domingo, 24 de abril de 2016

Comic Con Não É Um Bom Lugar Para Se Apaixonar

Flashback. Londres, Inglaterra. Rumo aos Estados Unidos.



A cabeleira cinza de um jovem muito alto sacodia à medida que suas longas pernas vagavam em uma corrida entre os muitos passageiros ao redor do Aeroporto Internacional, a causar um alvoroço de seus colegas que o seguiam na mesma pressa. De malas em mãos, o líder do singelo prédio do NOC – Nerds Obsessivos Compulsivos, estava a xingar mentalmente a maldita aeromoça que não lhe informara que o avião já se encontrava em solo.
— Vamos! Apressem-se, idiotas! –gritava Johnny, a acenar com os braços um caminho alternativo para que os trinta colegas de morada atravessassem.
— Estamos a causar polemica! –Patrícia riu alto logo atrás, a movimentar suas pernas sobre os saltos altos que decididamente se arrependeu de usar. Ela não podia se culpar, é claro. Ninguém adivinharia que seriam enrolados pela comissária de voo.
— Causaremos mais se eu quebrar o pescoço de algum piloto! –o russo instigou-se, a abrir uma trilha entre as demais pessoas. Elas reclamaram em resposta, a sentirem-se pessoalmente atacadas pelo louco de sotaque forte.
— Eu gostaria de ressaltar que se tivéssemos seguido o meu plano de horário, não estaríamos neste problema –Vincent rumou à uma certa distância, incapaz de aproximar-se por conta de suas múltiplas alergias. O mínimo contato com os passageiros o causaria uma incrível onda de coceiras estranhas.
— Cale-se se não desejar que eu corte sua língua! –Johnny rosnou.
Patrícia sorriu tortamente.
A ruiva era a novata da turma do NOC. Há poucas semanas incluída no quarto 09, deixado por Charlie, Patrícia aprendera que para sobreviver no mundo daqueles nerds, era necessário força de vontade para enfrentar certos desafios que, certamente não apareceriam para qualquer pessoa. Como por exemplo, aquela situação embaraçosa no meio do aeroporto era uma delas.
Inicialmente Vincent entrara em colapso ao saber do horário do voo para San Diego, na Califórnia. Seu primo então decidira que convenceria a todos que o melhor era seguir para o aeroporto uma hora antes do planejado, pois sua experiência em voos de Portugal a Londres era o suficiente para lhe dar uma posição de destaque na lista dos passageiros mais azarados do mundo. Com uma cota de 12 voos perdidos e 14 atrasados, obviamente ninguém o ouviria, mesmo.
Johnny por sua vez ameaçou jogá-lo para fora da aeronave se lhe perturbasse com aquilo.
Era duro viver entre aqueles loucos. Mas Patrícia gostava.
— Talvez nós devêssemos aguardar o próximo voo? –Peter sugeriu, a ofegar.
— E NOS ATRASAR PARA A COMIC CON?! alguns falaram em uníssono, inclusive a ruiva portuguesa. — Imbecil!
— Respeitem-no! –a pequena Jess pediu, a defender seu namorado.
— Ignore essa ratinha de laboratório –Nik desdenhou. Era evidente a irritação do homem.
A dizer melhor, irritação era a aparentemente o único sentimento que lhe parecia ter.
Atenção! Última chamada para o voo 3498 com destino à Califórnia, EUA. Embarque imediato pelo portão A-9.
A voz mecânica ecoou pelo aeroporto, a causar arrepios pelos jovens e atrasados nerds.
— SE OUSAREM SAIR EU OS DERRUBO EM PLENO AR! –Johnny gritou, quase a alcançar o balcão de despache de bagagem. — Quem é o maldito dono desta empresa aérea?! –indagou para a moça que ali os aguardava, de cabeça erguida.
— Mr. Alísio Green. –ela lhe informou com a usual e falsamente simpática voz.
— Todos os Greens são imprestáveis? –Johnny murmurou, a lembrar de um velho agente do FBI que o perseguira anos atrás. — Reservamos trinta assentos neste voo. Abra a maldita porta.
