quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Filosofia literária nos levam a Pokemóns




Algumas mulheres trajadas provocativamente formaram um cerco ao redor do russo que, abstido na extravagantemente grande tela de smartphone, sequer notou. Ele tentou afastá-las com um aceno grosseiro de mão, mas as garotas pareciam querer entender sua atitude.
— Vocês podem sair do meu caminho? –rugiu ele, encarando-as, então.
— Querido, você está em um espaço reservado para encontros casuais e sexo. –uma delas deu uma risadinha, gesticulando de forma que o alto homem notasse onde estava a ir.
— Eu sei onde estou. –ele respondeu.
— Então... o que deseja? –a mesma interrogou.
— De vocês? Nada. –ignorou-as.
Elas pareceram levar um balde de água fria.
— Então o que está fazendo aqui?! –perguntaram-lhe, inquietas.
— HÁ A DROGA DE UM POKEMÓN NO ESTANDE DE VOCÊS! SAIAM DA MINHA FRENTE!
Irritado, Johnny empurrou-as para os lados e seguiu o rastro da câmera de seu aparelho eletrônico, arfando em impaciência.
Você deve estar se perguntando ‘O que diabos estou lendo?’ ou então ‘Bem, eu sei que lembro que parei de ler no beijo entre o russo e a portuguesa! Que diabo é isso?’. E suas dúvidas serão saciadas, querida.
Johnny, muito preocupado com o destino que os beijos e esforços íntimos da noite passada, decidiu carregar Patrícia até o quarto 09 após vê-la a dormir no sofá e, antes mesmo que fechasse a porta, um certo italiano o parou no corredor.
— Noite longa, hein? –provocou-lhe, a encostar-se na parede.
— Não sei do que está a falar –o russo checou o relógio e franziu a testa. — De acordo com a matemática, a noite passada teve a mesma duração que qualquer outra noite.
— Isso é um modo de fuga que os psiquiatras chamam de ‘sou um bebê babão e não sei arcar com as consequências de ter beijado Patrícia diversas vezes em meu sofá de couro velho e provavelmente também não sei lidar com o fato de que esse foi o meu primeiro beijo em cinco anos e que também há a possibilidade da ruiva nunca mais falar comigo, porque eu sou um grande idiota e não sei agir com as mulheres, mas tudo bem, eu posso me esconder por trás dessa máscara de sangue frio russo e me prender no quarto da mesma forma que Stalin faria se ainda estivéssemos em guerra’ mas claro, quem sou eu para repreendê-lo com isso... –o italiano falava diretamente, com calma impassível. Ciente de seu próprio sarcasmo a alto nível, ele encarou a porta de madeira do ex-quarto de Charlie e suspirou. — Qual é, cara, se eu fosse você, estaria lá dentro, agora.
— Talvez sua voz e companhia seja mais apreciada no quarto de cima, com sua bela esposa que certamente seria sexualmente mais satisfeita se continuasse com o inglesinho mela-cueca. –Johnny rebateu, abrupto como sempre. Seus olhos verdes faiscaram irritação. O italiano, no entanto, apenas apertou suas íris azuis por trás das pálpebras e soltou-lhe um sorriso torto cafajeste.
— Está a começar a aprender falar como homem. Ótimo.
Johnny crispou os punhos.
— O que inferno você quer, Martini?! –rugiu entredentes, a forçar sua voz não sair como um rosnado alto suficiente para despertar a ruiva do outro lado.
— O comunismo. –brincou ele, a olhar para a parede com humor. — Mas, para hoje, dou-me por satisfeito se tu me acompanhares a um clube.
— A julgar tua personalidade, o clube é horrível.
— A tirar as mulheres nuas e o assédio sexual, é suportável.
— Cacete. Tu não pensas em nada além de sexo, cretino?
— Em comunismo. Mas como eu disse, não por hoje.
Luchnik segurou sua ira como faria se pudesse segurar o pescoço do homem em sua frente. Ele o asfixiaria lentamente, cravando suas unhas em suas artérias e assistiria seu rosto se transformar em uma bola inchada de cor roxa. Seus olhos se tornaram vermelhos por conta do sangue.
E, só então depois de toda a tortura, ele o quebraria o pescoço com uma torcida tão forte que os ossos de suas vértebras sairiam para fora da pele.
O pensamento fez o russo respirar melhor.
— Não quero estar no prédio quando Patrícia acordar, mesmo.
E assim, ele aceitou.
Veja bem, Johnny é reconhecido mundialmente por sua coragem irresponsável. Se queres que ele pule de um avião, ele o faz. Se queres que ele invada a casa de um milionário com apenas uma espada em mãos, ele também o fará e talvez a rir. Mas lidar com pessoas, mulheres, não era o seu forte. A bebida o tornava mais volátil para romantismo e a vodca incendiava partes de seu corpo que ele sequer sabia que tinha, mas o que o fez agarrar a ruiva na outra noite não era fora isso.
Bebida alguma o faria perder o controle.
Mas Patrícia, talvez.
Era esse pensamento que o assustava todas as vezes que fechava seus belos e extremamente verdes olhos. Perder o controle. Por uma mulher.
Merda, isso acontecera com Charlie no maldito ano em que a mesma se mudara para o prédio. E, para seu total desprezo, a outra ruiva se envolvera com Hiddleston antes mesmo que ele pudesse perceber o quão afetado ele se tornara por ela.
Ruivas. Sempre ruivas. Se contabilizassem todos os interesses femininos que o jovem Luchnik tivera em toda a sua vida, essa seria a lista, em ordem cronológica.
1— Velma, de Scooby-Doo
2— Hermione Granger, de Harry Potter
3— Yggrite, de Game of Thrones
4— Donna, do seriado Suits
5— Kimmy, de Unbreakable Kimmy Schmidt
6— Wisty, da trilogia Bruxos e Bruxas
7— Amy Pond, de Doctor Who
8— Charlie, a maldita do quarto 09
9— Patrícia, a outra maldita do quarto 09 que não existia para ele até uma maldita viagem na qual ela o ajudara a cuidar de sua empresa em Singapura e agora a maldita não saía de sua fodida mente.
A contabilizar as não-ruivas:
1— Ksenja, a maldita que fora assassinada e quebrara o coração do russo
2— Jaimie Alexander, a badass do seriado Blindspot (ele beijaria cada uma de suas tatuagens, duas vezes).
3—Amélia, a doida que o italiano não merecia ter (o russo amava a forma que ela era rude, bebia como uma raposa louca, sabia lutar e assistia programas que ele achava que ninguém assistia)
4— Lagertha, do seriado Vikings. Esta nem mesmo ele sabe explicar a razão. Ela é badass, somente. Don’t mess with Lagertha, bitch.

Eis o que elas têm em comum: chutam bundas.
E russo ama chutar bundas.

Retornando, nosso querido Johnny estava a caçar pokemóns. O italiano prometera voltar para sua companhia assim que buscasse algo para sua mulher dentro do clube erótico. Sozinho e entediado, Johnny decidira sacar seu smartphone e jogar um pouco de Pokemón Go. Para a sua sorte, ele logo recebera o alerta de um Charizard entre os estandes de roupa íntima próximas a ele. Foi o sinal para agir.
Se o ilustríssimo presidente Vladimir Putin observasse um de seus melhores mercenários a vagar por uma loja repleta de mulheres, mas não à procura de sexo, mas de pokemóns, ele certamente diria, num tom de voz ameaçador como um sádico: A maldita Inglaterra fode a cabeça deste homem! Tragam-no de volta para a Rússia!





De volta ao NOC, os dois homens saíram da Ferrari Califórnia cor de vinho com objetos diferentes em suas mãos. O italiano, satisfeito, carregava uma sacola de papel com uma fantasia erótica que provavelmente assolava sua mente desde que a vira e o russo, esse mal humorado como sempre, com um balde de carne frita, bastante molho de churrasco e uma garrafa de uma boa vodca russa.
— Largue esse animal indefeso agora mesmo, Johnny Grigory Luchnik! –era a voz de Patrícia, a gritar por sua janela no segundo andar.
Ele encarou-a com inquisição no semblante.
— Que animal? –ele retribuiu, calmamente.
— Esse bovino em seu balde! Seu assassino! –rebateu.
O italiano, logo ao lado, pensou em dizer o quão certa ela estava ao referi-lo como assassino, mas sabia que o russo ainda não contara a ela sua história sombria. Então, a rir com a situação, ele apenas adentrou o prédio.
— Não me venha com essa conversa de vegetariano agora, ruiva. –ele rosnou.
— Carne faz mal a saúde. –ela disse.
— Bebida alcoólica também, mas nós a bebemos. –Touché.
— Bebidas não são feitas de animais mortos. –ela era igualmente boa no debate.
Johnny mergulhou sua mão esquerda no balde, a apanhar seu bife apimentado com os dedos. Ainda a encará-la, ele mordeu como um selvagem viking e ignorou os bons modos –ele não tinha bons modos, mesmo- a comer sem qualquer pudor.
Patrícia entreabriu a boca para reclamar de sua repugnância, mas o molho de churrasco manchara o rosto pálido de Johnny como se, de certa forma, fosse sangue. A ideia de assistir aquele homem coberto de sangue a deixava inexplicavelmente excitada. Isso a tornava uma mulher louca.
— Eu comeria isso até se fosse carne humana, portuguesa –ele balbuciou, a chupar os dedos. — Não seria capaz de fazer metade das coisas que faço se não me alimentasse de carne. Sou um leão, baby. Sangue faz parte da minha dieta.
Porra. Era o tipo de frase que afastaria qualquer ser humano normal.
— Não fale ‘baby’ como se fosse o tal Christian Grey, cretino!
— Grey? O suposto CEO com insegurança interpessoal, frouxo e mais fresco que um veado em um concerto da Beyoncé? Não, obrigado. Eu falo baby como Winchester chama o Impala.
Dito isso, ele adentrou o prédio.
E Patrícia, inerte na discussão –aquilo foi uma discussão?- ainda ponderava a ideia do russo tê-la chamado de Impala.
— Então, baby, você é o Impala daquele cara agora. –a doidinha brasileira, que estava sentada em sua cama a observá-los conversar, provocou. — E como mulher de outro doido por carros, eu digo-te, é uma porra de um elogio e tanto. Ele pode ainda não saber, mas já te ama.
— Por isso tu és doida, Amélia. –Patrícia murmurou, a fechar a janela. — Argh. Nem mesmo eu suporto esse papo de amor. Amor é para idiotas.
— O sexo que vem com ele é ótimo. –a brasileira comentou, a morder o lábio em humor. Patrícia arqueou as sobrancelhas.
— Damn, girl. –falou em gracejo. — Tu podes dizer isso, porque teu homem é gostoso como um inferno. Mas o ‘meu’ homem, apesar de ser igualmente gostoso, não reconheceria um sentimento mesmo se esse o aparecesse vestido como uma AK-47 diante de um terrorista.
Amy riu-se.
— Querida, acredite em mim, o teu homem sabe como usar uma arma. Entenda como quiser.
Dito isso, Amélia a deixou sozinha, porém não sem antes dá-la um olhar instigante. Patrícia, agora a sós, grunhiu como uma gata mal humorada e retornou a fitar o horizonte através de sua janela. O céu avermelhado de Londres encobria a cidade como um manto colossal cujo abraçava os prédios e refletia suas cores nas vidraças que faziam parte do estilo arquitetônico do centro da cidade mais ao longe. A rua do NOC, entretanto, permanecia na mesma quietude sobrenatural. A ruiva se indagou, pela milésima vez, a razão do russo tê-lo comprado aquele prédio tão antigo em uma área não-nobre da cidade, embora tivesse dinheiro o suficiente para isso e muito mais. Talvez esse fosse mais uma de suas misteriosas formas de agir e até mesmo, num futuro próximo, ele imaginasse remodelar a área e transformar o prédio num chamativo a mais. Tudo era de se esperar de Johnny.
A abandonar sua linha de raciocínio, a mulher tomou um banho rápido e trocou-se na mesma rapidez, a dirigir-se, então, para a cozinha. Ela quase se arrependeu de ter descido o andar. A caminhar pelo corredor, observou as velhas garrafas de bebida alcoólica ingeridas na noite anterior; os pratos sujos de comida sobre a pia; a bagunça na sala do quadro acrílico e, para o desmaiar de sua consciência, deu-se conta de que ainda não lembrara do que havia acontecido entre Johnny e ela.
Culpou a bebida por isso. A agarrar seus cachos com os dedos, a ruiva permaneceu paralisada diante do sofá onde, de acordo com suas memórias rasas, havia sido o local de seus beijos ardentes com o homem. Involuntariamente, Patrícia deslizou a ponta dos dedos sobre os lábios inexplicavelmente doloridos –agora ela tinha um argumento – e riu-se sozinha, não de felicidade ou prazer, mas de nervosismo. A fitar a sala quase escura, fechou os olhos e deixou-se cair no estofado, com o corpo pesado de justificativas não alcançadas.
— Não, nós não fizemos isso... –ela balbuciou para o relento, incrédula. — Ele estava bêbado como um gambá e eu também.
A bater em sua testa, a mulher refletiu por incontáveis minutos. Uma vontade de gargalhar por descrença entorpeceu seu corpo, porém, mesmo sem ela entender, ao invés de rir, prendeu uma crise de choro. Por que raios estou a querer chorar?! Ela sabia a resposta, mas não queria acreditar em tal futilidade. Merda, não. Por que tudo parece tão confuso em minha cabeça?! É este maldito homem! Ele nunca age como um ser humano! Ora me beija, ora me ignora!
A ruiva ponderou em sua mente o que poderia responder suas perguntas à respeito de Johnny. Ninguém entendia aquele homem. Ninguém jamais se dera ao trabalho de tentar compreende-lo e ela não seria a primeira a isso. Ou seria? Patrícia suspirou em reação à ansiedade que assolou seus nervos e praguejou baixinho suas frustrações. Ela sentia como se lidasse com uma pessoa com perda de memória ou humor volátil. Uma pessoa que um dia a reconhecia e no outro, não. Isso a doía. A machucava. E essa ideia de se machucar a fazia sentir raiva, porque ela era uma mulher resolvida. E dúvidas, receio e dor não eram coisas que ela pensava sentir por conta de um homem.
Principalmente por Johnny. Porque ele, acima de todos os homens, não era alguém com quem se entrava numa briga.
Ela se recordou da noite de natal, em que ele a fez se sentir como uma adolescente feliz. Ele a presenteara com coisas maravilhosas, a levara para passear de moto em plena nevasca e depois, como se já não fosse o suficiente, a ensinara a patinar no gelo sem cair. Naquele momento, debaixo das luzes coloridas natalinas, encobertos pela névoa gélida da nevasca e o ar que escapuliam de suas bocas sempre que se falavam, o universo parecia ter parado para observá-los. Johnny, de repente, era alguém acessível. Ele sorrira um pouco para ela. Aquele sorriso delicioso que nem mesmo ela sabia que ele tinha. Porque nunca o vira sorrir com sinceridade.
E, depois, ele a beijara.
Patrícia imaginou que morreria naquele instante. Não por paixão, por satisfação ou futilidades amorosas. Ela morreria de surpresa, pelo gesto do homem. Ela morreria de curiosidade para entender a razão que explicava seu comportamento com ela. Será que ele gosta de mim? Ou o espírito natalino o fizera agir sem pensar? Não, ele não parece alguém que age sem pensar. Ele é russo. Por que ele é tão sensível e agradável às vezes e, noutras, é um completo selvagem irresponsável, grosseiro e solitário?
Ele ao menos sabe o que causa em mim? Ou ele sabe e se diverte com isso?
Ele é um psicopata? Um sociopata?
E por tens que ser tão gostoso daquela forma?!
O que eu fiz para merecer isso?!
Merda!
A recuperar seu fôlego, a mulher se arqueou do sofá com a pouca força que coletara de suas reflexões. Uniu-se a seu casaco –o mesmíssimo que Johnny a dera- e, com relutância, encarou o frio da cidade rumo à parada de ônibus. A ouvir um rock progressivo em seus fones de ouvido, Patrícia trilhou as ruas com a mente a viajar em outra dimensão. A cidade a acompanhava por onde quer que ela fosse. Luzes natalinas continuavam a enfeitar a vitrine de lojas e a montar figuras de animais e papais Noéis ao redor das propriedades; as pessoas trilhavam as calçadas vestidas como pequenas bolas de tecido cobertas com tanta roupa e, outras, elegantes como modelos com seus sobretudos e botas de couro.
Patrícia deu-se por louca quando encostou-se ao portão gigantesco da casa de Hiddleston. Às vezes ela não acreditava que se tornara amiga íntima do cara. Ou que sua amiga Charlie era sua esposa. Ou até mesmo que Hamish, o filho deles, era seu afilhado. E Johnny o padrinho. Porque eles fazem isso de propósito.



