NOC – Nerds
Obsessivos Compulsivos: Cordas.
Certas pessoas mantem dentro de
si uma questão interna que sempre as deixam com os neurônios cansados. O
sentimento de não-aceitação, acompanhado da familiar sensação de estar
deslocado e a frequente pressão de seus parentes as induzem a procurar em
outros lugares um aconchego para se chamar de lar. Livros, universos paralelos
de filmes, séries e jogos de RPG são as mais básicas entre uma tribo social
bastante conhecida nos dias de hoje: os nerds.
Sim, estamos mesmo falando deles.
Talvez você conheça algum. Tradicionalmente destacados em ambientes escolares
por suas inteligências acima do normal e seus hábitos muito excêntricos –ou por
seus gritos de socorro entre uma briga ou outra- essas pessoas, na realidade,
guardam infinitos mundos em suas cabeças. A criatividade os ajudam a sobreviver
quando os tempos se tornam difíceis. Embora aclamados por boa parte da família
que, naturalmente se orgulha de seu desempenho escolar, isso não os torna os
favoritos numa reunião no Natal. Na realidade, é assim em todo o lugar. Sempre
aplaudidos na escola quando são requisitados para algo –como, por exemplo,
servir de dicionário em uma prova- e rebatidos em quesitos comuns como fazer amizades.
O que os tornam pessoas torrencialmente fechados, assim acostumados a se
manterem em posição de defesa para tudo e para todos. A desconfiança é algo
enraizado em seu DNA.
Nerds não são humanos aos olhos
humanos. Eles não são humanos nem mesmo para seus próprios olhos. Talvez eles
não sejam mesmo.
Porque, definitivamente, a
história que devo contar não se trata de reles humanos rejeitados pela
sociedade. Nem mesmo eu sei se eles são descendentes do homo sapiens.
Prólogo
Os cachos avermelhados da
moradora da porta número nove do exímio prédio antigo que carinhosamente era
chamado de ‘NOC’ caíam sobre seus ombros em cascatas coloridas de um belo
emaranhado de fios bem colocados. Aparentemente o quarto 09 tinha predileção
por garotas ruivas, uma vez que sua ex-moradora era também uma boa menina de
cabelos enferrujados. Mas essa é outra história.
Inclinada sobre a velha mesa de
madeira ressecada da larga cozinha do primeiro andar, a moradora se contorcia
sobre o banco de forma que conseguisse encaixar perfeitamente o pedaço de
isopor delineado em um bom formato de parte de uma maquete. A ruiva, quieta em
atenção, montou a parte dianteira com uma calma quase inumana, mal parando para
respirar. Soltou um suspiro de alívio ao abandonar a casa parcialmente
completa.
— Agora só faltam... –contou
mentalmente, fitando a pilha de recortes que ainda aguardavam sua vez de fazer
parte da pequena construção. — mais centenas de malditas peças. –desanimou-se.
— E ainda me pergunta por que não
suporto vê-la trabalhar tanto, Patrícia. –disse uma voz rouca que passara no
corredor e decidira parar para observá-la se lamentar.
— Por que não me ajuda? –pediu
amigavelmente. — Dois fazem um trabalho mais rápido que um.
— Lógica matemática infeliz.
–resmungou o homem de cabelos cinza, arqueando momentaneamente as sobrancelhas
falhas para encarar o trabalho todo que ela pedira para ele compartilhar. — Definitivamente
não.
— Johnny! Por favor!
— Nós dois sabemos que se eu
tocar minhas mãos nesse seu... extremamente
e perigosamente delicado trabalho, ele se destruirá com a minha
impaciência. Virtudes, minha cara portuguesa. Virtudes. Paciência não é uma das
minhas.
— Vejo que não. –ela deu um
sorriso muito baixo, quase zombeteiro. — Afinal, você não é tão bom em
trabalhos que exigem cuidado, não é?
— Não me tente.