— Senhor, acalme-se. Temos que checar os passaportes...
— Eu a farei engoli-los se me irritar, senhorita. –rosnou baixo, como um cão valente. A mulher olhou-o com receio, a desistir seguidamente de enfrentá-lo.
— Senhor, eu insisto...
— Eu paguei miseráveis quarenta mil dólares nessas passagens. À vista. Quer discutir sobre poder? Lhe mostrarei meu talão de cheques. –o russo foi firme, a causar um arrepio involuntário da jovem portuguesa à suas costas.
A comissária endireitou-se na cadeira imediatamente.
— Pode me dizer seu nome, senhor?
— Luchnik. –cuspiu ele.
Ela solavancou sobre o balcão, assustada.
— Perdão! Perdão! Imaginei que o senhor fosse mais velho... –engasgou-se duramente. — Digo, o senhor é presidente de uma Holding poderosa.
— Se eu lhe digo que comprei trinta passagens em dinheiro achas que sou o quê? Um vendedor de rua?
— Claro que não, senhor.
— Então por que infernos as malditas portas ainda não abriram para mim?
— P... per...
— Não quero ouvir suas desculpas. Abra a maldita porta se não desejar que eu embargue esta empresa aérea e chute seu chefe pela janela do último andar de seu prédio e depois a faça limpar os restos mortais do cadáver. –paulatinamente, o russo despejou.
Puta que pariu, ele é quente. E assustador. Gostoso. God. Patrícia pensou, a morder os lábios a segurar uma risada.
Imediatamente as portas foram reabertas, possibilitando que os moradores do NOC adentrassem no túnel que os levaria ao avião pousado.





Patrícia movimentava a cabeça circularmente à procura de arquear seu cabelo ruivo ao máximo possível. Enquanto isso, discutia com Jess sobre suas fantasias para a maior feira de convenções de interesses nerds do mundo. A portuguesa, com suas curvas acentuadas pelo vestido branco de aparência suja –este traje usual – referente à Noiva Cadáver, caia-lhe muito bem, obrigada. E obviamente ela se sentia estranhamente poderosa ao vesti-lo.
— Então Charlie realmente tem uma chance de entrar na Marvel? –Jess replicou. — Isso é incrível!
— Não é? –Pati riu. — Teremos uma infiltrada na rede! Ela poderá nos informar segredos!
— Oh... eu não acho que ela poderá, Pati.
— Claro que pode. É a Charlie. Ela sempre apronta.
— Bem, sim. –Jess calçou os sapatos. — E com Johnny sendo seu professor nisso, ela certamente aprontará.
— Diga-me... se Charlie não fodesse com Thomas, ela foderia com o russo? –Patrícia inquiriu, a causar um arregalar de olhos de sua colega. A portuguesa sempre se esquecia de como a pequena não era acostumada com seu palavreado aberto. — Desculpa-me. Perguntinha básica.
— Vejo que sim. –Jess limpou a garganta. — Então, eu acho que Johnny gosta da Charlie. Ele sempre a persegue e maltrata como faz conosco, mas há uma sutileza nas ações com ela.
— Huh. O russo quer foder com a Charlie. –Pati provocou.
— Mais fácil ele querer foder contigo. –a voz de Peter ecoou pelo quarto, a espantá-las.
— O quê?! –Pati repetiu, incrédula.
— Eu sou o melhor amigo dele. Sei para quem ele direciona os olhares. Sei para qual traseiro ele olha.
— Ora, não diga merdas! –a portuguesa sentiu o rosto ferver. — Johnny a olhar para mim? Haha!
— Bem, pense o que quiser. Mas mantenha os olhos abertos para ele, portuguesa. –Peter riu, piscando-lhe. Em seguida abraçou Jess, dando-lhe um beijo estalado nos lábios. — Está linda, querida. Mesmo verde.
— Obrigada! –satisfez-se a garota. — Sou uma ótima Gamora, não achas?
— E eu um ótimo Star Lord. –Peter retribuiu.