Após alguns toques, a própria Charlie abrira a porta para que ela pudesse entrar. Com um sorriso cansado em seu rosto jovial, a outra brasileira abraçou-a fortemente e a convidou para tomar um chá. Agradecida, Patrícia respirou melhor com o aconchego da casa quentinha. Juntas, elas foram até a cozinha colossal de móveis planejados adornados em granito e aço. Patrícia tinha uma atração perigosa com móveis e decoração. Era seu trabalho, afinal. E a casa dos Hiddlestons era como a Comic Con dos design de interiores. Cada centímetro daquele lugar era batizado por elegância e bom gosto. Luxo, praticidade, grandiosidade e criatividade.
Charlie odiava aquele lugar.
— O que a traz aqui, logo em um dia de nevasca? –a brasileira perguntou, servindo-a uma xícara enorme da bebida quente. A ruiva assoprou o calor e bebericou.
— Preciso fazer algumas perguntas a você, se não se importar... –admitiu.
— É claro que não. –Charlie deu um pequeno riso, porém deu-lhe sua expressão de curiosidade. — Sobre o quê são as perguntas?
Patrícia respirou fundo. Apesar de ser bastante franca e sincera com as pessoas, a portuguesa tinha certos receios ao falar de sua vida pessoal. Mas Charlie era como sua irmã, em muitos aspectos. Tinham os mesmos gostos. As mesmas ideias. Até falavam o mesmo idioma.
— É sobre o russo. –desabafou. Charlie alargou os lábios rosados com quase malícia e Patrícia a interrompeu instantaneamente. — Não é o que está a pensar!
— No que estou a pensar? –provocou a amiga.
— Sexo, certamente. Porque tu és uma incorrigível.
— Está me confundindo com a Amélia. –Charlie desdenhou.
Foi a vez de Patrícia sorrir.
— Sente ciúmes dela com Thomas, não?
Charlie bebericou o chá como se fosse um copo de cerveja. A coloração de seu rosto se tornou vermelho e a portuguesa riu-se ainda mais, pois sabia que ela havia ingerido a bebida quente demais. Mas a amiga era durona. Aguentaria aquela queimadura na boca por tempo necessário até que Patrícia parasse de gargalhar.
— Ora, ela anda para cima e para baixo com aquele traseiro arrebitado e Tom já esteve dentro dele. –argumentou, rude. — Ela tem cara de vadia.
Patrícia inspirou.
— Ela é uma vadia legal. –a portuguesa comentou. — Libertina. Bissexual. Resolvida sexualmente, independente, luta kickboxing, tem um Mustang e um marido gostoso. Bem, eu quero ser essa vadia algum dia.
Charlie engasgou-se.
— Podemos voltar com o assunto do russo, por favor? –pediu a brasileira.
Patrícia cruzou os braços acima do mármore do balcão, a endireitar sua postura. Sequer sabia por onde começar.
— Primeiro... tu sabe dizer se ele tem algum problema psiquiátrico? –a ruiva questionou.
— Ah... –Charlie passou a contar com os dedos. Patrícia se preocupou. — Talvez... bem, sim, ele tem. Não sou capaz de contabilizar.
— Porra! Ele é realmente louco?!
— Não! –Charlie defendeu-o. — Ele teve uma vida difícil, Pati. Muitos traumas. Viu coisas horríveis. Fez coisas horríveis.
— Está a começar a me assustar.
Charlie soprou o ar pela boca, entrecortada. Então, subitamente, ela entrelaçou a mão nas de Patrícia e puxou-a em direção a sala, a desviar dos brinquedos de Hamish jogados sobre o chão. Juntas, sentaram-se no sofá em formato de L.
— Johnny tem muitos problemas de personalidade, Pati. –foi direta. — É chamado Transtorno de Personalidade Limítrofe.
— O mesmo da Amélia?! –Pati se excedeu, a gritar espantada.
— Sim, o mesmo. Mas eles diferem bastante em seus estados de humor. –Charlie disse, a tentar se lembrar do que lera no perfil psicológico do russo ao descobrir que ele era um mercenário, dois anos atrás. A palavra mercenário era proibida nos diálogos com Patrícia, por pedido pessoal de Johnny. — O Nik é como uma concha com pérolas roubadas, entende? Todos nós nascemos com uma personalidade principal, a qual desenvolvemos com o passar de nossos anos, certo? O Johnny não teve isto. Bem, tudo o que eu posso lhe dizer que ele foi impedido de ter sua própria personalidade, pois vivia num rígido governo e seguia regras lamentáveis. Ele foi ensinado a fazer certas coisas desde quando criança e cresceu sob essa perspectiva. E essas coisas o atrapalharam no desenvolvimento emocional. Por isso o quociente intelectual dele é tão alto e ele é um gênio. Quanto maior o intelectual, menor o sentimental.
Patrícia assemelhava-se a um desenho animado, porém sem a parte animada. Ouvir a voz da amiga a explicar um pouco de Johnny era como receber uma carga elétrica de dúvidas, questionamentos, angústia e empatia pelo homem. Uma enorme curiosidade torturou sua cabeça: o que diabos havia acontecido com ele?
— Sabes de algo a mais? –gaguejou a portuguesa.
— Sei que ele não sabe quem é. Quando o conheci, Johnny era um nerd mal humorado que gostava de reclamar. Com o passar do tempo, viramos grandes amigos. Ele, mesmo com aquele jeitinho abrupto, sabia me fazer sentir bem. Ele é engraçado, às vezes. Me fazia rir. E quando ele bebe, deus...
— A primeira vez que o vi, ele estava bêbado. –Patrícia sorriu quase comovida, a recordar-se da noite em que o vira, vestido de Stormtrooper, na festa de formatura da Universidade em que ele dava aulas e que Vincent a convidara. Também, no mesmíssimo dia, conhecera o NOC. E Hiddleston. — O melhor dia da minha vida. –falara ela, humorada.
— Ele me fazia chorar e rir no mesmo dia. Passava meses sem dar-me um oi e em uma semana levava-me para jogar Dungeons and Dragons. Dizia-me para esquecê-lo e outra vez foi ao Brasil me visitar. Ele é repleto de polos opostos, Pati.
— Sim, disto eu sei bem. –ela suspirou.
— Eu acho que Johnny tem vários Johnnys dentro dele. Mas ele não sabe uni-los numa pessoa só.
— Como Jaime? Múltiplas personalidades?
— Não... mais como Jack, de Fight Club.
Pati pensou.
— Agora estou a imaginá-lo a lutar.
Charlie riu internamente, segurando-se para não dizer ‘Ele luta melhor que os caras do filme, Pati, querida’. Mas, ao invés disso, ela acariciara seus ombros e beijou-lhe a testa carinhosamente.
— Sei que há algo entre vocês desde aquela primeira dança na universidade. E, querida, é algo grande. Tudo com aquele homem se torna intenso, possessivo e interminável. Você vai ao inferno e chega aos céus com ele. Johnny é um demónio e um anjo, simultaneamente. E foi por isso que pedi para que você tomasse meu quarto quando eu partisse. Sei que você lidará bem com aquele russo impossível.
Pati mordeu os lábios, quase emocionada. Charlie era como um livro de conselhos ambulante. E, depois que se tornara mãe do pequeno Hamish, ela ficara melhor nisto. Era como uma mãe para todos que a procuravam. E a coitada ainda tinha 23 anos!
— Como sabe que isso é romance, Charlie, sua doida? Eu só disse que queria perguntar algo sobre ele! –Pati se indignou, gracejando.
— Depois do natal, eu aposto que há algo a mais que amizade entre vocês. Querida, eu sou míope, mas não sou cega.
Patrícia deu-se a gargalhar.
— Ele me beijou. –secretou, divertida.
Charlie abriu a boca.
— Oh meu deus! –exclamou, incrédula. — Ele beija?!
— Muito bem, posso lhe dizer...
— Merda, e como foi?
— Intenso. –disse, sem vergonha alguma. — Ele... segura meu rosto com as duas mãos quando o faz. É como se me prendesse diante dele, como se eu pudesse fugir de seu toque.
— ‘Quando o faz’, então foi mais que um beijo???
— Bem, ontem nós nos beijamos após aquele jogo de verdade ou desafio. Nos beijamos muito. –a ruiva mordeu a parte interna da bochecha, conturbada. — Talvez tenha sido a bebida, mas, deus, ele me beijou como eu nunca fui beijada antes. Foi... lascivo. Quente. Por alguns segundos tive a ligeira ideia que iríamos tirar as roupas e transarmos naquela sala. E eu quis que ele fizesse. Deus, como eu queria. Foi tão arrebatador.
— Conte-me mais, estou a amar isto. –Charlie ditou, de rosto sério.
— Você já viu aquele abdômen, certo? Aqueles braços que poderiam nocautear uma pessoa num abraço?
Charlie revirou os olhos, tentada.
— Qual é, garota, eu passava metade do dia a olhar para aquele tronco.
Pati riu-se.
— Imaginas aquele corpo todo em cima de ti. Estávamos assim, ontem. Eu abracei sua cintura, toquei suas costas largas, senti seu perfume, seu calor por cima do moletom. Não sei como continuei sã.
— Puta que pariu.
— Eu não sei como, mas ele conseguiu ser ainda mais tentador que aquela dança que o italiano fez comigo.
Charlie balançou a cabeça, como se seus cabelos tivessem a pegar fogo. Era o desespero de imaginar os dois homens. Pati entendia bem.
— Por favor, não fale daquele homem. –pediu a amiga brasileira. — Ele não é um bom...
— Ah, ele é bom. Muito bom.
— Não, ele não é. Ele olha para mim como se quisesse...
— Te foder. –a portuguesa completou. Charlie, chocada, negou. — Querida, ele quer. Ele mesmo disse a mim.
Charlie sentiu-se tão pequena e envergonhada que poderia esconder-se numa caixa de fósforos.
— Como ele pode dizer isso sobre mim? Ele é casado. Eu sou casada. Céus.
— Acho que eles chamam isso de orgia. Quando ele fala que quer te foder, ele quer te foder junto a mulher dele.
Charlie poderia desmaiar com aquilo.
— Sabe qual é uma boa ideia? Converse com o italiano sobre o russo. Ele é marido da louca, então sabe lidar com este transtorno. E, além disso, é amigo do russo. Ele responderá melhor do que eu. –engoliu em seco.
— Ele responderá, mas eu não irei entender nada, porque estarei ocupada a imaginá-lo nu.
— Bem, compreensível.
— Aqueles olhos podem te engravidar.
— Não, obrigada.
— Eu faria dez bebês com ele.
— Foque no russo, Patrícia. No russo. –Charlie enfatizou.
— Eu faria vinte filhos com o russo. Meu útero é bom, realmente bom. Meus ovários são esplêndidos. Falta-me o homem. Eu farei tantos filhos com eles dois que me tornarei uma versão feminina do Ragnar Lothbrook, o rei dos Vikings.
Charlie, apesar de confusa, sorriu com a brincadeira da portuguesa.
— Não se anime. Ter filhos é bastante dolorido. Experiência própria. Você não sentirá sua vagina por três meses.
— Tudo bem, eu posso adotar.




