sábado, 14 de novembro de 2015

NOC - Cordas




NOC – Nerds Obsessivos Compulsivos: Cordas.


Certas pessoas mantem dentro de si uma questão interna que sempre as deixam com os neurônios cansados. O sentimento de não-aceitação, acompanhado da familiar sensação de estar deslocado e a frequente pressão de seus parentes as induzem a procurar em outros lugares um aconchego para se chamar de lar. Livros, universos paralelos de filmes, séries e jogos de RPG são as mais básicas entre uma tribo social bastante conhecida nos dias de hoje: os nerds.
Sim, estamos mesmo falando deles. Talvez você conheça algum. Tradicionalmente destacados em ambientes escolares por suas inteligências acima do normal e seus hábitos muito excêntricos –ou por seus gritos de socorro entre uma briga ou outra- essas pessoas, na realidade, guardam infinitos mundos em suas cabeças. A criatividade os ajudam a sobreviver quando os tempos se tornam difíceis. Embora aclamados por boa parte da família que, naturalmente se orgulha de seu desempenho escolar, isso não os torna os favoritos numa reunião no Natal. Na realidade, é assim em todo o lugar. Sempre aplaudidos na escola quando são requisitados para algo –como, por exemplo, servir de dicionário em uma prova- e rebatidos em quesitos comuns como fazer amizades. O que os tornam pessoas torrencialmente fechados, assim acostumados a se manterem em posição de defesa para tudo e para todos. A desconfiança é algo enraizado em seu DNA.
Nerds não são humanos aos olhos humanos. Eles não são humanos nem mesmo para seus próprios olhos. Talvez eles não sejam mesmo.
Porque, definitivamente, a história que devo contar não se trata de reles humanos rejeitados pela sociedade. Nem mesmo eu sei se eles são descendentes do homo sapiens.




Prólogo

Os cachos avermelhados da moradora da porta número nove do exímio prédio antigo que carinhosamente era chamado de ‘NOC’ caíam sobre seus ombros em cascatas coloridas de um belo emaranhado de fios bem colocados. Aparentemente o quarto 09 tinha predileção por garotas ruivas, uma vez que sua ex-moradora era também uma boa menina de cabelos enferrujados. Mas essa é outra história.
Inclinada sobre a velha mesa de madeira ressecada da larga cozinha do primeiro andar, a moradora se contorcia sobre o banco de forma que conseguisse encaixar perfeitamente o pedaço de isopor delineado em um bom formato de parte de uma maquete. A ruiva, quieta em atenção, montou a parte dianteira com uma calma quase inumana, mal parando para respirar. Soltou um suspiro de alívio ao abandonar a casa parcialmente completa.
— Agora só faltam... –contou mentalmente, fitando a pilha de recortes que ainda aguardavam sua vez de fazer parte da pequena construção. — mais centenas de malditas peças. –desanimou-se.
— E ainda me pergunta por que não suporto vê-la trabalhar tanto, Patrícia. –disse uma voz rouca que passara no corredor e decidira parar para observá-la se lamentar.
— Por que não me ajuda? –pediu amigavelmente. — Dois fazem um trabalho mais rápido que um.
— Lógica matemática infeliz. –resmungou o homem de cabelos cinza, arqueando momentaneamente as sobrancelhas falhas para encarar o trabalho todo que ela pedira para ele compartilhar. — Definitivamente não.
— Johnny! Por favor!
— Nós dois sabemos que se eu tocar minhas mãos nesse seu... extremamente e perigosamente delicado trabalho, ele se destruirá com a minha impaciência. Virtudes, minha cara portuguesa. Virtudes. Paciência não é uma das minhas.
— Vejo que não. –ela deu um sorriso muito baixo, quase zombeteiro. — Afinal, você não é tão bom em trabalhos que exigem cuidado, não é?
— Não me tente.
— Oh, desculpe. Não sabia que estava sensível hoje. –ela ergueu as mãos em um ato meramente irônico. Johnny levou as mãos ao rosto, frustrado. Queria pôr um fim naquilo. Em resposta, o altivo homem virou-se de costas para a colega de moradia e sumiu entre os muitos corredores do antigo prédio, arfando irritado. Ele acabara de sair do quarto, onde pouco antes de ir à sala do quadro acrílico para buscar um DVD esmurrava seu saco de areia predileto. Nas mãos um par de protetores de punho de cor preta e superfície forrada de borracha e couro protegiam seus dedos dos brutos tapas. A extensão do protetor se estendia até o limite de seu antebraço.
O problema era que, sendo professor universitário de física, o estresse o pegava de qualquer maneira. Apesar de amar aquela matéria em especial, odiava ter que lecioná-la para centenas de alunos irresponsáveis que só ali estavam por ter uma pseudo afinidade com a série The Big Bang Theory. De longe não eram nenhum Sheldon Cooper. Só fingiam ser. E isso o irritava. Ensinar algo belo para muitos que não mal entendiam a importância da matéria era como morrer um pouco a cada dia. E de morrer, Johnny entendia bem.
Mas é evidente que o professor irritado tinha planos para todos àqueles que não levassem a matéria a sério. Se existia uma fama dele na faculdade em que trabalhava, era de ser uma rocha no caminho dos alunos entre a universidade e o diploma. Para passar em seus testes, eles teriam que dar seu sangue e suor, se preciso. E, obviamente, era.
‘Como se eu deixasse qualquer um passar. Isso não é uma faculdade. É um campo de concentração’, ele repetia enquanto socava violentamente o saco de areia. Olhou para a superfície desgastada do velho companheiro e, com um impulso maior, parou. Ofegante, crispou os lábios finos. Encarou, de semblante ligeiramente suado a destruição que havia feito no pobre couro revestido. Sorriu consigo mesmo. ‘Acho que relaxarei melhor com construções, não destruição’, ele admitiu.