— Arrumem uma cama! –Patrícia exclamou, gargalhando com a intimidade do casal.
Após a cena romântica, Hans aportou no cômodo a chamá-los para pegarem o ônibus alugado para seguirem à Comic Con. Patrícia se perguntou sobre o paradeiro do russo, que não os seguia e nem os xingara até então. Foi informada que ele chegaria um pouco mais tarde, pois acompanhava Charlie em sua entrevista na Marvel. A portuguesa torceu para que a amiga fosse selecionada.
Ao frear do carro de frente para o enorme estacionamento da feira, Patrícia assoviou em exclamação. Era a melhor visão que tivera desde que se deparara com o rosto de Johnny embriagado por baixo de sua máscara de Stormtrooper quando o conheceu na festa de formatura na faculdade. Seus olhos rodearam todos os metros quadrados à frente: uma multidão de pessoas fantasiadas de seus personagens favoritos conversavam animadamente uma com a outra enquanto andavam em direção ao arco imponente de entrada do evento. Pati se apaixonou por dezenas de homens belíssimos em suas armaduras brilhantes, elfos da Terra Média e alguns Hobbits que de pequenos nada haviam. Eram gostosos, inclusive. De repente isso me parece Mordor. Que calor! Pensou a portuguesa, a deliciar-se com a visão.
Desceu do veículo com a câmera em mãos, a tirar fotos até mesmo do chão que pisava. O sol brilhava ao horizonte, fraco, porém cálido. Respirar o ar americano lhe fazia pensar em como o país tinha uma forma estranha de mostrar a todos que era o mais rico e que certamente poderia destruir os outros sem pedir permissão. Nenhum país ousava discutir com ele.
A não ser, é claro, a Rússia.
Porque russos são estranhos.
E é óbvio que a portuguesa não pôde se livrar dos pensamentos sobre o país, pois sua cabeça estava focalizada no paradeiro de Luchnik, sua atual paixão passageira. Mesmo que algo lhe dissesse que aquela paixão duraria para sempre, enquanto ele passeasse com seu corpo delicioso próximo dela. E ela sentia falta daquele temperamento ardido e mal humorado a provocar a todos com sua acidez irresistível. Talvez fosse estranho suspirar por um desgraçado infeliz, mas esses eram os que a mais atraía.
Enfim, vamos pular as ideias pervertidas da ruiva. Passamos para a parte interior da feira.
Plataformas montadas em torno do enorme, enorme, enorme –pense em algo enorme e multiplique por dez- salão da Comic Con; e o barulho de pessoas a conversar, gritar e chorar de emoção fazia Pati suspirar de ansiedade. À princípio ela imaginou que a feira era algo como o desfile das universidades de seu país, a cacofonia errônea e toda a bebida do mundo junto aos jovens loucos. Mas ao visualizar o evento, ela notara o quão errada estava.
A Comic Con era como um orgasmo ambulante.
Um orgasmo ambulante causado por sexo selvagem com Jared Leto, no mínimo.
E a tremer dos pés à cabeça, a portuguesa se desprendeu do grupo e iniciou uma explorada aventureira pelos estandartes da feira. Passeou por painéis de séries, filmes e jogos. Leu prévias de livros ainda não lançados, ouviu músicas novas e aprendeu palavras em línguas diferentes. Tirou tantas fotos que a memória de sua câmera reclamara. Ali era sua nova casa. O cheiro de novidade, o barulho das vozes desconhecidas, o gosto da comida estranha que os nerds faziam em imitação de pratos de ficção e até mesmo a assustadora loucura de alguns fãs a instigava.
— Hey, girl! –a voz animada da criança quase adolescente que ela conhecia bem se anunciou. Ao virar para trás, deparou-se com a imagem querida de Mikhail, o filho adotivo de Johnny.
— Mikhail! –gritou ela, a correr para abraçá-lo.
— Está gostosa! –disse ele, a olhá-la bem. — O que te a fez tão bem? Algum homem na jogada?
— Que nada! –Pati riu. — E quanto a ti, querido?