A retornar para o prédio do NOC no subúrbio de Londres, a cabeça de Patrícia, pela primeira vez em muitos dias, se tornara mais leve. Graças a Charlie. E como se os conselhos e explicações não fossem o suficiente, a amiga a dera uma bolsa de couro francês de uma marca famosa que a mesma não sabia qual era. Esse era o maior problema de Charlie ao viver com Hiddleston: presentes luxuosos. E Charlie os odeia.
E usa Patrícia para escapar.
Ou seja, a portuguesa ocasionalmente tem em seu quarto caixas e mais caixas de roupas, bolsas, perfumes e produtos da elite do mundo. E a única razão pelo qual ela os aceita, é porque Patrícia tem bom gosto. E, claro, ela adora a liberdade de poder misturar suas peças de roupa excêntricas com artigos de luxo e provocar pequenos infartos nas ruas e olhares distantes de madames de vadias ricas. Patrícia ama encará-las e poder enxergar em seus olhos o pensamento                 onde aquela mulher roubou dinheiro para comprar essas roupas e meu deus quanta heresia da parte da Chanel.
Johnny faz o mesmo ao esbanjar sua fortuna em outro continente e permanecer a viver num prédio rústico. Nós chamamos isso de ‘Sarcasmo, a língua primordial da humanidade’ ou, como o italiano costuma falar ‘Filosofia de Tyler Durden, de Fight Club’. Amélia, no entanto, embora sem saber deste curioso fato de amizade entre Charlie e Patrícia, também colabora para o derrame cerebral de senhoras ricas da elite londrina. Ela costuma usar a Ferrari do marido para se locomover e estacionar em locais luxuosos, porém, sempre se veste como uma lésbica participante de Orange is the new black. Sem pentear o cabelo. Ela chama isso de ‘Houston, nós temos um problema’, porque, sim, foda-se eles.
Patrícia suspirou alto ao se acolher no calor do prédio ao entrar. A neve que caia a fazia pensar em como Portugal parecia quente, mesmo que o seu país realmente não fosse nada quente. Nesses momentos a ruiva lamentava pela diferença climática entre o Brasil e a Inglaterra e parabenizava suas amigas brasileiras pela resistência ao frio. Nesses momentos infinitos de reflexão, Patrícia enfim entendeu a razão de Charlie nunca sair no inverno. E, agora, por ver Amy enfurnada em seu quarto desde que chegara na cidade. Assustando-a, Jess surgiu no corredor com um pincel acrílico em mãos. Seu rosto angelical parecia perturbado. Patrícia arregalou os olhos.
— Meu Deus! O que aconteceu?! –perguntou a ruiva.
Jess ofegou.
— Johnny conseguiu driblar o sistema de GPS de Pokemón Go e agora sabe as coordenadas para capturar os mais raros! –exclamou, a alargar a boca num sorriso quase psicótico. — Ele encontrou um Mewtwo.
Patrícia arqueou as sobrancelhas, mais intrigada do que surpresa. Ela tinha conhecimento da genialidade do russo, mas nunca a vira em ação até então. E ficara um pouco desapontada que a primeira experiência tivera sido com um jogo. Mas seu lado fã do anime japonês e da programação de aplicativos a fez manear a cabeça em um gesto de positividade e, enfim, marchou até a sala do quadro acrílico para apreciar a testa franzida do homem de cabelo cinza.
— Então, você come animais mortos para descobrir pokemóns, que são um tipo virtual de animais que você também irá capturar? –Patrícia questionou ao russo, de timbre irônico em sua voz.
— Não, eu como animais mortos porque estou no topo da cadeia alimentar. Descobrir como quebrar o sistema do jogo é uma consequência que uma boa alimentação me traz. Deverias tentar. Se comesse um prato do meu melhor churrasco, terminaria suas maquetes em tempo recorde. –provocou ele, altivo como usual.
— Vocês são incapazes de dizer ‘oi’ e se cumprimentarem como pessoas normais? –Amy interpôs, de semblante conturbado.
— Quem é você para discutir isso? Você é louca! –Johnny rebateu, contudo havia um vestígio de humor raro em sua rouquidão. — Todos nós nesse maldito prédio somos loucos.
— Eu tenho que concordar com o homem. –a portuguesa apoiou.
O russo olhou-a com um brilho de satisfação em suas íris verdes.
— Essa será a primeira vez que o faz. –disse ele. Abruptamente, seu corpo se arqueou da poltrona e atirou o pincel –que parecia minúsculo em suas mãos marcadas- acima da mesa de centro e sacou-lhe o smartphone do bolso, a abrir a tela inicial do aplicativo que corrupiara. Com os lábios presos em uma expressão maquiavélica, Johnny ergueu o aparelho a todos. — Estão todos de férias?
Os moradores do prédio pareciam não acreditar em sua pergunta. Porém, embora conturbados, concordaram com a cabeça.
— O que quer com isso? –Peter finalmente inquirira.
— Alguém topa caçar Pokemóns ao redor do mundo?
Um cochicho mútuo se fez na sala principal do prédio do NOC. Patrícia, intrigada, juntou-se a cacofonia das vozes espantadas dos colegas de moradia, a tentar se situar no ocorrido. Os únicos silenciosos da quadra, não surpreendentemente, eram Johnny, o casal de loucos e Hans, que preferia rir ao se juntar aos fanáticos.
— O que você quer dizer com isso, cara? –Peter novamente perguntou. Johnny encarou-o com descrença.
— Está a perder seus neurônios, químico. O que acha que eu sugiro com a pergunta?
— Não sei, cara, porque você é doido!
O italiano entortou o riso ao assisti-los.
— Luchnik quer usar suas férias para um tipo de... excursão pelo mundo. Mas, ao invés de conhecermos países e sermos meros turistas, teremos a missão de capturar todos os pokemóns e zerar o aplicativo.
O NOC pareceu desmaiar. Todos, simultaneamente.
— Eu disse. A carne deixa ele louco. –Patrícia finalizou.

domingo, 24 de abril de 2016

Comic Con Não É Um Bom Lugar Para Se Apaixonar

Flashback. Londres, Inglaterra. Rumo aos Estados Unidos.



A cabeleira cinza de um jovem muito alto sacodia à medida que suas longas pernas vagavam em uma corrida entre os muitos passageiros ao redor do Aeroporto Internacional, a causar um alvoroço de seus colegas que o seguiam na mesma pressa. De malas em mãos, o líder do singelo prédio do NOC – Nerds Obsessivos Compulsivos, estava a xingar mentalmente a maldita aeromoça que não lhe informara que o avião já se encontrava em solo.
— Vamos! Apressem-se, idiotas! –gritava Johnny, a acenar com os braços um caminho alternativo para que os trinta colegas de morada atravessassem.
— Estamos a causar polemica! –Patrícia riu alto logo atrás, a movimentar suas pernas sobre os saltos altos que decididamente se arrependeu de usar. Ela não podia se culpar, é claro. Ninguém adivinharia que seriam enrolados pela comissária de voo.
— Causaremos mais se eu quebrar o pescoço de algum piloto! –o russo instigou-se, a abrir uma trilha entre as demais pessoas. Elas reclamaram em resposta, a sentirem-se pessoalmente atacadas pelo louco de sotaque forte.
— Eu gostaria de ressaltar que se tivéssemos seguido o meu plano de horário, não estaríamos neste problema –Vincent rumou à uma certa distância, incapaz de aproximar-se por conta de suas múltiplas alergias. O mínimo contato com os passageiros o causaria uma incrível onda de coceiras estranhas.
— Cale-se se não desejar que eu corte sua língua! –Johnny rosnou.
Patrícia sorriu tortamente.
A ruiva era a novata da turma do NOC. Há poucas semanas incluída no quarto 09, deixado por Charlie, Patrícia aprendera que para sobreviver no mundo daqueles nerds, era necessário força de vontade para enfrentar certos desafios que, certamente não apareceriam para qualquer pessoa. Como por exemplo, aquela situação embaraçosa no meio do aeroporto era uma delas.
Inicialmente Vincent entrara em colapso ao saber do horário do voo para San Diego, na Califórnia. Seu primo então decidira que convenceria a todos que o melhor era seguir para o aeroporto uma hora antes do planejado, pois sua experiência em voos de Portugal a Londres era o suficiente para lhe dar uma posição de destaque na lista dos passageiros mais azarados do mundo. Com uma cota de 12 voos perdidos e 14 atrasados, obviamente ninguém o ouviria, mesmo.
Johnny por sua vez ameaçou jogá-lo para fora da aeronave se lhe perturbasse com aquilo.
Era duro viver entre aqueles loucos. Mas Patrícia gostava.
— Talvez nós devêssemos aguardar o próximo voo? –Peter sugeriu, a ofegar.
— E NOS ATRASAR PARA A COMIC CON?! alguns falaram em uníssono, inclusive a ruiva portuguesa. — Imbecil!
— Respeitem-no! –a pequena Jess pediu, a defender seu namorado.
— Ignore essa ratinha de laboratório –Nik desdenhou. Era evidente a irritação do homem.
A dizer melhor, irritação era a aparentemente o único sentimento que lhe parecia ter.
Atenção! Última chamada para o voo 3498 com destino à Califórnia, EUA. Embarque imediato pelo portão A-9.
A voz mecânica ecoou pelo aeroporto, a causar arrepios pelos jovens e atrasados nerds.
— SE OUSAREM SAIR EU OS DERRUBO EM PLENO AR! –Johnny gritou, quase a alcançar o balcão de despache de bagagem. — Quem é o maldito dono desta empresa aérea?! –indagou para a moça que ali os aguardava, de cabeça erguida.
— Mr. Alísio Green. –ela lhe informou com a usual e falsamente simpática voz.
— Todos os Greens são imprestáveis? –Johnny murmurou, a lembrar de um velho agente do FBI que o perseguira anos atrás. — Reservamos trinta assentos neste voo. Abra a maldita porta.
— Senhor, acalme-se. Temos que checar os passaportes...
— Eu a farei engoli-los se me irritar, senhorita. –rosnou baixo, como um cão valente. A mulher olhou-o com receio, a desistir seguidamente de enfrentá-lo.
— Senhor, eu insisto...
— Eu paguei miseráveis quarenta mil dólares nessas passagens. À vista. Quer discutir sobre poder? Lhe mostrarei meu talão de cheques. –o russo foi firme, a causar um arrepio involuntário da jovem portuguesa à suas costas.
A comissária endireitou-se na cadeira imediatamente.
— Pode me dizer seu nome, senhor?
— Luchnik. –cuspiu ele.
Ela solavancou sobre o balcão, assustada.
— Perdão! Perdão! Imaginei que o senhor fosse mais velho... –engasgou-se duramente. — Digo, o senhor é presidente de uma Holding poderosa.
— Se eu lhe digo que comprei trinta passagens em dinheiro achas que sou o quê? Um vendedor de rua?
— Claro que não, senhor.
— Então por que infernos as malditas portas ainda não abriram para mim?
— P... per...
— Não quero ouvir suas desculpas. Abra a maldita porta se não desejar que eu embargue esta empresa aérea e chute seu chefe pela janela do último andar de seu prédio e depois a faça limpar os restos mortais do cadáver. –paulatinamente, o russo despejou.
Puta que pariu, ele é quente. E assustador. Gostoso. God. Patrícia pensou, a morder os lábios a segurar uma risada.
Imediatamente as portas foram reabertas, possibilitando que os moradores do NOC adentrassem no túnel que os levaria ao avião pousado.





