Este conto se passa um pouco antes do fim de Love I’ve Found In You. Porque é claro que teremos que interligar todos os acontecimentos.
As pequeninas pernas da
desinquieta Jess rodeavam os corredores do NOC com rapidez. Embora a pressa
fosse parte da rotina dos últimos dias, a pequena garota não se acostumara
muito com o pouco tempo que tinha para organizar tudo que lhe era para fazer.
Enquanto segurava enfeites de natal em uma grande caixa nos braços, lembrava-se
pois de como ela fora idiota em rejeitar a ajuda que Charlie a ofereceu. Agora
ela sentia o peso –literalmente- de seus eventos com a fidelidade de um duende
do banco Gringotes, do universo Harry Potter.
Se Johnny a visse naquele
momento, diria que não somente a pressa e a responsabilidade a assemelhavam com
os duendes, mas também a altura.
Logo em seguida ela se
arrependeria de tentar agradar o homem.
Respirando fundo com o nariz
vermelho após tanto espirrar ao desenterrar os enfeites natalinos do porão,
Jess pôs-se a subir as escadas de acesso ao piso superior do prédio, em direção
ao quarto 09. Quando lá aportou, chutou a porta levemente, pois suas mãos
estavam ocupadas demais para bater. Alguns segundos depois a estimada ruiva
portuguesa abriu-a, sorrindo bastante em vê-la. Não tardou a puxar a caixa
pesada de seus pequenos braços e ajuda-la a entrar no quarto. Juntas, Jess
fechou a porta novamente e começaram a cochichar.
— Bem, aqui estão os últimos
enfeites que consegui encontrar naquele porão. –a baixinha disse.
— São ótimos. Bem que tu me
disseste que seria uma ótima ornamentação. –Patrícia respondeu-a com carisma,
checando algumas bolas brilhantes que jaziam lá. — Agora só precisamos separar
os afazeres com os demais moradores e aprontarmos nossa festinha.
— Sabes de uma coisa? –Jess se
aproximou. Patrícia ergueu as sobrancelhas com curiosidade.
— Diga.
— Amanhã também é o aniversário
de Johnny.
Patrícia deixou a caixa cair
sobre os pés, solavancando um pequeno grunhido de dor. Apavorada, Jess
agachou-se e apanhou os itens derrubados, preocupada com o estado atual dos
objetos. Por ventura, Patrícia permaneceu a olhar para o além, preenchendo seu
rosto de um vermelho quase assustador.
— Por que sempre sou a última a
saber destas coisas, porra?! –rugiu, indignada. Jess se desajeitou, jogando a
caixa sobre a cama da ruiva.
— Desculpa-me, querida –iniciou,
limpando suas mãos suadas na saia de seu vestido. — Pensei que já soubesse. Somente
iria te relembrar.
— Eu moro aqui há um ano!
Passamos um natal na praia, todos juntos e nada fizeram para ele! –continuou a
gritar, dando de ombros a justificativa da colega. — Pois depois quando quero
matar a todos, venham-me com histórias para que eu me acalme! Um caralho!
— Johnny não gosta de festas de
aniversário! –Jess rebateu, temendo.
— Não me importa o que aquele
incrível babaca gosta! –devolveu, unindo as mãos a torcer os dedos. — Dê-me
licença. Irei até ele.
— A quem? –Jess correu até ela,
segurando seus braços. — Johnny? Não mesmo, não a deixarei enfrenta-lo sozinho.
— Então vais comigo –Patrícia
mordeu os lábios em raiva, puxando a pequena amiga rumo à porta. Jess não
demonstrou resistência, pois era diminuta demais para isto.
Aprontou-se num ímpeto orgulhoso
fazendo estalar o piso de madeira. Desceu as escadas em passos firmes a
atravessou a cozinha, logo em seguida a sala do quadro acrílico e, quando já
pouco cansada, adentrou o pequeno corredor entre os dois primeiros cômodos de
entrada. Jess, logo atrás, ofegava. A porta de cor escura lhe fez perder
ligeiramente a coragem.
Então as duas se deram conta que
todas as perguntas que pensaram em fazer quanto ao aniversário, diante da
porta, sumiram. Olharam para a madeira envelhecida da barreira com os cenhos
franzidos. Por quaisquer motivos e razões, aquilo as faziam sentir um pouco de
receio. Porque afinal, ali era o habitat inexplorado do russo mais temível de
todos os tempos.
Tudo bem, elas também pensavam
que o título dado a ele era um exagero. Mas para Patrícia, além de temível, ele
era simplesmente um homem muito bonito. Ela não sentia medo de seu mau feitio.