— A estudar a teoria dos campos quânticos. –falou, a suspirar. — Ótima matéria. Pena que em minha universidade eles idolatram a tese que meu pai escreveu em uma de suas bebedeiras.
— Opa. –Pati franziu o cenho. — Johnny escreveu teses?
— Ele estava bêbado. –repetiu Mikhail, a sorrir. — Então? Onde está ele?
— Com Charlie, na Marvel.
— Charlie? Preciso provocá-la. –o garoto a acompanhou de volta aos painéis, a caminhar juntos em risadas.
Para a surpresa de Patrícia, poucos minutos depois sua visão foi presenteada com a melhor imagem que vira até os seus dias de vida.
O maldito russo adentrava a feira. Seus olhos correram diretamente para o tronco desnudo do homem, este marcado e definido como uma zona de guerra melhorara pelo criador. A pele alva, aparentemente macia, desenhava ondas por seu abdômen malhado e dividido perfeitamente em músculos. O peito forte, porém não tão largo, delineado por mangas de couro de seu sobretudo vermelho caia-lhe irritantemente bem. De calças pretas e botas até próximo ao joelho e uma longa espada pendurada nas costas, finalizava a fantasia mais real de Dante May Cry já feita no universo.
Gostoso. Para. Porra.
Foda-me. Por. Favor.
O cabelo cinza caído sobre o rosto deixava-o com uma aparência assustadoramente sexy. Ela quis lambê-lo todo. Centímetro por centímetro. A maldita paixão não cessava.
Pati sentia que iria morrer se continuasse com aquele homem tão distante de seu corpo.
Assim, correu até Charlie para abraçá-la. O que, também, era uma desculpa para visualizar melhor Luchnik. Girou-a, apertou-a, fez a pobre coitada como um grande urso de pelúcia. Charlie apenas sorriu com a chegada animada da amiga.
— Você já abriu a caixinha? Johnny quase teve um infarto fulminante quando percebeu que ela havia sumido! –murmurou Pati, aproveitando-se da barulheira de tantas vozes para disfarçar a sua.
— Pensei que só pudesse abri-la quando casasse com Thomas.
— Não, esqueça isso. Você deve abrir antes, porque precisa entregar o objeto que está dentro dela para ele.
— O que tem dentro daquela caixa, céus? –indagou a brasileira.
— Tanzanita. –balbuciou a ruiva. — O que você precisa saber é que Johnny iria entregá-la de qualquer maneira, então não se preocupe se achas que roubei. Só adiantei a entrega. –piscou seu olho divertida, fazendo-a rir com as órbitas arroxeadas em volta de seus olhos.
Alguém vestido de Ezio Auditore passou ao lado, deliciando-se com um sorriso malicioso para Patrícia. A portuguesa, ciente da olhada que lhe dera, apenas sorriu torto. Ao contrário de sua passividade, o russo pareceu queimar por dentro.
— Você não é o único assassino aqui, cara. –Johnny intrometeu-se. — Seu personagem é uma marica.
O homem desconcertou-se. Charlie começou a gargalhar,  intrigada com a mudança repentina de humor de Johnny, que começou a rodear a área como um cão de guarda, imitando o caminhar de Dante.
— Vou te dizer, os Templários facilitam muito para vocês. –o russo provocou.
— E você apanhou do seu sobrinho. –rebateu o Ezio.
— Eu vou mostrar para você o que é apanhar se continuar a olhar para ela. –franziu o cenho, ameaçador.
— É proibido? –indagou, sorrindo ironicamente.
— Se quiser continuar tendo dois olhos, sim.
Patrícia esboçou uma expressão de tédio, puxando de um bolso interno do sobretudo vermelho de Johnny uma arma que reconhecia muito bem como de outro personagem do jogo que Johnny estava dando vida.
— Ezio, Dante, não quero ouvir disputas irrelevantes aqui. –balançou a arma em suas mãos. — Johnny, eu já disse que não faço parte do grupo das garotas que você protege no NOC. Eu sei me cuidar bem. Obrigada.