Patrícia movimentava a cabeça circularmente à procura de arquear seu cabelo ruivo ao máximo possível. Enquanto isso, discutia com Jess sobre suas fantasias para a maior feira de convenções de interesses nerds do mundo. A portuguesa, com suas curvas acentuadas pelo vestido branco de aparência suja –este traje usual – referente à Noiva Cadáver, caia-lhe muito bem, obrigada. E obviamente ela se sentia estranhamente poderosa ao vesti-lo.
— Então Charlie realmente tem uma chance de entrar na Marvel? –Jess replicou. — Isso é incrível!
— Não é? –Pati riu. — Teremos uma infiltrada na rede! Ela poderá nos informar segredos!
— Oh... eu não acho que ela poderá, Pati.
— Claro que pode. É a Charlie. Ela sempre apronta.
— Bem, sim. –Jess calçou os sapatos. — E com Johnny sendo seu professor nisso, ela certamente aprontará.
— Diga-me... se Charlie não fodesse com Thomas, ela foderia com o russo? –Patrícia inquiriu, a causar um arregalar de olhos de sua colega. A portuguesa sempre se esquecia de como a pequena não era acostumada com seu palavreado aberto. — Desculpa-me. Perguntinha básica.
— Vejo que sim. –Jess limpou a garganta. — Então, eu acho que Johnny gosta da Charlie. Ele sempre a persegue e maltrata como faz conosco, mas há uma sutileza nas ações com ela.
— Huh. O russo quer foder com a Charlie. –Pati provocou.
— Mais fácil ele querer foder contigo. –a voz de Peter ecoou pelo quarto, a espantá-las.
— O quê?! –Pati repetiu, incrédula.
— Eu sou o melhor amigo dele. Sei para quem ele direciona os olhares. Sei para qual traseiro ele olha.
— Ora, não diga merdas! –a portuguesa sentiu o rosto ferver. — Johnny a olhar para mim? Haha!
— Bem, pense o que quiser. Mas mantenha os olhos abertos para ele, portuguesa. –Peter riu, piscando-lhe. Em seguida abraçou Jess, dando-lhe um beijo estalado nos lábios. — Está linda, querida. Mesmo verde.
— Obrigada! –satisfez-se a garota. — Sou uma ótima Gamora, não achas?
— E eu um ótimo Star Lord. –Peter retribuiu.
— Arrumem uma cama! –Patrícia exclamou, gargalhando com a intimidade do casal.
Após a cena romântica, Hans aportou no cômodo a chamá-los para pegarem o ônibus alugado para seguirem à Comic Con. Patrícia se perguntou sobre o paradeiro do russo, que não os seguia e nem os xingara até então. Foi informada que ele chegaria um pouco mais tarde, pois acompanhava Charlie em sua entrevista na Marvel. A portuguesa torceu para que a amiga fosse selecionada.
Ao frear do carro de frente para o enorme estacionamento da feira, Patrícia assoviou em exclamação. Era a melhor visão que tivera desde que se deparara com o rosto de Johnny embriagado por baixo de sua máscara de Stormtrooper quando o conheceu na festa de formatura na faculdade. Seus olhos rodearam todos os metros quadrados à frente: uma multidão de pessoas fantasiadas de seus personagens favoritos conversavam animadamente uma com a outra enquanto andavam em direção ao arco imponente de entrada do evento. Pati se apaixonou por dezenas de homens belíssimos em suas armaduras brilhantes, elfos da Terra Média e alguns Hobbits que de pequenos nada haviam. Eram gostosos, inclusive. De repente isso me parece Mordor. Que calor! Pensou a portuguesa, a deliciar-se com a visão.
Desceu do veículo com a câmera em mãos, a tirar fotos até mesmo do chão que pisava. O sol brilhava ao horizonte, fraco, porém cálido. Respirar o ar americano lhe fazia pensar em como o país tinha uma forma estranha de mostrar a todos que era o mais rico e que certamente poderia destruir os outros sem pedir permissão. Nenhum país ousava discutir com ele.
A não ser, é claro, a Rússia.
Porque russos são estranhos.
E é óbvio que a portuguesa não pôde se livrar dos pensamentos sobre o país, pois sua cabeça estava focalizada no paradeiro de Luchnik, sua atual paixão passageira. Mesmo que algo lhe dissesse que aquela paixão duraria para sempre, enquanto ele passeasse com seu corpo delicioso próximo dela. E ela sentia falta daquele temperamento ardido e mal humorado a provocar a todos com sua acidez irresistível. Talvez fosse estranho suspirar por um desgraçado infeliz, mas esses eram os que a mais atraía.
Enfim, vamos pular as ideias pervertidas da ruiva. Passamos para a parte interior da feira.
Plataformas montadas em torno do enorme, enorme, enorme –pense em algo enorme e multiplique por dez- salão da Comic Con; e o barulho de pessoas a conversar, gritar e chorar de emoção fazia Pati suspirar de ansiedade. À princípio ela imaginou que a feira era algo como o desfile das universidades de seu país, a cacofonia errônea e toda a bebida do mundo junto aos jovens loucos. Mas ao visualizar o evento, ela notara o quão errada estava.
A Comic Con era como um orgasmo ambulante.
Um orgasmo ambulante causado por sexo selvagem com Jared Leto, no mínimo.
E a tremer dos pés à cabeça, a portuguesa se desprendeu do grupo e iniciou uma explorada aventureira pelos estandartes da feira. Passeou por painéis de séries, filmes e jogos. Leu prévias de livros ainda não lançados, ouviu músicas novas e aprendeu palavras em línguas diferentes. Tirou tantas fotos que a memória de sua câmera reclamara. Ali era sua nova casa. O cheiro de novidade, o barulho das vozes desconhecidas, o gosto da comida estranha que os nerds faziam em imitação de pratos de ficção e até mesmo a assustadora loucura de alguns fãs a instigava.
— Hey, girl! –a voz animada da criança quase adolescente que ela conhecia bem se anunciou. Ao virar para trás, deparou-se com a imagem querida de Mikhail, o filho adotivo de Johnny.
— Mikhail! –gritou ela, a correr para abraçá-lo.
— Está gostosa! –disse ele, a olhá-la bem. — O que te a fez tão bem? Algum homem na jogada?
— Que nada! –Pati riu. — E quanto a ti, querido?
— A estudar a teoria dos campos quânticos. –falou, a suspirar. — Ótima matéria. Pena que em minha universidade eles idolatram a tese que meu pai escreveu em uma de suas bebedeiras.
— Opa. –Pati franziu o cenho. — Johnny escreveu teses?
— Ele estava bêbado. –repetiu Mikhail, a sorrir. — Então? Onde está ele?
— Com Charlie, na Marvel.
— Charlie? Preciso provocá-la. –o garoto a acompanhou de volta aos painéis, a caminhar juntos em risadas.
Para a surpresa de Patrícia, poucos minutos depois sua visão foi presenteada com a melhor imagem que vira até os seus dias de vida.
O maldito russo adentrava a feira. Seus olhos correram diretamente para o tronco desnudo do homem, este marcado e definido como uma zona de guerra melhorara pelo criador. A pele alva, aparentemente macia, desenhava ondas por seu abdômen malhado e dividido perfeitamente em músculos. O peito forte, porém não tão largo, delineado por mangas de couro de seu sobretudo vermelho caia-lhe irritantemente bem. De calças pretas e botas até próximo ao joelho e uma longa espada pendurada nas costas, finalizava a fantasia mais real de Dante May Cry já feita no universo.
Gostoso. Para. Porra.
Foda-me. Por. Favor.
O cabelo cinza caído sobre o rosto deixava-o com uma aparência assustadoramente sexy. Ela quis lambê-lo todo. Centímetro por centímetro. A maldita paixão não cessava.
Pati sentia que iria morrer se continuasse com aquele homem tão distante de seu corpo.
Assim, correu até Charlie para abraçá-la. O que, também, era uma desculpa para visualizar melhor Luchnik. Girou-a, apertou-a, fez a pobre coitada como um grande urso de pelúcia. Charlie apenas sorriu com a chegada animada da amiga.
— Você já abriu a caixinha? Johnny quase teve um infarto fulminante quando percebeu que ela havia sumido! –murmurou Pati, aproveitando-se da barulheira de tantas vozes para disfarçar a sua.
— Pensei que só pudesse abri-la quando casasse com Thomas.
— Não, esqueça isso. Você deve abrir antes, porque precisa entregar o objeto que está dentro dela para ele.
— O que tem dentro daquela caixa, céus? –indagou a brasileira.
— Tanzanita. –balbuciou a ruiva. — O que você precisa saber é que Johnny iria entregá-la de qualquer maneira, então não se preocupe se achas que roubei. Só adiantei a entrega. –piscou seu olho divertida, fazendo-a rir com as órbitas arroxeadas em volta de seus olhos.
Alguém vestido de Ezio Auditore passou ao lado, deliciando-se com um sorriso malicioso para Patrícia. A portuguesa, ciente da olhada que lhe dera, apenas sorriu torto. Ao contrário de sua passividade, o russo pareceu queimar por dentro.
— Você não é o único assassino aqui, cara. –Johnny intrometeu-se. — Seu personagem é uma marica.
O homem desconcertou-se. Charlie começou a gargalhar,  intrigada com a mudança repentina de humor de Johnny, que começou a rodear a área como um cão de guarda, imitando o caminhar de Dante.
— Vou te dizer, os Templários facilitam muito para vocês. –o russo provocou.
— E você apanhou do seu sobrinho. –rebateu o Ezio.
— Eu vou mostrar para você o que é apanhar se continuar a olhar para ela. –franziu o cenho, ameaçador.
— É proibido? –indagou, sorrindo ironicamente.
— Se quiser continuar tendo dois olhos, sim.
Patrícia esboçou uma expressão de tédio, puxando de um bolso interno do sobretudo vermelho de Johnny uma arma que reconhecia muito bem como de outro personagem do jogo que Johnny estava dando vida.
— Ezio, Dante, não quero ouvir disputas irrelevantes aqui. –balançou a arma em suas mãos. — Johnny, eu já disse que não faço parte do grupo das garotas que você protege no NOC. Eu sei me cuidar bem. Obrigada.
Johnny arqueou as sobrancelhas, afetado. Ezio fez uma reverência muito provocativa para Patrícia e saiu, não sem antes encarar o russo mais uma vez. 
-Não acredito que deixou ele sair vivo. –Mikhail desacreditou-se, indo ao encontro de Johnny. Patrícia entregou a arma para o garoto e Johnny deu de ombros para sua presença, talvez irritado com sua última atitude.
— Mikahail, matar alguém nos Estados Unidos é uma grande burocracia. –murmurou mal-humorado o russo.
— Porque seu pai tem retardo mental, garoto. –Patrícia puxou-o para perto, fazendo uma expressão rude para Johnny. — Essa aí é a Charlie.
— Meu pai tem uma ligeira obsessão por você. –levantou sua mão para me cumprimentar, provocando um riso meu. — Ele nomeou um de seus ratos de Charlie.
— Obrigada. –Charlie apertou a boca, visivelmente confusa.  Johnny puxou o garoto pela gola do sobretudo, levando-o para longe. Patrícia apontou para frente, indicando alguns desenhistas que já havia conhecido antes de chegar a feira. Ela sabia que a apresentação dos desenhistas iria começar.





Quando Charlie finalmente encontrou seu caminho junto aos demais, Patrícia decidiu comprar algo para comer enquanto aguardava a tão esperada notícia de quem seria contratado pela Marvel para o novo lançamento de quadrinhos feitos por fãs. E ao chegar na loja de doces, notou a presença de Johnny encostado à parede, deliciando-se com uma barra inteira de chocolate como se a simples existência da guloseima fosse um ataque à Rússia e a única escapatória era comê-la toda. Patrícia se esgueirou sem deixar de olhá-lo mais uma vez. Os lábios contornados presos na barra, mastigando-a lentamente a fez retorcer o estomago ao associar o que via com algo que ele muito bem poderia fazer entre suas pernas.
Pensamentos maliciosos.
Sempre presentes.
Com uma tosse programada, a ruiva escolheu uma caixa de bombons de licor. Álcool. Ela precisava de álcool para suportar àquilo.
— Você tem algo contra Assassin’s Creed? –Pati perguntou, incapaz de guardar as duvidas o episódio de ciúmes no pátio.
—  Não. –respondeu seco.
— Algo contra o Ezio? –retumbou.
— Não. –replicou o russo.
— Algo contra o homem que me paquerava? –insistiu.
— Sim. –Johnny respondeu, calmo.
— O que tinha contra ele? –a portuguesa investiu.
— Estava a olhar para alguém que não o pertence. –ditou.
— Esse alguém seria eu? –Patrícia pôs as mãos na cintura, questionada.
— Quem mais seria? –ele fez-se de inocente.
— E a quem eu pertenço, russo? –ela retribuiu, a saber que aquela pequena pergunta a assombraria por muitos dias.
A mesma pergunta assombraria Johnny por muitos dias, também.
— Espero que eu possa lhe responder futuramente. –disse ele.
Em contrapartida, Luchnik escorregou o dedo sobre a barra de chocolate e lambuzou a bochecha da ruiva em provocação, a desenhar um pequeno pentagrama invertido. Algo totalmente demoníaco. Patrícia nada fez, pois sua cabeça estava fixada no maldito tronco perfumado e gostoso do homem à sua frente.
Para o terror dos ovários da portuguesa, Johnny roçou seu nariz em seu pescoço e deslizou sua língua por seu maxilar, a seguir então, lentamente, para o desenho formado em chocolate em seu rosto. Ela sentiu sua boca quente em contato com a pele avermelhada em susto; sentiu o cheiro amadeirado e ao mesmo tempo cítrico de seu perfume irresistível enquanto lidava com a proximidade de seu corpo gigantesco ao seu.
Ao fim, Johnny encarou-a friamente. Com seus olhos verdes exuberantes.
Aquele verde que nenhuma palheta de cor saberia formar.
Aquele verde intenso que mais parecia um farol no meio do oceano. A trazer para a superfície após se afogar. Se afogar nele.
E então, Patrícia soube que aquela paixão platônica não acabaria tão cedo.
Porque o maldito era bom demais para ser esquecido e perigoso demais para ser lembrado.








De volta ao tempo normal.


Aqueles olhos estavam a encará-la, novamente. O cheiro de bebida no ar, a tensão sexual e o maldito formigar em suas pernas a castigava intensamente. Ela ainda não se recuperara do desafio feito onde Johnny teria que dormir com ela.
Na cabeça do homem, parcialmente embriagado, a ideia de dormir com Patrícia não era impossível. Após o beijo às pressas que deram na pista de patinação, Johnny entendera melhor o que era aquele ciúme doentio que o causava irritação sempre que a portuguesa estava envolvida. Para alguém teórico e calculista como ele, paixão e atração são coisas que não se podem ser medidas tão rapidamente. Johnny tem um ligeiro retardo mental quando se trata de seus sentimentos. O que há de inteligência em termos acadêmicos, tem de burrice na vida pessoal. Porque afinal, sua personalidade costuma expulsar todos de seu redor.
Menos aquela mulher. Aquela ruiva de olhos curiosos, cabelo cacheado e língua afiada. Nem mesmo Charlie e sua divina paciência o aguentava como Patrícia o aguentava. E Luchnik aprendera a gostar de ser acompanhado por ela.
Ele gostava de seu cheiro. Gostava de como ela sempre vagava pelo prédio e seu perfume ficava impregnado nos cômodos. Gostava de como ela era uma louca por bebidas e que sempre a encontrava alcoolizada pela casa. Gostava de vê-la prender o cabelo com um lápis enquanto trabalhava em suas maquetes, totalmente inerte em seus pensamentos. Gostava também de assisti-la rir. Aquela risada alta, estridente.
Ele gostava de seu sorriso largo e seu sotaque.
Ele gostava de sua voz. Da rapidez com que falava.
De sua pressa. De como ela sempre estava a fazer algo. De como sempre estava ocupada.
Merda, ele gostava dela. E por isso, ele não conseguia levá-la para sua cama. Porque Johnny sabe que quando gosta de uma mulher, ele tende a estragar tudo depois. E perder Patrícia não era algo que ele queria.
— Vamos assistir Netflix? –perguntou ele, a livrar-se dos pensamentos.
— Vamos! –disse ela, a rir. — God, essa tensão estava a me matar.
O maldito sorriso que ele gostava. O maldito humor.
A negar sua própria perdição, o russo ajudou-a a levantar e juntos se acomodaram no sofá. Luchnik configurou a programação em decisão conjunta, iniciaram uma maratona de Daredevil. Ele se sentia melhor em ver pessoas sendo espancadas.
Ela se sentia melhor com a visão de Matt Murdock em suas roupas coladas.
Patrícia inconscientemente encostou-se no ombro de Johnny, a apoiar sua cabeça pesada da bebida. Ele pareceu não se incomodar, apenas olhou-a rapidamente e desviou novamente para a tela da TV. Não se sabia dizer se a ressaca de Patrícia já começara ou se era algo alucinógeno, mas a garota não podia fechar os olhos sem deixar-se ser levada pelo perfume do homem ao seu lado. A proximidade com ele era algo tão inimaginável. Ela sabia que no dia seguinte ele voltaria a seu manto de indiferença e mau humor e que aquela noite só estava bem porque ele não queria magoá-la. Ele era muito bom nisso. Magoar.
Mas ela sempre decidia perdoá-lo. Algo lhe dizia que não era sua culpa ser um bastardo infeliz. E ela se apetecia dele mesmo assim.
Ela direcionou suas órbitas para o russo, que tinha atenção à série. A ruiva analisou o perfil esculpido de seu rosto atentamente. O nariz levemente arrebitado e muito fino. As maçãs do rosto fundas, mas ressaltadas. A sobrancelha clara, falha e quase inexistente. Apenas havia pelo o suficiente para dá-lo uma sombra em seu olhar penetrante. Os lábios levemente inchados, porém ainda delicados. O queixo quadrado. O maxilar perfeito. O pescoço largo e forte.
O cabelo. O cabelo que ela tanto gostava. Aquele cinza não tão branco e nem tão escuro. Como uma gota preta num balde de tinta prata. Um cinza grafite. Uma cor tão difícil. Ela desceu o olhar para suas mãos. Largas, grandes. Dedos longos. Unhas escurecidas. Ela não sabia a razão de suas unhas serem daquela tonalidade. Certamente Johnny não as pintava de preto. Talvez fosse algo a mais de seu mistério. Aquela aparência estranha a fazia suspirar.
Uma mulher estranha de gostos estranhos só podia gostar de um homem mais estranho ainda.
Quando Patrícia se deu conta, Luchnik havia torcido seu rosto em seu rumo. Ele a encarava com neutralidade, como se algo estivesse preso em seu nariz. Era aquele olhar de sempre. Inquisitório. Impenetrável. Com tantos significados que ela sequer sabia como entender. Podia ser algo ruim. Podia ser algo bom. Ele nunca deixava transparecer.
Luchnik inclinou-se levemente, roçando a ponta de seu nariz no dela. Sua respiração controlada a fez se esquentar.
Não faça isso. Pensou ele, a repreender a atitude que seu corpo fazia. Controle-se.
Mas o corpo gritava um ‘foda-se’ enorme.
E quando menos se esperou, ele preencheu os lábios dela lentamente. Patrícia solavancou de susto, sem acreditar no que estava a acontecer. Aquele maldito homem estava a beija-la de novo. Duas noites seguidas!
Ele pediu passagem para a língua e ela cedeu de bom grado. Com o gosto de sua boca, a ruiva revirou os olhos fechados e suspirou. O sabor da vodka ainda estava em seu paladar. Ela deslizou a ponta da língua por cima da dele, lambendo-o lascivamente enquanto o via dobrar a sua contra seus lábios. Ele a mordeu com afinco, quase dolorosamente. Ela apenas gemeu contra sua boca.
O russo agarrou-a pela nuca, a afundar seu rosto contra o dela. Possessivo, desbravou cada mínimo canto de sua cavidade como se por trás de suas bochechas houvesse um tesouro a ser encontrado. Ele sorriu mentalmente ao lembrar que lambera seu rosto em provocação pouco tempo atrás. E agora, sua língua estava enrolada na dela.
Johnny acariciou seu cabelo com certa agressividade, mas Pati parecia não se importar. Aparentemente ele não tinha a mínima ideia de como ser delicado.
E ela não tinha reclamações sobre isso.
Ela apertou os ombros do homem, a procurar um lugar para livrar-se de sua ansiedade e emoção. O fôlego começava a faltar, mas eles dois não decidiam se soltar tão cedo.
Gostavam da sensação de estarem a explorar um ao outro. Mesmo que aquilo fosse apenas um beijo.
Um beijo depravado.
Ela estremeceu a um som próximo a um gemido, dito por ele. God. Como pode beijar tão bem e ainda rosnar? Ela pensou.
Em súbito, ele desgrudou seus lábios dos dela. Ofegante, ele a encarou. O rosto da garota estava vermelho como fogo. A boca entreaberta, ainda com memória do beijo, excitou-o de uma forma que ele nem saberia explicar. Desejou que aquela boca estivesse em outro lugar de seu corpo.
Logo abandonou o pensamento.
Para ser substituído por outro.
Ele queria prová-la em outra parte do corpo, também.
E merda, ele queria muito isso.
Sexo é coisa para retardatários e idiotas. Sexo diminui o quociente de inteligência. Sexo nunca levou ninguém ao prêmio Nobel. Sexo é opcional. Sexo faz os humanos parecerem animais.
Sexo é proibido.
Não magoe a garota.
— Próximo episódio. –murmurou sua voz de trovão.
Claro, se eu ainda tiver forças para isso. Porra!!!! Pensou Patrícia.