— Oh, desculpe. Não sabia que
estava sensível hoje. –ela ergueu as mãos em um ato meramente irônico. Johnny
levou as mãos ao rosto, frustrado. Queria pôr um fim naquilo. Em resposta, o
altivo homem virou-se de costas para a colega de moradia e sumiu entre os
muitos corredores do antigo prédio, arfando irritado. Ele acabara de sair do
quarto, onde pouco antes de ir à sala do quadro acrílico para buscar um DVD
esmurrava seu saco de areia predileto. Nas mãos um par de protetores de punho
de cor preta e superfície forrada de borracha e couro protegiam seus dedos dos
brutos tapas. A extensão do protetor se estendia até o limite de seu antebraço.
O problema era que, sendo
professor universitário de física, o estresse o pegava de qualquer maneira.
Apesar de amar aquela matéria em especial, odiava ter que lecioná-la para
centenas de alunos irresponsáveis que só ali estavam por ter uma pseudo
afinidade com a série The Big Bang Theory. De longe não eram nenhum Sheldon
Cooper. Só fingiam ser. E isso o irritava. Ensinar algo belo para muitos que
não mal entendiam a importância da matéria era como morrer um pouco a cada dia.
E de morrer, Johnny entendia bem.
Mas é evidente que o professor
irritado tinha planos para todos àqueles que não levassem a matéria a sério. Se
existia uma fama dele na faculdade em que trabalhava, era de ser uma rocha no
caminho dos alunos entre a universidade e o diploma. Para passar em seus
testes, eles teriam que dar seu sangue e suor, se preciso. E, obviamente, era.
‘Como se eu deixasse qualquer um
passar. Isso não é uma faculdade. É um campo de concentração’, ele repetia
enquanto socava violentamente o saco de areia. Olhou para a superfície
desgastada do velho companheiro e, com um impulso maior, parou. Ofegante,
crispou os lábios finos. Encarou, de semblante ligeiramente suado a destruição
que havia feito no pobre couro revestido. Sorriu consigo mesmo. ‘Acho que
relaxarei melhor com construções, não destruição’, ele admitiu.
ππππ
Jess encarava os olhos de Peter.
Ele, sentado sobre sua cama de pernas cruzadas para dentro, pousava seu par de
grandes olhos azuis sobre os intimidantes e brilhantes de sua namorada que,
encorajada a vencer aquele jogo de intimidação, mal piscava. Já haviam perdido
a conta de quantos minutos estavam daquela forma, imóveis um na frente do
outro. Ele era bem paciente, na realidade. Aceitou se sentar ali por quanto
tempo fosse necessário. Era atencioso com ela. Ela, em resposta, sentia-se cada
vez mais amada. Já fazia um bom tempo que namoravam.
— Jess? –ele iniciou. — O
aniversário do Johnny está chegando.
— Nós sabemos. –ela sorriu. —
Natal. Que data sarcástica. Ele nasceu no dia do salvador e sequer acredita
nele.
— Muitas coisas na vida daquele
infeliz são sarcásticas. –torceu os lábios, divertindo-se.
— Como ele consegue? –ela
sussurrou enfraquecida, tomada por uma angústia preocupante. Peter, percebendo
sua mudança de humor, segurou suas pequeninas mãos entre as suas.
— Ele é um cara forte.
–confirmou. — Já passou por muitas coisas na vida. E venceu todas. Bem...
talvez. Ele nunca superou a morte da Ki.
— Você a conhecia, certo?
— Sim. Por isso afirmo seu luto.
Qualquer um que a conheceu não superou. Mal posso imaginar a dor que ele ainda
sente... –murmurou baixo.
— Pobrezinho. –Jess encurtou a
respiração, relembrando-se daquele detalhe em especial. — Eu ainda não me
acostumei com essa ideia de vocês terem sido...
— Ele. Eu só matei por defesa.
–protestou imediatamente. — Estava ali para o laboratório. Era um simples peão.
Ele, ao contrário...
— Um chefe. –ela sorriu bem
pequeno. — Sempre fui encantada pelos mistérios que ele escondia.
— Eu lembro bem. –Peter se
remexeu. — Sempre Johnny. Sempre ele.
— Você precisa admitir que ele é
um cara bem... sexy.
— Ele é estranho. Mal humorado. Mal
educado. Irritado. Egoísta, narcisista, sarcástico, perigosamente inteligente e
assustadoramente real para se intrometer. Nunca se livrou daquelas espadas...
nem das armas ou... como vocês, mulheres,
podem achar isso sexy?