Johnny arqueou as sobrancelhas, afetado. Ezio fez uma reverência muito provocativa para Patrícia e saiu, não sem antes encarar o russo mais uma vez. 
-Não acredito que deixou ele sair vivo. –Mikhail desacreditou-se, indo ao encontro de Johnny. Patrícia entregou a arma para o garoto e Johnny deu de ombros para sua presença, talvez irritado com sua última atitude.
— Mikahail, matar alguém nos Estados Unidos é uma grande burocracia. –murmurou mal-humorado o russo.
— Porque seu pai tem retardo mental, garoto. –Patrícia puxou-o para perto, fazendo uma expressão rude para Johnny. — Essa aí é a Charlie.
— Meu pai tem uma ligeira obsessão por você. –levantou sua mão para me cumprimentar, provocando um riso meu. — Ele nomeou um de seus ratos de Charlie.
— Obrigada. –Charlie apertou a boca, visivelmente confusa.  Johnny puxou o garoto pela gola do sobretudo, levando-o para longe. Patrícia apontou para frente, indicando alguns desenhistas que já havia conhecido antes de chegar a feira. Ela sabia que a apresentação dos desenhistas iria começar.





Quando Charlie finalmente encontrou seu caminho junto aos demais, Patrícia decidiu comprar algo para comer enquanto aguardava a tão esperada notícia de quem seria contratado pela Marvel para o novo lançamento de quadrinhos feitos por fãs. E ao chegar na loja de doces, notou a presença de Johnny encostado à parede, deliciando-se com uma barra inteira de chocolate como se a simples existência da guloseima fosse um ataque à Rússia e a única escapatória era comê-la toda. Patrícia se esgueirou sem deixar de olhá-lo mais uma vez. Os lábios contornados presos na barra, mastigando-a lentamente a fez retorcer o estomago ao associar o que via com algo que ele muito bem poderia fazer entre suas pernas.
Pensamentos maliciosos.
Sempre presentes.
Com uma tosse programada, a ruiva escolheu uma caixa de bombons de licor. Álcool. Ela precisava de álcool para suportar àquilo.
— Você tem algo contra Assassin’s Creed? –Pati perguntou, incapaz de guardar as duvidas o episódio de ciúmes no pátio.
—  Não. –respondeu seco.
— Algo contra o Ezio? –retumbou.
— Não. –replicou o russo.
— Algo contra o homem que me paquerava? –insistiu.
— Sim. –Johnny respondeu, calmo.
— O que tinha contra ele? –a portuguesa investiu.
— Estava a olhar para alguém que não o pertence. –ditou.
— Esse alguém seria eu? –Patrícia pôs as mãos na cintura, questionada.
— Quem mais seria? –ele fez-se de inocente.
— E a quem eu pertenço, russo? –ela retribuiu, a saber que aquela pequena pergunta a assombraria por muitos dias.
A mesma pergunta assombraria Johnny por muitos dias, também.
— Espero que eu possa lhe responder futuramente. –disse ele.
Em contrapartida, Luchnik escorregou o dedo sobre a barra de chocolate e lambuzou a bochecha da ruiva em provocação, a desenhar um pequeno pentagrama invertido. Algo totalmente demoníaco. Patrícia nada fez, pois sua cabeça estava fixada no maldito tronco perfumado e gostoso do homem à sua frente.
Para o terror dos ovários da portuguesa, Johnny roçou seu nariz em seu pescoço e deslizou sua língua por seu maxilar, a seguir então, lentamente, para o desenho formado em chocolate em seu rosto. Ela sentiu sua boca quente em contato com a pele avermelhada em susto; sentiu o cheiro amadeirado e ao mesmo tempo cítrico de seu perfume irresistível enquanto lidava com a proximidade de seu corpo gigantesco ao seu.
Ao fim, Johnny encarou-a friamente. Com seus olhos verdes exuberantes.
Aquele verde que nenhuma palheta de cor saberia formar.
Aquele verde intenso que mais parecia um farol no meio do oceano. A trazer para a superfície após se afogar. Se afogar nele.