A espiar pelo corredor, um italiano sorriu silenciosamente enquanto comia um pêssego. A cena ficaria mais estranha se detalhasse que o homem usava apenas boxers e que há poucos minutos estava a foder sua mulher, mas dane-se, o NOC é estranho.
— O russo vai perder a virgindade, finalmente. –ele sussurrou provocativo, rindo consigo mesmo.
— Ele parece beijar melhor que você. –Amy disparou, a morder sua fruta. Ele a fitou irritado.
— Nós acabamos de fazer sexo e você diz que ele beija melhor que eu?
— O que eu posso dizer? Acho que estou a ficar excitada novamente. –ela gargalhou abafado, a virar as costas para o homem. Ele a seguiu com o olhar, vendo o traseiro empinado e delicioso dela sumir pelo corredor.
No dia que Luchnik souber o que é cair aos pés de uma mulher, será sua perdição. Porque uma vez com elas, dominado você é. Pensou ele, distante.





Eram seis da manhã quando algum infeliz bateu na porta do NOC. Johnny, acordado desde a madrugada a assistir Daredevil com Patrícia –esta adormecida ao seu lado no sofá- , apenas largou o controle sobre a mesa de centro da sala do quadro acrílico e suspirou. Não atendeu.
Em resultado, as batidas irritantes voltaram a ecoar. O russo, raivoso, levantou-se e decidiu por um fim no incomodo.
Abriu a porta.
Dois homens de terno e bíblias sobre os braços sorriram maravilhados com o atendimento. Johnny, percebendo que eram crentes, desejou atirá-los uma pilha de livros de física e ensiná-los que não houve nenhum homem de barro.
— Você tem um minuto para falar sobre o nosso Senhor? –um deles perguntou, sorridente.
Luchnik juntou as sobrancelhas.
— Não. –foi direto.
A voz rouca carregada de mau humor não foi o suficiente para que os testemunhas de Jeová fossem embora.
— Sua vida terá uma nova visão após o que iremos lhe ensinar... –o outro homem insistiu.
— Sua fé irá se multiplicar! –o outro repetiu.
— Eu sou ateu. –Johnny interrompeu-os, seriamente.
A frase fez com que os cristãos abrissem a boca em horror. O mais alto, cujo perguntara a ultima vez, inclinou-se como se falasse com alguma entidade invisível. O russo, observando atentamente, desejou retornar a cozinha e apanhar algumas facas.
— Podemos fazê-lo mudar de ideia! Dá-lo algo para seguir! –falou o mais baixo.
— Sua alma ficará livre dos pecados! –o outro prometeu.
— Pecados. –o russo sibilou. — Gosto de colecioná-los. –foi sádico.
Os dois hesitaram.
— Isso não é algo que se diga, jovem! –ralhou um deles. — Tens que comprar tua entrada no paraíso! Você já escolheu onde passará a sua eternidade após a morte? –o testemunha perguntou.
— Sim, no fogo do inferno. Tenham um bom dia. –o russo ameaçou fechar a porta, mas um pé o interrompeu. Péssima ação. Irritado, Johnny puxou a maçaneta e prendeu o sapato de aparência barata entre a parede.
— Argh! Abre essa porta! –gritou o machucado.
— Livre-se dos teus pecados, ainda há tempo! –resmungou o outro. Johnny abriu a porta, novamente. O homem de pé preso puxou a perna de volta, murmurando grunhidos de dor.
— Não queira ir ao inferno, jovem... –sussurrou como um segredo. — Apenas um pecado é o suficiente para levá-lo até lá!
— Veja bem. –o russo saiu do prédio, de postura neutra. Encarou os dois homens como se em suas cabeças existissem alvos e em suas mãos um arco e flecha de aço. — Se um pecado é o suficiente para nos levar ao inferno, por que não cometemos mil e entramos junto ao diabo como lendas? –sorriu torto, enviesado.
Os cristão puseram-se a se despedir.
— A escolha é sua... –gaguejou eles.
— Vejo vocês no fogo do inferno, queridos. Tenham um ótimo dia!
Lá estava o assassino russo novamente.

Pobre Patrícia. 

sábado, 19 de março de 2016

NOC — Capítulo 2 — Verdades e desafios

NOC — Capítulo 2 — Verdades e desafios


Patrícia despertou de seu sono pesado com uma errônea preguiça matinal. Bem, não tão matinal assim. Olhou para o relógio na cabeceira de sua cama e deparou-se com os gritantes 14h30min no painel a avisar que após o Natal, seu corpo realmente não pensava muito em acordar.
Com uma mão em sua boca, a tampá-la para bocejar, a ruiva ajeitou-se entre os espessos cobertores e chutou os sapatos sobre o tapete logo abaixo, a erguer os braços seguidamente para espreguiçar-se. Seus olhos inchados das horas de sono encararam a bagunça do quarto 09, surpreendendo-a com o furacão desordenado que irrompeu em seu cômodo durante a festa. E, então, ela se lembrou.
Russo, russo. Maldito seja tu, homem. Sua boca desfaleceu em um sorriso maravilhado e repleto de nostalgia ao relembrar-se do que ocorreu em sua conturbada passagem de tempo junto ao homem de cabelo cinza, pelas noites de Londres. Merda, merda! Ele realmente me beijou, porra!!!
E assim, Patrícia caiu de sua cama.
Do modo mais elegante possível.




Após a portuguesa escovar seus dentes e completar sua higiene matinal-tarde, vestiu-se com uma larga camisola de lã e trançou seus longos fios avermelhados rumo às costas, destinada a encarar o NOC de cabeça erguida. Havia certa coragem em seu interior depois de enfrentar os lábios perigosos de Johnny.
Ao abrir a porta, Patrícia sentiu o doce perfume de comida a irradiar na direção da cozinha central do prédio. Agraciada pelo conhecido cheiro de frango frito e batatas, a garota andejou pelos corredores como se o alimento guiasse seu corpo. O que a ruiva não sabia, no entanto, era que ao chegar ao lugar de destino, se depararia com o mesmo quartel-general de pessoas da ceia de natal. Espalhados da cozinha à sala do quadro acrílico, os moradores do NOC enfrentavam uma fila desumana, todos com seus pratos e talheres em mãos. Alguém tomava posse do fogão. Eles aguardavam o almoço.
— Boa tarde, Pati! –a voz simpática de Jess gritou, assustando a adormecida portuguesa.
— Oh, olá, Jess! –ela cumprimentou, reivindicando um lugarzinho junto a pequena loia. — O que está a acontecer?
— Charlie está a cozinhar. –sorriu abertamente, apontando sobre as dezenas de ombros à sua frente. — Ora, não a vi chegar com o russo ontem. O que ocorreu? –perguntou-a, com certa malícia em seu tom.
Patrícia sentiu o rosto corar, mas manteve-se em segredo.
— Esperamos que a neve parasse de cair antes de retornarmos ao prédio. Johnny não gostava de molhar a moto.
— A verdade logo chegará, Pati. –Jess citou, apertando os olhos em desconfiança. Patrícia ficou desentendida.
— Meninos para um lado, meninas para o outro! –o timbre divertido de Charlie ecoou pelo corredor, alertando. — Temos para todos, mas estou liberando acesso às garotas primeiro!
— Injustiça! –gritou Bob, o morador do quarto 5. Charlie colocou ambas as mãos na cintura, encarando-o de sobrancelhas unidas.
— Você não tem que sentir sangue sair de você todo o mês, tem? –perguntou-o, desafiadora. Patrícia e Jess puseram-se a rir. Bob negou. — Então cale a boca. Meninas, andem a frente! –gesticulou, chamando-as.
— Bem, lá vamos nós. –a portuguesa puxou a pequena amiga da multidão, seguindo caminho em companhia as outras meninas do prédio. Rodeando os olhos pelas filas formadas, a ruiva sentiu falta de alguém. — Onde está a brasileira?
— Que brasileira? –Jess rebateu.
— A de cabelos cacheados. Que anda com o italiano gostoso.
— Amy? Eu não a vi. Deve estar de ressaca no quarto 08. O italiano e ela beberam tanto! Logo após tu sair com Johnny, eles propuseram um jogo de bebidas que envolveu um Hiddleston irritado e uma Charlie sorridente. O que eu posso dizer é que para não ouvir um ao outro falar, eles beberam muito. Tom quis batê-lo. Algo me diz que o italiano estava a galantear a Charlie.
Patrícia abriu a boca em surpresa.
— É louco, ele?! –indignou-se, embora divertisse-se. — Jay estava a flertar com a Charlie? Em frente ao Hiddleston?
— É o que estou a dizer. Ao que me parece o gostoso é tão ousado quanto lindo. –Jess riu, a apanhar um prato sobre a mesa e entregar a amiga. Pati o recebeu. — Sabe o que acho? Que há alguma história entre eles.
— Eles? –Patrícia indagou.
— Italiano, Hiddleston. Eles se conhecem, isso eu sei. Apenas não sei o que os ocorre.
— E dizem que o encrenqueiro daqui é o russo. Este italiano o enfrenta sem pudor. –a ruiva comentou, esticando o braço rumo às panelas postas por Charlie, repletas de alimento. Lambeu os lábios. — Uuuh! Charlie se esforçou.
— Ela é sempre um amor conosco. –Jess serviu-se logo atrás da amiga. — E cozinha tão bem.
— Realmente. Onde está Hiddleston, afinal? Ele sempre ajuda a mulher.
— Acho que levou Hamish de volta a casa deles. –disse. Patrícia murmurou em concordância, arrastando-se em direção ao prato de salada. Alfaces, tomates, ervilhas. Charlie parecia ter feito especialmente a ela.
Quando as duas calcorreavam em busca de um local para sentar-se e comer, ambas avistaram a figura despenteada do italiano descendo as escadas, vestindo nada mais que uma calça moletom branca e uma camisa azul-marinho que expunha seus braços musculosos. Jess entortou os olhos, aprazida. Pati, um pouco mais esperta, direcionou as íris sobre sua calça.
— Buongiorno, belíssimas. –cumprimentou-as, de voz rouca. Jess suspirou. Pati arqueou a cabeça de volta ao semblante do homem.
— Buongiorno, senhor. –a portuguesa gracejou, sorrindo-lhe aberto. — Servido? –apontou ao prato.
O italiano semicerrou as pálpebras em atenção ao alimento, sem saber o quão quente parecia quando o fazia.
— Quem cozinhou? –questionou ele.
— Charlie. –Jess interpôs.
Ele entortou os lábios rosados num riso galanteador.
— De repente deu-me um apetite. –falou ele, cafajeste. — Ela me parece muito tímida.
— É porque ainda não a viu se soltar. –Patrícia avisou. — Quando entra no grupo, ela se torna a pessoa mais divertida que conheces.
— Tentarei atingir esse lado dela em breve. –prometeu ele. — Enquanto isso, por que não sobem e conversam com Amy? Ela guardou alguns chocolates para vocês duas.
— Para nós? –Patrícia espantou-se, pois a brasileira recém-chegada sequer havia trocado um par de palavras consigo.
— Contei a ela que tu és uma boa cozinheira e que tive o prazer de dividir a cozinha contigo. Ela está louca para conhecê-la. –explicou. — Mas tome cuidado. Às vezes pode-se achar que ela está a flertar contigo.
— Ela é bissexual? –Patrícia abriu-se num riso.
— Ela só gosta muito de sexo. Como eu. –piscou-lhe o olho direito, afastando-se pela cozinha. — Talvez possamos marcar algo mais tarde, se isso lhe agrada.
Patrícia e Jess se entreolharam e depois olharam o homem partir, sem saber o quanto seu traseiro redondo chamava as suas atenções. A ruiva sacodiu a cabeça, buscando livrar-se dos pensamentos pecuniosos e Jess, entretida, desejou apalpá-lo todo algum dia, em um futuro próximo. Sem Peter saber, obviamente.
— Eu acho que é por isso que Thomas odeia ele. –Patrícia opinou, virando-se bruscamente. Seu rosto colorava-se em vermelho. — Intrometido. Pervertido. Audacioso. Confiante demais. E gostoso pra porra. Porra!



