino~ A sorte é que sou forte de espírito ahahahah
Esta é mais uma prova de como tu me conheces tão ou mais que as pessoas a minha volta
-" Vocês são incapazes de dizer ‘oi’ e se cumprimentarem como pessoas normais? " - Eu normalmente quando tenho confiança com as pessoas, chego ao pé delas logo a falar, se tiver alguma coisa para dizer ahahahah apenas se não tiver nada a dizer é que as cumprimento ahahah Cada vez te amo mais sua louca <3
Lunchnik como eu te amo por sugerir essas ferias *O* Esse homem é louco , quem em sã mente faria uma coisa dessas ??? Mas eu serie sempre turista com a maquina ao pescoço ... Meu deus isso sim é uma aventura em tanto ... QUE SONHOOO *o*
Continua por favoooor !! *O* ~suplica de joelhos~
~faz comidas boas para enviar~