Sentia pavor de encará-lo e babar como uma idiota.
O que normalmente ela fazia
quando ele se juntava com os outros na sala do quadro acrílico.
— Tu bate. Eu falo.
— Eu bato. Tu falas. –Jess
repetiu. — Ótimo.
A pequenina mão da garota se
fechou em um punho, encostando-se à superfície sólida da barreira que as
separava do urso bêbado que habitava os pensamentos da portuguesa. Subitamente
Jess socou a porta loucamente, como se quisesse derrubá-la. Patrícia arregalou
os olhos, assustada com o impulso da amiga. Pensou em manda-la ser mais suave,
mas de repente a pequena fugiu em passos largos pelo corredor, deixando-a
sozinha ali.
Patrícia quis arrebatar seus
sapatos na mulher.
Quis também chutar a porta do
russo para derrubá-la de uma vez e fugir, também. Somente para irritá-lo. Arrumou
os cabelos cacheados para trás da orelha e ensaiou palavras rudes com a parede,
apontando o dedo como normalmente fazia o intimidar alguém. A porta envelhecida
tinha a aparência do russo: desgastada, antiga, desalinhada, dura e
irritantemente charmosa. Será possível
achar uma porta charmosa?, ela pensou, mas logo retornou ao que fazia.
Respirou fundo. Talvez os dias que passei
em sua companhia na boa casa em Brighton o faça pensar duas vezes antes de
empunhar algo cortante contra mim, ela voltou a pensar. Deu um passo à
frente. Suas mãos tremiam. Ou não, já que
ele percebeu que eu roubei suas alianças azuis. Merda. Estou fodida. Ela
levantou o punho sobre a porta, fazendo menção em batê-la. A coragem lhe faltou
novamente. Ou não. Ele teria feito algo
antes. Ele não é de esperar. Encostou os nós dos dedos na madeira, ainda
sem tocá-la. Retraiu a mão, novamente. Ou
é? Bem, ele é russo. Não se pode baixar a guarda com eles. Patrícia mordeu
o lábio inferior com ansiedade generalizada. Porra! Ele é só um homem. Eu posso lidar com isso. Eu não tenho medo de
homens! Ela fechou os olhos, ponderando a própria mente. Um homem terrivelmente sedutor.
Subitamente as dobradiças do
obstáculo diante da mulher rangeram e, em um pulo, ela solavancou seu susto ao
se deparar com a porta sendo aberta abruptamente pelo ilustre homem que tanto
analisava. Ele vestia uma camisa larga e preta, com uma estampa poderosa de
Darth Vader e seu sabre de luz. As calças moletom cinza balançavam em seus
tornozelos e seu cabelo, muito bagunçado, caíam sobre seu rosto de bochechas
marcadas. Os olhos verdes a encararam semicerrados.
— Tu por um acaso pensa que minha
porta é um saco de areia em uma aula de kickboxing? –sua voz rouca acentuou-se
sem cumprimenta-la.
— Eu? Jess que quis botá-la
abaixo.
— Não vejo a miniatura
extravagante por aqui. –seus olhos verdes abriram-se momentaneamente, rodando o
perímetro com exímia atenção. A portuguesa se perdeu na coloração chamativa do
colega de prédio automaticamente, como se aquele verde brilhante e misterioso
soubesse telepatia e entrasse em sua cabeça chamando-a para observá-lo.
Venha, Pati. Olhe para mim. Sou um belo verde, não achas?, ouviu
uma voz imaginária ao fundo de sua cabeça. Ela sacodiu a mesma, buscando se
livrar do delírio.
— Oh, foda-se isso tudo! –ela
gritou, agitando os braços. — Como pôde esconder que teu aniversário é dia 25?
— Para isso queriam quebrar minha
porta? –ele rebateu.
— Não queríamos!
— Vocês estavam a três minutos
olhando para a minha porta. –murmurou lentamente, induzindo-a a prender as
pernas no chão.
— Não se pode mais olhá-la?
–questionou, elevando a voz.
— Olhe o quanto quiser. Mas avise
antes que eu pense que você é sonâmbula e encontrou a razão dos seus sonhos nas
rachaduras do carvalho dessa madeira.
Patrícia ergueu o olhar para o
homem. Apesar de inclinado e de cabeça baixa, ele ainda era muito alto para se
discutir. Ele cheirava bem. Ela mal reparou quando aumentou a intensidade de
suas inspiradas, em busca da fragrância que exalava. Gardênias? Girassol? Alguma outra flor? Ou seria... grãos? Aveia?
Milho? O maldito homem tem cheiro de milho?
— Qual é o seu cheiro, russo?