Rindo descontroladamente, as duas finalizaram seus almoços.
— Eu... é melhor irmos ver a Amy. –Jess engasgou-se de novo, a puxar a mão da portuguesa.
Juntas, subiram as escadas rumo ao andar do quarto onde Patrícia vivia e, logo em frente, no quarto 08, bateram.
— Entrem! –uma voz sonolenta as pediu. Jess, um pouco mais íntima da brasileira do que Pati, pegou a liderança. Ao abrirem o cômodo até então inexplorado, apanharam-se a observar uma enorme cama de casal com dossel de madeira, lençóis pretos de seda que, de forma maliciosa, estavam jogados sobre o chão e malas de roupas sobre um pequenino sofá de dois lugares próximo à janela. Pati pensou em redecorar o quarto imediatamente. Mas a deixar os pensamentos de design de interiores, encontrou-se com Amy agachada abaixo do colchão, à procura de algo que não era possível observar.
Por outro lado, seu traseiro empinado era bastante evidente.
O filho desses dois deve-se parecer uma abelha. Quantas bundas. Pati imaginou, sem querer.
— Chamou-nos? –Jess iniciou.
— Hm, sim. –grunhiu a moça. — Os chocolates estão sobre a mesinha próxima à lareira elétrica, meninas.
— Obrigada! –Jess respondeu, distanciando-se para a mesinha. Como tal dito, deparou-se com uma caixa decorada em vermelho e roxo, recheada de bombons de chocolates trufados com cobertura, implodindo seus tamanhos anormais. Patrícia sentiu a boca salivar.
— Obrigada... –murmurou a ruiva. — Onde os conseguiu?
— Eu os fiz. –Amy articulou, pondo-se de pé, então. Coçou a nuca. — Meu filho participa de algumas ideias estranhas na escola e uma vez tivemos que fazer ovos de páscoa. Mas meu marido idiota não colocou ingredientes o suficientes e eles encolheram na forma. Como podem ver, esses bombons não são realmente bombons. São ovos.
— Por isso tão grandes! Bem... grandes para o tamanho de um bombom. –justificou a portuguesa, rindo comovida. — Desculpe-me não ter falado tanto contigo ontem na ceia. Sou Patrícia, mudei-me para cá no mês passado.
— Não peça desculpas, acho que mesmo se tivéssemos trocado palavras, não conseguiríamos. –Amy aproximou-se, cumprimentando-a com um abraço apertado. — O clima estava louco com Hiddleston por aqui. –a brasileira parecia um pouco desconfortável. Patrícia encarou-a bem.
— O que ocorre entre Hiddleston e o italiano? –indagou-a diretamente, sem procurar-se redimir. Amy gostou da praticidade da nova colega.
A bela brasileira de olhos redondos suspirou pesadamente, impossibilitada em falar. Porém, vendo que as duas garotas mais pareciam com ela em segredo e que a ruiva em sua frente parecia-se anormalmente com sua amiga Trícia, teve confidência em continuar.
— Eu me envolvi com Hiddleston há alguns anos atrás. –admitiu, suscitando olhares arregalados das garotas. — Chegamos a ter um relacionamento bom. Foi logo após meu rompimento com Jay. Por isso eles se odeiam tanto e eu me sinto perdida neste prédio com a nova garota de Thomas.
— Sério?! –Patrícia não se controlou. — Tu e Hiddleston?? Oh my God! Conta-me isso direito!
Amy correu as órbitas pelo quarto, fixando-se na figura pequena de Jess a comer seus bombons.
— Querem fugir a um bar comigo? Posso contar tudo a vocês após um gole de vodka.
— Claro! –Pati exclamou, animadíssima. — Venha, Jess! A moça está a me encantar com ideias de bebidas!
A portuguesa criou laços com a brasileira por dois motivos óbvios.
1-      Ela havia a chamado para beber logo após oferecê-la chocolate.
2-      Sequer era noite. Amy a chamara para beber de tarde. E isso era ótimo! Sem horas marcadas para bebida! Por favor, mundo, aprenda!
— Beber? A esta hora? –a pequena loira inquiriu. Pati, já animada, revirou os olhos.
— Não acabe com minha felicidade, Jess. Venha logo! –era a vez da ruiva puxá-la pelo braço.
— Vou pegar meu passe para o trem, já volto. –a menina apressou-se, sendo logo parada por Amy.
— Relaxem. Vamos de carro. –a brasileira anunciou, piscando divertidamente.
Patrícia a amou mais depois disto. A moça parecia-lhe ser uma badass. As três, então, marcharam para o andar de baixo do prédio, onde os moradores ainda confraternizavam-se a comer loucamente. Amy, a frente delas, sentiu que deveria chamar Charlie para juntar-se a elas, embora uma história as fizesse separar. Na noite passada, no entanto, as duas trocaram boas conversas sobre filhos. Mas Amy não queria limitar-se a esse tipo de assunto. Pareciam duas mulheres submissas aos trabalhos domésticos. E isso ela não suportava. Submissa apenas no sexo. Esse era o seu lema.
— Pegue na bunda do russo. –Amy indicou-a, fazendo Pati gargalhar. — Assim que eu aproveitar-me dos bolsos de Jay, tu vai e apalpa o Illya.
— Está a falar sério? –a ruiva indagou.
— Estou! –riu. — Vamos em um... dois... três!
Amy abeirou-se junto ao marido, abraçando-o por trás. Com um solavanco de susto, escorregou as mãos pelo traseiro delicioso do homem que, em resposta, apenas sorriu torto com a atitude da mulher.
— O que quer, pirralha? –perguntou ele, sem alterar o tom de voz.
— As chaves da Ferrari. –explicou ela. Ele apertou as sobrancelhas.
— O que eu ganho com isso? –rebateu.
— Você pode me comer do jeito que quiser mais tarde. –mordiscou sua orelha, arfando de modo que ele somente desejou que o tempo passasse rápido.
— Estão no bolso de trás. –disse, relutante.
— Eu sei que estão. –Amy sorriu, sacodindo o chaveiro entre os dedos. Beijou as costas do companheiro, inspirando seu perfume impregnado na camisa. — Espero você à noite. Usarei vermelho.
Esse casal tem maneiras estranhas de fazer acordo.
Há poucos metros dali, Patrícia cumpria sua missão. O corpo alto e esguio de Johnny, encostado a pia, observava com seus olhos chamativos o pedaço de carne frita que cortava. Ela, sem medo, arrastou seus dedos na curva de seu traseiro. Ele apenas resmungou. A portuguesa, encorajada, juntou as duas mãos e apertou-o fortemente, sentindo a firmeza de seus músculos em suas palmas.
— Por acaso acha que escondo alguma arma no rabo? –reclamou Nik, virando-se abruptamente. — Que diabos está a fazer?
— Achei propicio. Parabéns, tens um belo traseiro. –provocou a mulher, gargalhando em satisfação.
O russo franziu o semblante mal humorado. Com as duas íris verdes intensas, analisou a expressão de júbilo que a garota fazia em sua frente. Sequer conseguiu entender a súbita ação depravada.
— Amélia a ofereceu maconha? –interrogou, inclinando o rosto contra o dela. — Está sob efeito de drogas ilícitas? –encarou-a nos olhos, procurando sinais de vermelhidão.
— Chame minha droga de efeito pós-beijo teu, querido. –gracejou ela.
— Saia daqui. –rosnou ele, irritado. Patrícia pôs-se a sorrir mais ainda, encantada com seu desconforto.
— Até mais tarde, querido. –disse ela, jogando-lhe um beijo no ar. Johnny, sem entender nada do que ela havia feito, voltou sua atenção para a carne.
Soldados e mafiosos são mais fáceis de lidar. Pensou ele.
Esse casal é ainda mais estranho.



Amy, com as chaves em mão, riu a Patrícia e as duas foram até Jess que conversava com Charlie.
— Charlie, quer sair para beber conosco? –a ruiva perguntou a amiga, que sentiu-se ligeiramente conturbada com o pedido.
— Beber com vocês? Por que vocês me convidariam para isso? Eu sou um estraga prazeres de diversão. –a garota sorriu, desacreditada. — E estou com ressaca de ontem.
— O melhor modo de curar uma ressaca é bebendo de novo. –Amy citou, fitando-a descaradamente. Charlie sentiu-se intimidada. Na realidade, a pobre recém-mãe não estava a lidar tão bem com a presença da outra brasileira no NOC. Não conseguia encará-la sem lembrar-se de tudo que Thomas a dissera sobre a ex-namorada. Em como ela era incrível e divertida. Literalmente louca. E muito atraente.
Charlie percebeu tudo em pouco tempo. Além da mulher a sua frente ter um corpo que deixaria qualquer homem louco, tinha como companheiro um homem mais lindo ainda. A física de fraldas não sentia ciúme. Mas sentia insegurança. Porque também, ultimamente, os olhos azuis do outro louco a fitavam demais. E isso era complicado.
— Bem, podemos conversar. –Charlie assentiu, arrumando-se o melhor que podia em seu moletom largo. Amy usava calça apertada e camisa justa. Eram opostos.
Ela é gostosa, tenho que admitir. Charlie pensou.



Então, as quatro, saíram. Juntas. 


Quando os rapazes deram-se conta disso, houve uma pequena guerra descontrolada no NOC.
Thomas, que chegara poucos minutos depois, perguntou a todos sobre a mulher perdida. Russo, pouco amigável, respondeu-lhe:
— Patrícia, Amélia, Jess e Charlie saíram.
Hiddleston entrou em choque.
— Charlie e Amélia?! –gritou, exasperado. Apenas esses dois nomes o preocupavam. — O que Charlie está a fazer com ela?!
— Tem algum problema com a minha mulher, inglesinho? –irritou-se o italiano, do outro lado.
— Cale a boca! –rosnou o ator. — Onde elas foram?!
— Eu tenho cara de perseguidor de mulheres, babaca inseguro? –Jay irrompeu novamente.
— Sim, você tem! –disse Thomas.
Johnny passou as mãos pelo rosto, ainda de mau humor. O mau feitio impedia-o de sorrir.
— Vocês parecem duas vadias a brigar. –reclamou, afastando-se. — Para onde Amy disse que iria, Napoleon? –perguntou o russo ao dono da Ferrari.
— Não disse. –falou ele. — Um bar, talvez.
— Um bar?! –o russo indignou-se, surpreendendo-se com o destino das mulheres. — Em pleno natal? Com esses aproveitadores infelizes pela cidade? Essa escória inglesa?
— Olhe como fala de nós! –Thomas interpôs.
— ‘Nós’ um caralho, Hiddleston. Nasci bem distante daqui. –Johnny rebateu, apanhando a faca que usava na carne. Colocou-a entre a calça e a cintura. — Vou procurá-las.
— Com uma faca de cozinha nas calças, sério? –Thomas postulou, a colocar suas mãos na cintura. Fazia a usual postura de mãe preocupada. Aprendera muito com Charlie desde que Hamish nascera.
— Você prefere que eu pegue uma das minhas semiautomáticas para procurá-las? –o russo, de olhos firmes e felinos, rebateu.
Talvez ele fosse o único homem do recinto que mais agia do que falava. Deixando os inimigos alheios, Luchnik marchou ávido de cólera e ódio a porta, agarrando o pobre Peter que ainda comia. ‘Sua mulher também se juntou a elas. Levante-se, frouxo’, disse-lhe ameaçadoramente.
Thomas não tardou a juntar-se aos dois homens, à procura das meninas.
Jay, pouco importando-se, apenas deu de ombros. Não lhe importava muito o que sua esposa fazia, porque ele mais do que ninguém sabia bem como a mulher sabia se defender. Mas interrompendo seu fluxo de paz, visualizou a figura altiva do maldito russo a retornar e obriga-lo a acompanhá-los. Ou caso contrário, a faca roubada alcançaria lugares que ele desejava usar apenas com a mulher ausente.
Como eu os odeio. Pensou o italiano.