ππππ

Jess encarava os olhos de Peter. Ele, sentado sobre sua cama de pernas cruzadas para dentro, pousava seu par de grandes olhos azuis sobre os intimidantes e brilhantes de sua namorada que, encorajada a vencer aquele jogo de intimidação, mal piscava. Já haviam perdido a conta de quantos minutos estavam daquela forma, imóveis um na frente do outro. Ele era bem paciente, na realidade. Aceitou se sentar ali por quanto tempo fosse necessário. Era atencioso com ela. Ela, em resposta, sentia-se cada vez mais amada. Já fazia um bom tempo que namoravam.
— Jess? –ele iniciou. — O aniversário do Johnny está chegando.
— Nós sabemos. –ela sorriu. — Natal. Que data sarcástica. Ele nasceu no dia do salvador e sequer acredita nele.
— Muitas coisas na vida daquele infeliz são sarcásticas. –torceu os lábios, divertindo-se.
— Como ele consegue? –ela sussurrou enfraquecida, tomada por uma angústia preocupante. Peter, percebendo sua mudança de humor, segurou suas pequeninas mãos entre as suas.
— Ele é um cara forte. –confirmou. — Já passou por muitas coisas na vida. E venceu todas. Bem... talvez. Ele nunca superou a morte da Ki.
— Você a conhecia, certo?
— Sim. Por isso afirmo seu luto. Qualquer um que a conheceu não superou. Mal posso imaginar a dor que ele ainda sente... –murmurou baixo.
— Pobrezinho. –Jess encurtou a respiração, relembrando-se daquele detalhe em especial. — Eu ainda não me acostumei com essa ideia de vocês terem sido...
— Ele. Eu só matei por defesa. –protestou imediatamente. — Estava ali para o laboratório. Era um simples peão. Ele, ao contrário...
— Um chefe. –ela sorriu bem pequeno. — Sempre fui encantada pelos mistérios que ele escondia.
— Eu lembro bem. –Peter se remexeu. — Sempre Johnny. Sempre ele.
— Você precisa admitir que ele é um cara bem... sexy.
— Ele é estranho. Mal humorado. Mal educado. Irritado. Egoísta, narcisista, sarcástico, perigosamente inteligente e assustadoramente real para se intrometer. Nunca se livrou daquelas espadas... nem das armas ou... como vocês, mulheres, podem achar isso sexy?
— Você já viu a barriga daquele homem?! –Jess elevou a voz, admirada. — É como... como uma zona de guerra melhorada pelo criador.
— Você não pode estar falando isso pra mim. Eu sou seu namorado!
— E o Johnny seu melhor amigo. –rebateu. — Tudo bem, me desculpe. Mas é um pouco irrelevante eu fingir que não o acho um homem muito, muito, muito interessante.
— Eu sei que ele é. –bufou o Peter, enciumado. — Podemos mudar de assunto?
— Não, não podemos. Temos que organizar uma festa de aniversário para ele. É Natal, poxa! Até a Charlie prometeu passar aqui...e você sabe que o Johnny se comporta bem quando ela está perto.
— Não se o Tom vier.
— É claro que ele virá. Eles têm um filho, que, por acaso, é afilhado do Johnny. Está vendo? Todos virão e será uma boa festa.
— Já ligou para Mikhail? –perguntou-lhe Peter. — Você não pode simplesmente dar uma festa sem chamar o filho do cara.
— Patrícia prometeu fazê-lo. Ela se dá bem com o garoto.
Peter mordeu os lábios rosados em resposta. Não sabia ao certo se a ideia mirabolante de Jess em dar uma festa ao amigo logo após a ceia de Natal era confortável. Uma vez conhecendo bem Johnny, tinha conhecimento de sua total aversão a festas, temendo, assim, que ele se irritasse com aquilo e acabasse tornando da boa ação um total pesadelo. Mas algo nos olhos curiosos e ligeiramente grandes da curiosa garota em sua frente dizia-lhe para confiar em suas disposições. Ele aprendera a confiar naquela mulher.