— Você já viu a barriga daquele
homem?! –Jess elevou a voz, admirada. — É como... como uma zona de guerra
melhorada pelo criador.
— Você não pode estar falando
isso pra mim. Eu sou seu namorado!
— E o Johnny seu melhor amigo.
–rebateu. — Tudo bem, me desculpe. Mas é um pouco irrelevante eu fingir que não
o acho um homem muito, muito, muito interessante.
— Eu sei que ele é. –bufou o
Peter, enciumado. — Podemos mudar de assunto?
— Não, não podemos. Temos que
organizar uma festa de aniversário para ele. É Natal, poxa! Até a Charlie
prometeu passar aqui...e você sabe que o Johnny se comporta bem quando ela está
perto.
— Não se o Tom vier.
— É claro que ele virá. Eles têm
um filho, que, por acaso, é afilhado do Johnny. Está vendo? Todos virão e será
uma boa festa.
— Já ligou para Mikhail?
–perguntou-lhe Peter. — Você não pode simplesmente dar uma festa sem chamar o
filho do cara.
— Patrícia prometeu fazê-lo. Ela
se dá bem com o garoto.
Peter mordeu os lábios rosados em
resposta. Não sabia ao certo se a ideia mirabolante de Jess em dar uma festa ao
amigo logo após a ceia de Natal era confortável. Uma vez conhecendo bem Johnny,
tinha conhecimento de sua total aversão a festas, temendo, assim, que ele se
irritasse com aquilo e acabasse tornando da boa ação um total pesadelo. Mas
algo nos olhos curiosos e ligeiramente grandes da curiosa garota em sua frente
dizia-lhe para confiar em suas disposições. Ele aprendera a confiar naquela
mulher.
ππππ
No andar debaixo, Johnny tinha os
olhos fixados na grande tela de led da nova TV comprada. 64 polegadas da mais
aprazida sensação de apreciar a grande barba cinzenta de Gandalf em uma das
muitas sessões ‘Middle Earth’ que o prédio fazia. Porém, naquele momento em
especial, somente ele se encontrava na sala. Queria um instante de privacidade
antes de juntar-se a todos no jantar. Patrícia ainda não liberara a mesa de
seus trabalhos.
Patrícia. Essa garota em especial
sabia bem como encará-lo. Nunca oscilava o olhar quando estavam prestes a
travar uma luta histórica de argumentos. Ah, os argumentos. Ela nunca dera o
braço a torcer com eles. De uma forma generalizada, Johnny sentia-se pouco à
vontade ao seu lado. Tinha um receio muito grande magoá-la de alguma forma com
suas palavras rudes. Sempre que sentia que iria decolar uma disputa articulada,
ele fugia de sua companhia e esmurrava seu velho saco de areia. Era quase como
um ritual. Contudo, nos poucos momentos de paz, eles tinham uma boa relação.
Ela gostava de ratos, afinal. E ele, obviamente havia uma paciência maior com
amantes de roedores.
Não que Johnny limitasse seus
gostos a ratos e derivados. Patrícia era como um grande catálogo de coisas que
ele apreciava. Era uma mulher forte, definitivamente. Independente. Tinha um
espírito forte, tão forte que ele julgava poder derrubá-lo se o confrontasse
com toda a sua vontade. Ele não se julgava forte espiritualmente. Dizia que sua
força ficava limitada ao corpo e a mente, mas de forma alguma nos 22 gramas a
mais que correspondiam-lhe a alma. Eis aí outra coisa que Johnny acreditava.
Após estudar muitos artigos de médicos conceituados –e totalmente loucos, se
assim pode-se dizer-, o russo acabara aceitando a hipótese que o tal espírito
tinha 22 gramas, porque, inacreditavelmente, todo humano perdia exatamente essa
quantia de peso ao morrer. Não podia ser simplesmente ar. Embora o oxigênio
fosse relativamente mais pesado que o gás carbônico, a grande quantidade de CO2
que o corpo nutria ao perder a vida não chegava ao ponto excruciante de exatas
22 gramas para todos os cadáveres disponíveis para estudo. Isso era uma coisa
para se discutir.