Enquanto isso, à plena velocidade de 230 km/h em uma rodovia inglesa qualquer, as garotas sorriam e cantarolavam uma canção do Foo Fighters –que, coincidentemente, era a banda favorita do italiano- sem ao menos pensar no quão polêmico estava sendo tratado o inocente passeio. Amélia se acostumara com seu novo apelido: Amy. Em retribuição, deu a alcunha de ‘nórdica’ a Patrícia, pois seus cabelos ruivos assemelhavam-se a de uma deusa do templo de Odin, ou, no singelo caso, uma viking guerreira dos países celtas. Com animação, Amy encarou Jess e chamou-a de ‘stellina’, uma versão carinhosa de ‘estrela’ em italiano. Já a pobre Charlie, que segurava-se firmemente em seu cinto de segurança, desejava apenas chegar ao bar com vida.
Ela constatara que Amy era realmente tudo o que Tom dissera. Gostosa, engraçada, louca e aventureira. Parecia-se muito com uma fusão de Pati e Jess.
Amy, pouco contente com o silêncio da companheira de seu ex-namorado, suspirou.  
— Você precisa se soltar. –a mulher a recomendou.
— Estou bem, obrigada. –Charlie disse.
— Você se comporta como uma freira decadente. –Amy retornou. Charlie fitou-a com antipatia.
— Freira decadente?! –indignou-se. — Só porque não saio a convidar os outros para beber ou dirijo uma Ferrari?
Patrícia arregalou os olhos, a temer uma briga das duas.
— Veja, eu entendo. Não é necessário gostar de mim. Sei que não é fácil aceitar a amizade de uma mulher que anos atrás relacionou-se com Tom. Eu entendo.
— Não é por isso. –Charlie direcionou seu par de olhos brilhantes a outra brasileira. — Realmente não me importa que foi namorada de Thomas.
— Então o que há contra mim? –Amy inspirou.
— Você está a roubar minhas amigas! –Charlie admitiu, rolando suas íris rumo a portuguesa e a pequena Jess. — E você é como uma... modelo de passarela ambulante com esse seu traseiro empinado.
Amy colocou-se a rir. A ruiva e a loira, logo ao lado, caíram numa gargalhada juntas, também. Charlie apenas torceu o pescoço, fungando seu mau humor.
— Deixa-te de merdas que ninguém nos roubará de ti! –a portuguesa exclamou, colocando suas mãos em volta dos ombros encolhidos de Charlie. — Ciúmes, morena? Não acredito!
— Não é ciúmes. É precaução. –Charlie respondeu.
— Este discurso é do Johnny. –Jess provocou-a, ainda a rir.
— Tudo bem! –Charlie riu. — Veja, Amy... posso chamá-la assim, certo? Amy, muitas coisas estão a me preocupar. Primeiro, tua chegada afetou Thomas. Não a culpo, pois a culpa é dele. Ele é um maldito sentimental. –iniciou, fazendo as três rirem com o modo que tratava Hiddleston. — Tu que já namorastes ele deve saber bem como o homem consegue sentir remorso por uma pedra que pisou.
— Oh, eu sei. –Amy confirmou.
— Sabemos. –Pati juntou-se a elas.
— Segundo, teu marido está a me encarar. –olhou para Amy, que dirigia com atenção. — E eu me sinto intimidada com ele.
— Por quê? –Amy sibilou naturalmente. — Jay não é perigoso. Ele só gosta de fitar.
— E flertar. –Pati adicionou. — Ele me chamou para uma orgia contigo. –foi sincera.
— Ele faz isso para provocar Illya. –Amy a confortou. — E Charlie, Jay não fará nada sem seu consentimento. Ele está interessado por ti, sim. Sabes por que? Porque você se parece comigo.
— What?? –Pati ressonou. — Onde Charlie parece contigo?
— Normalmente sou como ela. Quieta, pensativa, sempre com o rosto dentro de um bom livro. Mas ultimamente estou elétrica e falo mais do que a própria boca. Eu tenho um transtorno de humor que faz com que eu me mostre bem humorada num dia e irritada no outro. –Amy explicou. — E claro que Jay está a provocar Hiddleston também.
A Ferrari estacionou em frente a um bar de fachada rústica. Assemelhava-se a um bar em meio do deserto, de placas de madeira em sua face e letreiros iluminados por neon. As quatro garotas gostaram do lugar.
Pati não se contentou e sacou-lhe o celular, reservando algumas fotos para postar em seu instagram mais tarde.
— Vamos conversar enquanto bebemos. –a ruiva foi a primeira a abrir a porta do esportivo, escorregando-se junto a motorista para fora. — Mas antes... alguém tire uma foto minha neste carro?
Jess, a sorrir, tomou o celular em mãos para fazer o que Pati pedira. Amy encostou-se na lataria, observando a pequena loira configurando a câmera sobre o rosto sorridente da portuguesa a fingir que dirigia a Ferrari. Charlie, até então quieta, gargalhou.
Juntas, pouco mais tarde, adentraram no bar.
E ao fazerem, olhares indiscretos dos muitos homens que ali bebiam rodearam-nas com interesse. O ar cheirava a batatas fritas e cerveja. Algumas luminárias encrustavam as paredes forradas com papéis de cor neutra e pôsteres de bandas de rock e metal, vulgarizando o local com um pouco da personalidade selvagem.
Russo gostaria daqui, pensou Pati.
Jay morreria bêbado sobre alguma mesa dessas, Amy imaginou.
Thomas me mata se souber que estou aqui, Charlie refletiu.
Puta que pariu, isso é que é diversão! Jess, sem lembrar-se de Peter, alcançou um assento ao redor do balcão.
A verdadeira aventureira era a loirinha.




No outro lado de Londres, juntos em no Aston Martin Vanquish do irritadiço Johnny Luchnik, juntavam-se Peter no banco de trás, Thomas ao seu lado, o italiano no banco de passageiro e o motorista, o mesmo russo dono do automóvel.
E é claro que Johnny alcançava velocidade entre as ruas.
Mais precisamente 290km/h.
Perigoso.
— Entre na direita! –Peter gritou, empunhando em mãos um tablet. Em sua tela principal apitava um pequeno botão vermelho, indicando a movimentação de um carro qualquer.
Não, não era um carro qualquer.
Era a Ferrari Califórnia de Jay.
— Pode ir mais devagar em nome do seu pau? –o italiano reclamou, encarando o russo com furor.
— Não me faça enfiar essa faca no seu. –Illya respondeu-o pouco amigável. — Se souberem que quatro mulheres que conheço estão juntas em um carro, as sequestrarão.
— Eu sou filho da máfia, porra. E sequer estou preocupado com hipóteses de sequestro. –Jay rebateu.
— Sua máfia é uma reunião de crianças comparada aos idiotas que querem uma chance de me atacar usando meus colegas. –murmurou.
—  O quê?! Estão dizendo que minha mulher corre perigo? –Thomas alertou-se, estilhaçando sua voz rouca.
— Eles podem ser um pouco dramáticos. –Peter sussurrou, desviando seus olhos azuis. — Não se importe. Elas estão bem.




Patrícia despachara o terceiro homem em trinta minutos.
Tudo estava muito bem, obrigada. Não era culpa delas se os homens a achavam gostosas.
— Então você se apaixonou por Thomas e se afastou de Jay por isso? –Charlie perguntou, após os vários minutos de explicação que Amy a detalhava.
— Exato. –bebericou vodka.
— E tu nunca mais vira Hiddleston desde que fugiu com Jay até a Itália? –Pati questionou.
— Exato. –repetiu, a bebericar mais. — Thomas sequer sabe que tenho um filho.
— Então nós três somos as primeiras que sabem disto? –Jess indagou.
— Isso. –Amy confirmou.
— Somos a porra de um clube secreto de mulheres, caralho! –Pati gargalhou, servindo-se de mais Whiskey. — Hmm... se eu misturar com vodka fica bom?
— Tente! –Amy jogou-a a garrafa que bebia. Patrícia sacodiu o líquido sobre seu copo, juntando as bebidas em um coquetel perigoso.
As outras a assistiram virar o copo contra a boca. Pati, esta muito tentada a experimentar coisas novas, franziu o cenho com o gosto cítrico-forte que atingira-a a garganta e, depois de algum tempo associando, soltou um suspiro.
— ISSO É BOM! –gritou.
— Aí estão elas! –Peter exclamou logo que enterrou sua cabeça no bar, porém antes que pudesse gritar algo a mais, uma mão gigante empurrou-o para dentro bruscamente. E é claro que essa mão pertencia ao russo.
— Patrícia Viegas Caetano, o que tens na cabeça a sair com essas loucas?! –bravejou o homem de cabelo cinza, afundando seus passos pesados rumo à elas.
— Aproxime-se mais e eu quebrarei essa garrafa de vodka em seu pau! –a amiga de cabelos cacheados e sotaque brasileiro arqueou-se da cadeira, olhando-o intensamente. — Tarde das meninas. Caiam fora.
— É bem o que ela disse. –Patrícia respondeu e bebeu um gole, sorrindo de canto. — Pensei que não éramos um casal. Pois não peça rédeas comigo, russo. Perda de tempo.
— Uuuh! –Jess interviu. — Headshot, Johnny!
O russo apanhou uma batata frita do prato da mesa vizinha, sem se importar com o desconhecido que reclamou de ter seus salgados assaltados. Jogou-a contra a testa da baixinha provocativa.
— Não me faça pendurar você pelas calças, Hobbit. –resmungou. Ele arriscou dar mais um passo em direção às garotas, porém Amélia se prontificou em aproximar-se também. Com a garrafa em mãos e a ameaça em mente. — Eu não vou brigar com você.
— Eu sei domar homens. Por isso o meu não está aqui, junto a vocês, a reclamar. –balançou a cabeça momentaneamente, desviando seus olhos a Patrícia. — Oh! Acho que estou a entender. Achas que sou uma ameaça para a ruiva? Que irei afastá-la de ti?
— Eu?! –repetiu o russo, desconfortável. — Nunca!
— Então não vejo o motivo de euforia. Ela já rejeitou três rapazes em trinta minutos. Sabe se cuidar. –justificou. E então, rindo divertidamente, ela entregou-lhe a garrafa. — Ciúme, russo? Seu coração está a derreter? Ótimo saber. Beba, faz bem. 
Johnny apertou os olhos verdes com irritação. O nariz fino respirou o ar em uma única inspiração e lançou-se em direção a Patrícia, espantando-a.
— Não é ciúme. É precaução. –disse. Jess fitou Charlie, sussurrando ‘a frase é dele, está a ver?’. O russo, no entanto, direcionou-se para a nórdica ruiva. — Conversaremos em casa. Ou não.
Patrícia entendeu o significado de ‘ou não’.
— Ou eu posso amordaçá-lo e não falarás mais. –devolveu a portuguesa, sem sorrir também. Johnny franziu o cenho, desacreditado.
— Vou prender suas mãos antes disso.
— Eu não permitirei.
— Não preciso de permissão. –disse ele, arisco.
— Sem permissão, sem toque. Apenas tu e tua mão. E seu brinquedo. E a vodka. –ela listou, arqueando uma das sobrancelhas. Encarava-o por cima das lentes dos óculos.
— Posso emprestar alguns chicotes. –a amiga brasileira comentou.
— Sim, querida, obrigada. Farei bom uso. –Patrícia provocou e bebericou mais da vodka. Deslizou os dedos pelo contorno da TARDIS estampada na camisa do russo, sentindo o tronco endurecido. Ele segurou sua mão em reflexo.
— Digo o mesmo, então. –condicionou, resmungando sua voz rouca.
— Tensão sexual. –um sotaque charmoso ecoou pelo bar, até então desinquieto. Patrícia desvencilhou o olhar, encontrando-se com a figura altiva de Jay à porta, encostado. Sua amiga brasileira não pareceu gostar da companhia.
— Acho que precisará dos chicotes agora, Amy –Pati riu. — Seu garoto está aí.
Amy revirou as pupilas.
— Talvez devêssemos prender os dois juntos. Ajudaríamos uma a outra. –resmungou ela.
— Prender-nos? –Jaime replicou. — Estou gostando. Continuem.
— Cale a boca, italiano. –russo rugiu.
— Não vou negar que gosto de estar por baixo, às vezes. Deixe que elas comandem. Nunca se sabe o que aguarda. –cruzou os braços, divertindo-se com o mau humor do colega-inimigo.
— Eu sei bem. Vão nos castrar. –Johnny murmurou.
— Precisamos de certos membros. Castração é simbólica. –Amy reagiu ao russo, que desprendeu os lábios em incredulidade.
— Eu esqueço de dizer que ela é um pouco mais arisca que as outras mulheres. Acostume-se, Luchnik. –aproximou-se, observando as quatro garotas sentadas ao bar. Seus olhos se fixaram, porém, em Charlie. Estreitou as órbitas para a morena que apenas bebia e nada falava. — Hiddleston cortou tua língua?
— O quê? Desculpem-me, estava a pensar em um cálculo! –ergueu os braços, espantada. Notou que o homem a encarava. Corou. E então, fitou as amigas em busca de socorro. Empurrou o russo contra Pati. — DIVIRTAM-SE! ATÉ MAIS! E... não me olhe assim. –direcionou-se ao italiano. — Não me olhe assim. Não. Mesmo.
— Desta mesa eu só me atreveria a agarrar a Patrícia. –sussurrou ele. — Mas ela está ocupada com o Russian-boy.
— Ahn... você não é... casado? –Charlie gaguejou.
— Minha mulher gosta de garotas, também. Acho que ela está flertando contigo, inclusive.
Charlie engasgou-se com a própria saliva. Fez menção em dizer algo, mas, novamente, estava sem saída. Patrícia parecia falar algo com Johnny. Amy estava a encarar Peter em tentativa de assustá-lo. E o italiano, maravilhoso, que tanto Hiddleston odiava, continuava em sua frente. Com os malditos olhos azuis.
— Eu estou começando a entender a razão de Thomas não conseguir passar muito tempo contigo. –disse. Jay entortou os lábios, inclinando-se sobre o balcão. Charlie pendeu o pescoço para trás.
— Péssima escolha de companheiro, Charlie. Tudo o que ele sabe sobre dominação, brotou de nós.
— Onde está Thomas, mesmo? –Charlie irrompeu, vagando o bar a procura do homem.
— Nós o trancamos no carro. Fala demais o maldito. –disse naturalmente.
Pobre Thomas.
Ele realmente estava preso.
— Vamos todos de volta ao NOC! –esbravejou Patrícia. — Tenho uma ótima ideia para pagar nossas brigas. Verdade ou desafio. –maliciou, apanhando as duas garrafas parcialmente cheias. — Com bebida!

Patrícia tem o mesmo espírito sádico que o russo. Que todos saibam disto.



Quando mais calmos e com os nervos tranquilos, os homens separaram-se pelo prédio e tomaram, cada um, um banho. As mulheres, essas sorridentes e divertidas, discutiam os planos para o jogo seguinte. Pati pegara as fichas com perguntas sorteadas e as de desafio, jogando-as num cubo mágico quebrado para que servisse de base. Charlie, a lamentar pelo noivo preso no carro, preparava uma sopa de tomate, sua favorita. Jess esvaziava uma garrafa de vinho barato para que mais tarde pudesse girá-la.
Minutos após, Thomas, Charlie, Amy, Jay, Pati, Johnny, Jess, Peter e Hans se sentaram em círculo no centro da sala do quadro acrílico.
O jogo começara.
— Quais são as regras? –perguntou o loiro de olhos púrpuros, sorrindo atravessado.
— Não há regras. Apenas uma: obediência as fichas. O que sair, fará. Não importa qual seja a revolta. Não importa qual for seu parceiro. Apenas a fará. E se alguém desafiar o outro, este deve aceitar. Somos todos adultos. Podemos brincar até chegarmos a nos comer. –Amy respondeu, recolocando a garrafa vazia. — Temos doses de Whiskey, vodka e uma garrafa de tequila completamente cheia. Que os jogos comecem.