–ela indagou repentinamente, causando o juntar das sobrancelhas do rapaz.
— Por quê? Te incomoda tanto
assim?
— Claro que não! Diga-me!
— Você muda de perguntas muito
rápido. Raciocínio quântico. –sibilou. Vendo que a garota não iria desistir,
Johnny prosseguiu: — Tenho quase certeza que se trata de lavanda mentalizada. E
eu ainda não sei como isso pode ser útil na sua vida.
— Oh, será. Será, mesmo...
–balbuciou distante, rindo baixo. Imaginando o cheiro com mais afinco, ela se
deu conta de que não lutara pelo motivo pelo qual estava ali, em pé, na frente
de seu quarto inexplorado. — Russo! Por que não me disse que teu aniversário
era no natal?! –retomou a gritar, ressuscitando o assunto.
— Novamente: como isso pode ser
útil na sua vida? –repetiu, cruzando os antebraços musculosos. Ela os encarou
involuntariamente. As veias contornavam a pele pálida como galhos em uma árvore
na primavera. Lhe parecia sexy.
— E como pode esse teu mau feitio
lhe ser útil na vida? –ela rebateu irritadiça, rangendo os dentes.
— Acredite ou não, ele me manteve
vivo todo esse tempo. –soprou. — Se eu prometer-te um contrato exclusivo em
relação ao meu aniversário, me deixará voltar a dormir em paz?
— Completamente.
— Pois amanhã comemorarei a merda
dos meus vinte e nove anos com todas as pessoas que desejarem me encher a
paciência. –iniciou. — Não prometo ser gentil. Mas prometo estar presente.
— Já é um ótimo começo. Por que
não fazes uma festa com todos do NOC?
— Da última vez que os reuni em
meu aniversário, tu me roubastes meu par de alianças. –disse sério. Patrícia
engasgou-se com a própria saliva.
— Sabes... disso?
— Portuguesa, eu sou um
ex-militar russo. Não é tão fácil esconder coisas de mim. –soltou.
A ruiva pôs-se a pensar em suas
palavras. Ela sabia por vozes que Johnny era um soldado de alguma parte do
exército russo anos atrás, mas sequer soube do restante da história. Sabia que
ele ainda guardava traumas deste tempo e que desde muito cedo fora criado em
instalações militares. Isso explicava bastante seu temperamento explosivo.
Porém muito, muito analítico. Ela pôs-se a se aquietar.
— Deixa-me te dizer... eu prometo
fazer algo simples para o teu aniversário.
É claro que Patrícia estava a
mentir.
Reencontrando com Jess minutos
depois, as duas planejaram os detalhes de tudo. Patrícia havia chamado Mikhail
para o Natal e acabou por sorrir sozinha quando percebeu que ele estaria
presente para o aniversário de seu ‘pai’. Era difícil acostumar-se com uma
criança a chamar Johnny de pai. Uma criança quase adolescente.
Por fim, as duas junto dos demais
moradores puseram-se a ocupar-se com a comida e as decorações. Peter, munido de
muita energia, foi ao mercado junto de Robbie e os nerds do andar debaixo, a
comprar alimentos. Beijou a namorada mal humorada e cansada e prometeu voltar
logo. Patrícia suspirou um pouco ao ver a cena. Enquanto o prédio era decorado
e os outros nerds já sabiam o gosto da design de interiores para a posição de
cada móvel e decoração, ela se trancou na cozinha para preparar alguns doces.
A pobre portuguesa já estava de
cabelos presos em um coque alto com diversos fios saltando-lhe para fora do
penteado quando às 17h30mim, um barulho ensurdecedor do motor de um automóvel
fez com que Patrícia jogasse ao ar um pão recém-assado. Assustada, ela xingou
mentalmente o dono do maldito carro e voltou à frente do fogão como se nada
tivesse acontecido. Pôs a outra fornada de pães no forno e fechou as
prateleiras do armário baixo. Novamente o motor rugiu. Ela bateu a cabeça nas
portas de cima do mesmo armário. Desta vez, com seu orgulho ferido, a
portuguesa chutou o móvel maldito e correu à porta do prédio, pronta para
atirar bons palavrões ao dono irresponsável do rugido irritante.
Ela gostava de carros, na
realidade. Mas o dia fora estressante e qualquer ruído além do alarme do forno
avisando-a que o alimento estava pronto já era motivo de irritação. Para sua
surpresa, encontrou a silhueta alta de Johnny parado junto a parede, de cabeça
posta para fora do prédio.
— Já viestes botar para correr o
carro? –aproximou-se ela dele.