Patrícia gostava de cadáveres. E
não se importava em nada em ouvi-lo discutir essas teorias no jantar, diante de
pessoas que pediam-lhe discrição na hora sagrada do alimento. ‘Besteira! Tudo o
que comemos é fruto do árduo trabalho de decomposição de fungos na natureza e,
portanto, essa batata que hoje vocês comem já foi, algum dia, um cadáver. Bom
apetite!’, ele dizia. E ela sempre sorria. ‘É, deixem de ser hipócritas!’, ela
complementava, apoiando o amigo.
Ele pensava nisso tudo enquanto
encarava cansado a tela gigante em sua frente. Ainda soava um pouco estranho em
sua cabeça, ter amigos. Pessoas em quem podia confiar, conversar, azucrinar as
cabeças com histórias e teorias, debater assuntos que quando adolescente
pensava não ter ninguém mais no mundo para falar e, não menos importante,
conviver. Ele sempre convivera em instalações secretas. Governamentais, talvez.
Algumas. Johnny ainda guardava segredos. Muitos. Somente algumas pessoas,
daquele círculo limitado de amizades sabiam bem o que se passava pela cabeça do
russo. Peter. Hans. Charlie. Charlie, pobrezinha, descobrira tudo em um momento
muito difícil. Estava prestes a ser atacada por um homem que, incansavelmente
perseguia Johnny, tentando convencê-lo a voltar à sua vida anterior, a vida de
missões, a vida de um soldado sem casa e sem companheiros, que o sugava a
felicidade e ocultava suas frustrações por trás de uma máscara preta untada de
vermelho, o sangue seco de quem atravessava seu caminho. Muito bem, agora você
deve estar pensando ‘ O que diabos um nerd tem haver com um suposto
assassino?’, e eu lhes respondo, caro leitor. Johnny não é um suposto
assassino. Johnny era, é e sempre será um.
Não, essa não é uma história onde
tudo pode acontecer. Na realidade, essa história é bem limitada. Johnny é um
homem complexo, como Jess mesmo disse anteriormente. Você precisa saber que ele
é, psiquiatricamente falando, um psicopata. Não, não é como o Dexter. Johnny
não sente remorso pelo o que fez e nem mesmo sentirá algum dia, mas você
precisa saber também que ele nunca o fez por vontade própria. Ele foi criado
como tal. Sua cabeça nunca o pertenceu totalmente. Nem mesmo Johnny entendia a
si próprio, às vezes. Ele se referia a si mesmo como ‘Um homem fodido, com
pensamentos fodidos, uma vida fodida, sentimentos fodidos e ideias fodidas. E
não há nenhuma pessoa fodida no mundo que queira ter em mãos o conhecimento de
uma pessoa tão fodida como eu. Mas, às vezes, eu costumo foder’, e isso,
realmente, soava como uma frase de respeito.
Jess morreria se o ouvisse falar
‘eu costumo foder’.
Johnny está aprendendo a ser si
mesmo, agora. Era um antigo pedido de sua falecida ex-namorada, Ksenja, a quem
ele dedicou e amou muito. E seguir em sua vida sem poder atender o último
desejo de sua amada mulher era como falhar na missão mais importante já dada
para ele. Entretanto, era uma missão difícil. Muito difícil. ‘Oh Sunshine, me
desculpe por estar levando tanto tempo para fazê-lo’, ele sempre pedia antes de
se deitar. Johnny desligou a TV abruptamente, entediado. Cruzou as pernas sobre
o pequeno puff em sua frente, esticando o corpo sobre a poltrona de encosto
reclinável com facilidade. Seus olhos muito verdes encararam o forro
recém-pintado do cômodo, estreitando as pupilas como se fosse capaz de enxergar
através do outro andar. Johnny estava frustrado, essa era a verdade. Os
fantasmas de seu passado nunca o haviam deixado. Tentar contar essa história
sem atingir um ponto sombrio será muito difícil. Portanto, deixarei que os
próprios personagens a contem. Essa sou eu, me despedindo. Fiquem à vontade com
os POV’s, pessoal. Aparecerei quando me for conveniente. Porque sim, eu tenho a
mesma falta de valores quanto o meu querido russo entediado.
[Narradora Off]