E então, Patrícia soube que aquela paixão platônica não acabaria tão cedo.
Porque o maldito era bom demais para ser esquecido e perigoso demais para ser lembrado.








De volta ao tempo normal.


Aqueles olhos estavam a encará-la, novamente. O cheiro de bebida no ar, a tensão sexual e o maldito formigar em suas pernas a castigava intensamente. Ela ainda não se recuperara do desafio feito onde Johnny teria que dormir com ela.
Na cabeça do homem, parcialmente embriagado, a ideia de dormir com Patrícia não era impossível. Após o beijo às pressas que deram na pista de patinação, Johnny entendera melhor o que era aquele ciúme doentio que o causava irritação sempre que a portuguesa estava envolvida. Para alguém teórico e calculista como ele, paixão e atração são coisas que não se podem ser medidas tão rapidamente. Johnny tem um ligeiro retardo mental quando se trata de seus sentimentos. O que há de inteligência em termos acadêmicos, tem de burrice na vida pessoal. Porque afinal, sua personalidade costuma expulsar todos de seu redor.
Menos aquela mulher. Aquela ruiva de olhos curiosos, cabelo cacheado e língua afiada. Nem mesmo Charlie e sua divina paciência o aguentava como Patrícia o aguentava. E Luchnik aprendera a gostar de ser acompanhado por ela.
Ele gostava de seu cheiro. Gostava de como ela sempre vagava pelo prédio e seu perfume ficava impregnado nos cômodos. Gostava de como ela era uma louca por bebidas e que sempre a encontrava alcoolizada pela casa. Gostava de vê-la prender o cabelo com um lápis enquanto trabalhava em suas maquetes, totalmente inerte em seus pensamentos. Gostava também de assisti-la rir. Aquela risada alta, estridente.
Ele gostava de seu sorriso largo e seu sotaque.
Ele gostava de sua voz. Da rapidez com que falava.
De sua pressa. De como ela sempre estava a fazer algo. De como sempre estava ocupada.
Merda, ele gostava dela. E por isso, ele não conseguia levá-la para sua cama. Porque Johnny sabe que quando gosta de uma mulher, ele tende a estragar tudo depois. E perder Patrícia não era algo que ele queria.
— Vamos assistir Netflix? –perguntou ele, a livrar-se dos pensamentos.
— Vamos! –disse ela, a rir. — God, essa tensão estava a me matar.
O maldito sorriso que ele gostava. O maldito humor.
A negar sua própria perdição, o russo ajudou-a a levantar e juntos se acomodaram no sofá. Luchnik configurou a programação em decisão conjunta, iniciaram uma maratona de Daredevil. Ele se sentia melhor em ver pessoas sendo espancadas.
Ela se sentia melhor com a visão de Matt Murdock em suas roupas coladas.
Patrícia inconscientemente encostou-se no ombro de Johnny, a apoiar sua cabeça pesada da bebida. Ele pareceu não se incomodar, apenas olhou-a rapidamente e desviou novamente para a tela da TV. Não se sabia dizer se a ressaca de Patrícia já começara ou se era algo alucinógeno, mas a garota não podia fechar os olhos sem deixar-se ser levada pelo perfume do homem ao seu lado. A proximidade com ele era algo tão inimaginável. Ela sabia que no dia seguinte ele voltaria a seu manto de indiferença e mau humor e que aquela noite só estava bem porque ele não queria magoá-la. Ele era muito bom nisso. Magoar.
Mas ela sempre decidia perdoá-lo. Algo lhe dizia que não era sua culpa ser um bastardo infeliz. E ela se apetecia dele mesmo assim.
Ela direcionou suas órbitas para o russo, que tinha atenção à série. A ruiva analisou o perfil esculpido de seu rosto atentamente. O nariz levemente arrebitado e muito fino. As maçãs do rosto fundas, mas ressaltadas. A sobrancelha clara, falha e quase inexistente. Apenas havia pelo o suficiente para dá-lo uma sombra em seu olhar penetrante. Os lábios levemente inchados, porém ainda delicados. O queixo quadrado. O maxilar perfeito. O pescoço largo e forte.