ππππ

No andar debaixo, Johnny tinha os olhos fixados na grande tela de led da nova TV comprada. 64 polegadas da mais aprazida sensação de apreciar a grande barba cinzenta de Gandalf em uma das muitas sessões ‘Middle Earth’ que o prédio fazia. Porém, naquele momento em especial, somente ele se encontrava na sala. Queria um instante de privacidade antes de juntar-se a todos no jantar. Patrícia ainda não liberara a mesa de seus trabalhos.
Patrícia. Essa garota em especial sabia bem como encará-lo. Nunca oscilava o olhar quando estavam prestes a travar uma luta histórica de argumentos. Ah, os argumentos. Ela nunca dera o braço a torcer com eles. De uma forma generalizada, Johnny sentia-se pouco à vontade ao seu lado. Tinha um receio muito grande magoá-la de alguma forma com suas palavras rudes. Sempre que sentia que iria decolar uma disputa articulada, ele fugia de sua companhia e esmurrava seu velho saco de areia. Era quase como um ritual. Contudo, nos poucos momentos de paz, eles tinham uma boa relação. Ela gostava de ratos, afinal. E ele, obviamente havia uma paciência maior com amantes de roedores.
Não que Johnny limitasse seus gostos a ratos e derivados. Patrícia era como um grande catálogo de coisas que ele apreciava. Era uma mulher forte, definitivamente. Independente. Tinha um espírito forte, tão forte que ele julgava poder derrubá-lo se o confrontasse com toda a sua vontade. Ele não se julgava forte espiritualmente. Dizia que sua força ficava limitada ao corpo e a mente, mas de forma alguma nos 22 gramas a mais que correspondiam-lhe a alma. Eis aí outra coisa que Johnny acreditava. Após estudar muitos artigos de médicos conceituados –e totalmente loucos, se assim pode-se dizer-, o russo acabara aceitando a hipótese que o tal espírito tinha 22 gramas, porque, inacreditavelmente, todo humano perdia exatamente essa quantia de peso ao morrer. Não podia ser simplesmente ar. Embora o oxigênio fosse relativamente mais pesado que o gás carbônico, a grande quantidade de CO2 que o corpo nutria ao perder a vida não chegava ao ponto excruciante de exatas 22 gramas para todos os cadáveres disponíveis para estudo. Isso era uma coisa para se discutir.
Patrícia gostava de cadáveres. E não se importava em nada em ouvi-lo discutir essas teorias no jantar, diante de pessoas que pediam-lhe discrição na hora sagrada do alimento. ‘Besteira! Tudo o que comemos é fruto do árduo trabalho de decomposição de fungos na natureza e, portanto, essa batata que hoje vocês comem já foi, algum dia, um cadáver. Bom apetite!’, ele dizia. E ela sempre sorria. ‘É, deixem de ser hipócritas!’, ela complementava, apoiando o amigo.