Alguém vai se divorciar até o fim da noite. Pensou o russo.




Ao som de Hurricane, de Thirty Seconds to Mars, os desafios se iniciaram. O russo, como dono do prédio, tomou para si as primeiras perguntas. A garrafa escolhera Jess como responsável por respondê-las.
— Diga seu desejo mais obscuro por alguém desta sala que não seja Peter. –atingiu-a, causando um murmúrio conjunto dos outros moradores.
Jess corou.
— Eu imagino o italiano a fazer um movimento de dança comigo, tal como no filme Magic Mike. –disse. Peter se engasgou. — Desculpe, amor.
Jay soprou um riso provocativo. Patrícia, esta divertida pela confissão da amiga, apenas ponderou a cabeça rumo ao homem de olhos azuis.
— Desafio-te a cumprir o desejo dela. –enfrentou-o, estreitando suas sobrancelhas. O russo sentiu-se orgulhoso.
— Sem problemas. –Jay arqueou-se do chão, arregaçando as mangas de sua camisa. Jess arregalou as pupilas, desacreditada que ele realmente estava a se aproximar dela. — Sem ressentimentos, amigo. –disse ao Peter, que respirou fundo.
— Não a toque... intimamente. –pediu.
— Somente se ela quiser. –piscou-lhe o olho direito, esticando a mão para Jess. — Não tenha receio, querida. Amanhã estaremos com tamanha ressaca que sequer nos lembraremos.
— Oh, eu me lembrarei disto! –Jess exclamou extasiada, rodeando seus dedos em volta da mão oferecida pelo italiano.
Ele, então, puxou-a com veemência contra seu corpo. O círculo gritou em divertimento. Jay tomou posse das mãos de Jess e, com ousadia, escorregaram-nas por seu tronco coberto. A menina soltou espasmos e gritos de euforia. De lábios presos entre os dentes, o italiano agachou-se agilmente e trouxe Jess em seu colo, fazendo-a prender suas pernas ao redor de sua cintura. Mordeu-lhe o pescoço.
— Sempre cumpro com juros. –sussurrou-lhe perigosamente, colocando-a de volta ao chão.
Jess, estática, permaneceu de pé com o rosto vermelho.
— Puta merda, eu quero isso também! –Patrícia exclamou, pondo-se arqueada.
— Próxima pergunta! –o russo intrometeu-se, fuzilando o divertido italiano com seu semblante mais sádico possível. ‘Não ouse’, sussurrou a ele. ‘Tente impedir’, Napoleon retornou.
— A garrafa indicou Johnny. –Charlie, tossindo propositalmente, avisou.
— Que seja. –bufou ele.
— Diga-me a última pessoa que você beijou. –Charlie leu o papel sorteado, sorrindo com o resultado. O russo apenas maneou a cabeça.
— Patrícia. –olhando para a portuguesa, retribuiu.
— WHAT?! –Jess gritou, surpreendida. — Conta-me tudo! Meu deus!
— Controle-se. –Peter sussurrou.
— PRÓXIMA PERGUNTA! –Charlie interviu, gargalhando. — Girem a garrafa.
Russo, o último perguntado, girou. Lentamente, perigosamente, a garrafa tomou força e logo despendeu, parando em frente ao italiano. Um sorriso maléfico surgiu no rosto de Nik. Ele sorteou o papel.
— Diga-me uma pessoa desta sala com quem faria sexo, mas não pode ser a sua parceira. –leu Johnny, esperando o circo pegar fogo.
O italiano mudou o foco dos olhos para o lado oposto do círculo, enxergando os lábios avermelhados da morena que acabara de rir para Jess.
— Charlie. –admitiu, causando uma rápida reação da garota que arregalou a boca em surpresa.
— Hiddleston, sente seu pau aí. –russo proclamou, evitando uma possível briga.
— Ele quer que eu o atire para fora daqui! –o inglês gritou. — Pare de pensar essas coisas depravadas com a minha mulher!
— Agora sabe o que eu senti quando fodeu com a minha. –Jay apertou o cenho, desafiador. — Próxima pergunta.
— Próxima pergunta o cacete! –Tom exclamou. — Tire os olhos de Charlie!
— Ele está gozando contigo, caralho. –Amélia intrometeu-se, mal humorada.
Tom se calou, embora bufasse em raiva.
— Uh! Está ficando quente aqui! –Jess assobiou, desvairada.
— Próxima pergunta. –italiano limpou a garganta e girou a garrafa. Para seu azar –ou sorte- ela se paralisou em frente a Charlie. A garota solavancou. — Diga-me qual o lugar mais exótico que fez sexo.
Charlie congelou.
— Hm... ahn... armário de teatro? –balbuciou.
— Suspeitei que o rosto inocente era apenas uma máscara. –Jay disse provocativo, entregando a posse das perguntas para a Charlie. — Continue, ragazza.
A morena se arrepiou com a palavra italiana. Pare com isso. Se martirizou depois.
Charlie girou a garrafa. E, para a surpresa de Johnny, parou em Pati.
— Se você fizesse sexo à três, com quais homens faria? –leu a pergunta, rindo.
— Não é óbvio? Italiano e... Hans! –disse Pati, fitando Johnny com lascívia em seu olhar. Ele, irritadiço, apenas resmungou baixo.
— Seria um prazer. –Hans gracejou, sorrindo cafajeste.
— Cale a boca, merdinha. –o russo xingou-o. — Próxima pergunta.
Patrícia, recompondo-se do riso, girou a garrafa. Parou de frente a Amélia. Com o papel sorteado em mãos, abriu-o e se deparou com a palavra ‘desafio’.  Uuh!
— Desafio-a te beijar Hiddleston. –falou, direta. Amy tossiu em surpresa. Tom, afetado em dobro, planejou fugir, mas, surpreendentemente, Charlie o segurou. Ela queria ver isso.
— Nem fodendo. –Jay resmungou, negando acesso a mulher.
— Por acaso tu manda em mim? –Amy rebateu, entortando o olhar. — Charlie?
— É todo seu. –a morena fez um gesto com as mãos, gargalhando baixo. Tom e Jay entreolharam-se com o rosto em pânico.
ELAS ESTÃO LOUCAS!, gritaram suas mentes, juntas.
Amy levantou-se, soltando os cabelos cacheados. Hans encarou suas pernas descaradamente. Seu marido, no entanto, apenas fitou seu traseiro como se sua imagem o fizesse esquecer que ela beijaria o maldito inglês. Charlie dobrou o pescoço, curiosa com a expressão que Thomas fazia.
Sem recaídas, Hiddleston. Sem recaídas por ela. Repetiu Tom incansavelmente em sua cabeça.
Continua tão fofo. Mordível. Amy pensou, rindo.
Foi sequencial. A mulher de belo corpo inclinou-se sobre Hiddleston e fitou seus olhos por longos segundos. Momentaneamente os dois relembraram-se dos bons tempos em que eram apaixonados, julgando-se burros por se separarem. Era perigoso continuar. Mas, tentada, Amy entrelaçou seus dedos em sua nuca e tomou-lhe os lábios com furor. Tom, sem reação, apenas apalpou suas costas.
— Ela sabe como domar mesmo. –Charlie gracejou.
Eles dois se separaram imediatamente. Tom, sentindo-se tonto, suspirou. Amy, tonta mais pela bebida que tomara que pelo beijo em seu antigo amor, sentou-se em seu lugar. Jay a encarou com raiva.
— Você pode beijar Charlie. –ela sussurrou, alcançando a vodka.
— Isso está ficando preocupante! –Peter gaguejou.
— Ótimo desafio, Patrícia! –russo parabenizou-a. — Escolha um mais pertinente depois.
— Sempre farei, russo. –piscou-lhe em zombaria.
Com os ânimos equilibrados, todos voltaram a enxergar a garrafa. Era a vez de Jay girá-la. E com força, ele o fez.
Caiu sobre o Luchnik.
Ops. Ops. Ops.
Retirou a ficha sorteada.
De-sa-fio.
Ops, ops, ops.
Fodeu.
— Desafio-o a derrubar um copo de tequila sobre o tronco de Patrícia e lambê-lo até secar. –o italiano fez questão de narrar lentamente, causando gritos de explosão e vários ‘uuuh’ dos colegas ao redor.
Patrícia, até então sem ser afetada pelo jogo, abriu os olhos imediatamente.
O russo, corajoso como sempre fora, apenas entortou a boca num sorriso.
— Amy, dê-me a tequila. –pediu a brasileira que, prontamente, obedeceu. Com os olhos a brilhar em desafio, o homem de cabelos cinza aproximou-se da portuguesa avermelhada e, sem nada dizer, alcançou a barra de sua camisa larga e puxou-a para cima.
Lá estava ela. Quase nua do tronco para cima, com o maldito assassino em seu corpo.
Para piorar a situação, Johnny retirou a tampa da garrafa com os dentes. Jess, que usualmente suspirava por ele, sentiu o útero explodir.
Patrícia, que tinha a atenção toda ao homem, pensou que iria desmaiar.
Seus cabelos sem cor, bagunçados sobre o rosto fino e animalesco, causavam-no uma expressão selvagem irresistível. Era aquela seriedade absurda que a tirava o fôlego. Eram aquelas pérolas verdes intensas que tinha no lugar os olhos.
Eram aquelas mãos grandes.
E os lábios vermelhos, finos de longe, carnudos de perto.
Era aquele nariz arrebitado.
Do I wanna know... –cantarolou ele, despejando a tequila sobre sua clavícula exposta. A bebida escorreu entre seu decote, fazendo-a franzir o rosto em ansiedade. A língua quente e úmida do homem dançou sobre sua pele como o fogo de um dragão perigoso. Toda a sala estava a observar atônita. O jogo estava se tornando sujo.
— Puta que pariu! –rosnou a portuguesa, extasiada.
Johnny arqueou a cabeça, lambendo os lábios molhados pela tequila.
Até mesmo a pobre Charlie se sentiu excitada pela imagem.
Amy, sentada bem próxima, ponderou uma orgia com ele.
Thomas e Peter haviam fechado os olhos.
Hans tossiu propositalmente.
— Próxima pergunta! –gritou ele.
Patrícia então voltou a terra. A pobre ruiva estava se sentindo como se haviam a chutado para fora do planeta.
— Sua camisola. –Johnny devolveu-a, como se nada tivesse acontecido.
— PORRA! –Patrícia deixou-se decair.
A garrafa que Hans girara voltara a alcançar Charlie. A morena, que estava abestalhada pela imagem de Nik ensopado pela bebida, apenas piscou sequencialmente. Hans, rindo à toa, retirou o papel sorteado.
DESAFIO.
Charlie se contorceu.
— Seja caridoso comigo, por favor. –pediu ela.
— Claro. Desafio-a te sentar no colo do italiano, deixá-lo te tocar e, ao fim, beijá-lo. De língua.
Charlie desfaleceu internamente. Thomas, sabendo bem que após beijar Amy não tinha moral para rebater, esgueirou-se com feição de ódio e alcançou a vodka. Precisava beber para não matar o maldito homem.
— Somos adultos. –disse Charlie, para si mesma.
Jay encarou Hiddleston com malícia. Era como se dissesse ‘agora é a hora de vingança’. Amy, no entanto, ébria pelo álcool, apenas sorriu com a imagem do marido desejando a outra. Sexo era algo aberto entre eles.
Charlie hesitou, mas caminhou até o homem. Pousou cada joelho ao redor de seu quadril e se sentou lentamente em seu colo, acomodando-se sem jeito. Sentiu seu corpo rígido e seus braços largos. Sentiu até mesmo seu tronco forte. Para uma garota que só havia feito sexo com um homem, Tom, agarrar-se ao corpo de outro era tarefa difícil.
Mas lá estava o par de olhos de cobra dele. Azuis límpidos.
Ela sem querer se sentiu molhada.
— Você se parece com o Neal Caffrey... –murmurou ela, lembrando-se do gostoso golpista de White Collar.
Jay sorriu torto. Arrastou as costas de suas mãos por seu rosto, fitando o rosto jovem da garota como se quisesse desenhá-lo mentalmente. Hiddleston tem bom gosto. Pensou ele.
Então, o desafio cumpriu-se. Ele deslizou suas mãos pelas coxas expostas de Charlie que, involuntariamente, se arrepiou. Com ousadia, ele vagou seu traseiro e subiu-lhe as costas, alcançando seus cabelos. Puxou-os com firmeza. Ela soltou um baixo gemido. E, então, beijou-a.
— Próxima pergunta! –gritou Thomas, desesperado. Amy gargalhou.
Charlie correu de volta ao lugar desconcertada. Thomas, possesso, agarrou-a pela cintura e mostrou ao italiano a quem ela pertencia. Ele, em resposta, mergulhou a mão entre as pernas de Amy, que solavancou um susto.
— Eu acho que está em tempo de acabarmos isto. –Pati aprontou-se, observando a índole dos dois homens.
— Eu posso sugerir um último desafio? –Jess perguntou.
— Vá em frente. –russo mandou-a.
— Desafio você a dormir com Pati hoje. –disse a pequena garota.
— UUUUUH! –foi unânime. Todos os moradores gritaram em conjunto.
Patrícia engasgou-se com a própria saliva.
Hans, este gargalhando por não ter sido atingido pelos desafios, se levantou.
— Vamos, amigos. Deixaremos os dois a sós para discutirem o futuro da noite. –falou ele, comovendo os demais colegas a saírem.
Abandonando Pati e Johnny com seus rostos espantados, eles saíram.
Johnny sentia o prazer de negar e ir para seu quarto sozinho, mas após lamber a tequila de sua pele, algo em seu interior o ameaçava.
Cientificamente falando, a endorfina liberada somente em suas missões, se transferiu para aquele maldito jogo. E após tanto camuflar seu interesse pelo perfume da portuguesa, acabou caindo na armadilha de cheirá-lo tão próximo.
A ciência o traíra.
Agora lá estava ele.
Excitado.
E Pati, sem saber, mordia os lábios em nervosismo.
E Luchnik achava aquilo atraente.
Pati, observando o russo a observá-la com atenção, sentiu-se acalentada. Pensou em trocar suas calcinhas.
Excitada também.

Que os jogos comecem. 



 

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