O cabelo. O cabelo que ela tanto gostava. Aquele cinza não tão branco e nem tão escuro. Como uma gota preta num balde de tinta prata. Um cinza grafite. Uma cor tão difícil. Ela desceu o olhar para suas mãos. Largas, grandes. Dedos longos. Unhas escurecidas. Ela não sabia a razão de suas unhas serem daquela tonalidade. Certamente Johnny não as pintava de preto. Talvez fosse algo a mais de seu mistério. Aquela aparência estranha a fazia suspirar.
Uma mulher estranha de gostos estranhos só podia gostar de um homem mais estranho ainda.
Quando Patrícia se deu conta, Luchnik havia torcido seu rosto em seu rumo. Ele a encarava com neutralidade, como se algo estivesse preso em seu nariz. Era aquele olhar de sempre. Inquisitório. Impenetrável. Com tantos significados que ela sequer sabia como entender. Podia ser algo ruim. Podia ser algo bom. Ele nunca deixava transparecer.
Luchnik inclinou-se levemente, roçando a ponta de seu nariz no dela. Sua respiração controlada a fez se esquentar.
Não faça isso. Pensou ele, a repreender a atitude que seu corpo fazia. Controle-se.
Mas o corpo gritava um ‘foda-se’ enorme.
E quando menos se esperou, ele preencheu os lábios dela lentamente. Patrícia solavancou de susto, sem acreditar no que estava a acontecer. Aquele maldito homem estava a beija-la de novo. Duas noites seguidas!
Ele pediu passagem para a língua e ela cedeu de bom grado. Com o gosto de sua boca, a ruiva revirou os olhos fechados e suspirou. O sabor da vodka ainda estava em seu paladar. Ela deslizou a ponta da língua por cima da dele, lambendo-o lascivamente enquanto o via dobrar a sua contra seus lábios. Ele a mordeu com afinco, quase dolorosamente. Ela apenas gemeu contra sua boca.
O russo agarrou-a pela nuca, a afundar seu rosto contra o dela. Possessivo, desbravou cada mínimo canto de sua cavidade como se por trás de suas bochechas houvesse um tesouro a ser encontrado. Ele sorriu mentalmente ao lembrar que lambera seu rosto em provocação pouco tempo atrás. E agora, sua língua estava enrolada na dela.
Johnny acariciou seu cabelo com certa agressividade, mas Pati parecia não se importar. Aparentemente ele não tinha a mínima ideia de como ser delicado.
E ela não tinha reclamações sobre isso.
Ela apertou os ombros do homem, a procurar um lugar para livrar-se de sua ansiedade e emoção. O fôlego começava a faltar, mas eles dois não decidiam se soltar tão cedo.
Gostavam da sensação de estarem a explorar um ao outro. Mesmo que aquilo fosse apenas um beijo.
Um beijo depravado.
Ela estremeceu a um som próximo a um gemido, dito por ele. God. Como pode beijar tão bem e ainda rosnar? Ela pensou.
Em súbito, ele desgrudou seus lábios dos dela. Ofegante, ele a encarou. O rosto da garota estava vermelho como fogo. A boca entreaberta, ainda com memória do beijo, excitou-o de uma forma que ele nem saberia explicar. Desejou que aquela boca estivesse em outro lugar de seu corpo.
Logo abandonou o pensamento.
Para ser substituído por outro.
Ele queria prová-la em outra parte do corpo, também.
E merda, ele queria muito isso.
Sexo é coisa para retardatários e idiotas. Sexo diminui o quociente de inteligência. Sexo nunca levou ninguém ao prêmio Nobel. Sexo é opcional. Sexo faz os humanos parecerem animais.
Sexo é proibido.
Não magoe a garota.
— Próximo episódio. –murmurou sua voz de trovão.
Claro, se eu ainda tiver forças para isso. Porra!!!! Pensou Patrícia.