Ele pensava nisso tudo enquanto encarava cansado a tela gigante em sua frente. Ainda soava um pouco estranho em sua cabeça, ter amigos. Pessoas em quem podia confiar, conversar, azucrinar as cabeças com histórias e teorias, debater assuntos que quando adolescente pensava não ter ninguém mais no mundo para falar e, não menos importante, conviver. Ele sempre convivera em instalações secretas. Governamentais, talvez. Algumas. Johnny ainda guardava segredos. Muitos. Somente algumas pessoas, daquele círculo limitado de amizades sabiam bem o que se passava pela cabeça do russo. Peter. Hans. Charlie. Charlie, pobrezinha, descobrira tudo em um momento muito difícil. Estava prestes a ser atacada por um homem que, incansavelmente perseguia Johnny, tentando convencê-lo a voltar à sua vida anterior, a vida de missões, a vida de um soldado sem casa e sem companheiros, que o sugava a felicidade e ocultava suas frustrações por trás de uma máscara preta untada de vermelho, o sangue seco de quem atravessava seu caminho. Muito bem, agora você deve estar pensando ‘ O que diabos um nerd tem haver com um suposto assassino?’, e eu lhes respondo, caro leitor. Johnny não é um suposto assassino. Johnny era, é e sempre será um.
Não, essa não é uma história onde tudo pode acontecer. Na realidade, essa história é bem limitada. Johnny é um homem complexo, como Jess mesmo disse anteriormente. Você precisa saber que ele é, psiquiatricamente falando, um psicopata. Não, não é como o Dexter. Johnny não sente remorso pelo o que fez e nem mesmo sentirá algum dia, mas você precisa saber também que ele nunca o fez por vontade própria. Ele foi criado como tal. Sua cabeça nunca o pertenceu totalmente. Nem mesmo Johnny entendia a si próprio, às vezes. Ele se referia a si mesmo como ‘Um homem fodido, com pensamentos fodidos, uma vida fodida, sentimentos fodidos e ideias fodidas. E não há nenhuma pessoa fodida no mundo que queira ter em mãos o conhecimento de uma pessoa tão fodida como eu. Mas, às vezes, eu costumo foder’, e isso, realmente, soava como uma frase de respeito.
Jess morreria se o ouvisse falar ‘eu costumo foder’.
Johnny está aprendendo a ser si mesmo, agora. Era um antigo pedido de sua falecida ex-namorada, Ksenja, a quem ele dedicou e amou muito. E seguir em sua vida sem poder atender o último desejo de sua amada mulher era como falhar na missão mais importante já dada para ele. Entretanto, era uma missão difícil. Muito difícil. ‘Oh Sunshine, me desculpe por estar levando tanto tempo para fazê-lo’, ele sempre pedia antes de se deitar. Johnny desligou a TV abruptamente, entediado. Cruzou as pernas sobre o pequeno puff em sua frente, esticando o corpo sobre a poltrona de encosto reclinável com facilidade. Seus olhos muito verdes encararam o forro recém-pintado do cômodo, estreitando as pupilas como se fosse capaz de enxergar através do outro andar. Johnny estava frustrado, essa era a verdade. Os fantasmas de seu passado nunca o haviam deixado. Tentar contar essa história sem atingir um ponto sombrio será muito difícil. Portanto, deixarei que os próprios personagens a contem. Essa sou eu, me despedindo. Fiquem à vontade com os POV’s, pessoal. Aparecerei quando me for conveniente. Porque sim, eu tenho a mesma falta de valores quanto o meu querido russo entediado.


[Narradora Off]
 

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