A espiar pelo corredor, um italiano sorriu silenciosamente enquanto comia um pêssego. A cena ficaria mais estranha se detalhasse que o homem usava apenas boxers e que há poucos minutos estava a foder sua mulher, mas dane-se, o NOC é estranho.
— O russo vai perder a virgindade, finalmente. –ele sussurrou provocativo, rindo consigo mesmo.
— Ele parece beijar melhor que você. –Amy disparou, a morder sua fruta. Ele a fitou irritado.
— Nós acabamos de fazer sexo e você diz que ele beija melhor que eu?
— O que eu posso dizer? Acho que estou a ficar excitada novamente. –ela gargalhou abafado, a virar as costas para o homem. Ele a seguiu com o olhar, vendo o traseiro empinado e delicioso dela sumir pelo corredor.
No dia que Luchnik souber o que é cair aos pés de uma mulher, será sua perdição. Porque uma vez com elas, dominado você é. Pensou ele, distante.





Eram seis da manhã quando algum infeliz bateu na porta do NOC. Johnny, acordado desde a madrugada a assistir Daredevil com Patrícia –esta adormecida ao seu lado no sofá- , apenas largou o controle sobre a mesa de centro da sala do quadro acrílico e suspirou. Não atendeu.
Em resultado, as batidas irritantes voltaram a ecoar. O russo, raivoso, levantou-se e decidiu por um fim no incomodo.
Abriu a porta.
Dois homens de terno e bíblias sobre os braços sorriram maravilhados com o atendimento. Johnny, percebendo que eram crentes, desejou atirá-los uma pilha de livros de física e ensiná-los que não houve nenhum homem de barro.
— Você tem um minuto para falar sobre o nosso Senhor? –um deles perguntou, sorridente.
Luchnik juntou as sobrancelhas.
— Não. –foi direto.
A voz rouca carregada de mau humor não foi o suficiente para que os testemunhas de Jeová fossem embora.
— Sua vida terá uma nova visão após o que iremos lhe ensinar... –o outro homem insistiu.
— Sua fé irá se multiplicar! –o outro repetiu.
— Eu sou ateu. –Johnny interrompeu-os, seriamente.
A frase fez com que os cristãos abrissem a boca em horror. O mais alto, cujo perguntara a ultima vez, inclinou-se como se falasse com alguma entidade invisível. O russo, observando atentamente, desejou retornar a cozinha e apanhar algumas facas.
— Podemos fazê-lo mudar de ideia! Dá-lo algo para seguir! –falou o mais baixo.
— Sua alma ficará livre dos pecados! –o outro prometeu.
— Pecados. –o russo sibilou. — Gosto de colecioná-los. –foi sádico.
Os dois hesitaram.
— Isso não é algo que se diga, jovem! –ralhou um deles. — Tens que comprar tua entrada no paraíso! Você já escolheu onde passará a sua eternidade após a morte? –o testemunha perguntou.
— Sim, no fogo do inferno. Tenham um bom dia. –o russo ameaçou fechar a porta, mas um pé o interrompeu. Péssima ação. Irritado, Johnny puxou a maçaneta e prendeu o sapato de aparência barata entre a parede.
— Argh! Abre essa porta! –gritou o machucado.
— Livre-se dos teus pecados, ainda há tempo! –resmungou o outro. Johnny abriu a porta, novamente. O homem de pé preso puxou a perna de volta, murmurando grunhidos de dor.
— Não queira ir ao inferno, jovem... –sussurrou como um segredo. — Apenas um pecado é o suficiente para levá-lo até lá!
— Veja bem. –o russo saiu do prédio, de postura neutra. Encarou os dois homens como se em suas cabeças existissem alvos e em suas mãos um arco e flecha de aço. — Se um pecado é o suficiente para nos levar ao inferno, por que não cometemos mil e entramos junto ao diabo como lendas? –sorriu torto, enviesado.
Os cristão puseram-se a se despedir.
— A escolha é sua... –gaguejou eles.
— Vejo vocês no fogo do inferno, queridos. Tenham um ótimo dia!
Lá estava o assassino russo novamente.

Pobre Patrícia. 
 

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