— Estou prestes a por para correr
o dono dele. –Johnny murmurou pouco à vontade. Patrícia resolveu abaixar-se e
entrar debaixo do braço estendido do russo, colocando-se para olhar a rua
também. Johnny não recolheu o braço, que agora descansava sobre os ombros da
garota.
A ruiva se deparou com uma
Ferrari F12 Berlinetta estacionada despojadamente nas calçadas do NOC. O motor
estava apenas ligado, porém sem acelerar. O barulho, surpreendendo-a, era
bastante macio assim. Como o ronronar de um gato. Mal foram suas palavras
quando ela se abriu e revelou o motorista.
Puta merda. Que gostoso. Ela pensou consigo mesma.
Um tiro no centro da testa desse filho da puta seria tão bem vindo. Johnny,
por outro lado, imaginou.
O motorista se aproximou em
passos elegantes, pouco intimidado com a presença de Johnny. Patrícia arriscou
que eles eram bons conhecidos, pois não o russo ao seu lado já teria atacado-o
com a colher de pau que ela mesma segurava. O gostosão parou de frente a eles
dois.
Olhos azuis. Muito azuis. Ela
nunca tinha visto tamanha tonalidade de azul em toda a sua vida. Nem mesmo os
olhos de Peter, ou até mesmo os de Tom Hiddleston eram como aquele par singelo
de órbitas.
— Buon pomeriggio –sua voz soava
como um sussurro perigoso. Patrícia encolheu as mãos. — Come stai? –ela percebeu
que o homem falava italiano e se dirigia estritamente a ela.
— Bene... –ela gaguejou,
arriscando o que sabia.
— Russo –ele finalmente desgrudou
suas órbitas para Johnny, que observava a cena com a testa apertada.
— Vadia –ele devolveu. — Que
diabos faz aqui?
— Lembro-me bem que você
atrapalhou o meu natal ano passado. Desta vez atrapalharei o seu. –limitou-se,
entortando um sorriso. — Bela garota, Luchnik. Vou roubá-la de você por algumas
horas. –ele olhou-a atenciosamente, novamente. — Ciao, ragazza. Per favore,
ensina-me o caminho da tua cozinha? E acompanha-me nesse tempo, sim?
— Ciao, finoccio! Se quiser
perder os braços, continue. –Johnny interviu, empurrando Patrícia para trás. —
Cozinhar? No meu prédio? Você só pode achar que eu sou louco.
— Você, talvez. Eu? Com certeza.
Saia da frente, Sheldon Cooper russo.
Patrícia imaginou que os dois
sairiam aos tapas. Porém, quando menos esperou, o tal italiano segurou-a pelos
pulsos e levou-a para dentro do prédio rapidamente, desviando do toque de Johnny.
Ela o seguiu sem querer e sentiu como Jess se sentiu na manhã, quando
arrastou-a pelo NOC como um cachorro encoleirado. Ela não se importava em
seguir o homem desconhecido. Ele cheirava bem. Entraram na cozinha em seguida.
— Ha bisogno di aiuto? –ele perguntou,
parando em súbito. Ela sem querer afundou o rosto em suas costas. Sentiu o
rosto queimar com a aproximação.
— Eu não falo italiano! –resmungou,
afastando-se. Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— Cosa c'è che non vá?
— Whaaat?
— Estou a brincar. –ele riu baixo, fazendo-a
querer atingi-lo com um tapa. — Falo bem português, também. Estava a encher o
maldito Luchnik. Você me parece bem íntima dele. –ele disse simploriamente,
como se aquelas palavras nada mudassem o fato de Patrícia estar rosa em
vergonha.
— Íntima? –gaguejou. — Não!
— O quê? Ele quase a afundou na
parede quando me aproximei.
— Ele é possessivo com as coisas.
–justificou a garota.
— Meu pau. –resmungou. Ela se
engasgou. Ele percebeu. — Oh, desculpa-me. Às vezes esqueço que não estou com
alguém que conhece minha má língua. Piacere, meu nome é Jaime.
— Jaime? –ela indagou. — Oh. Bem.
Sou Patrícia.
— Eu sei. –ele se agachou diante
do fogão, espreitando os pães que ela botara para assar. — Nascida em Portugal.
Gosta de Star Wars. Cheiro aconchegante. Sorriso largo. Ótima de conversa. Gostosa.
— O quê?! –ela pulou, tanto
assustada quanto intimidada. ‘Gostosa? Ele
é louco?’
— É o que Luchnik diz. Relatório prévio
sobre seu perfil. Ele não está tão enganado, afinal. Bem, Patrícia Viegas
Caetano, se assim mesmo é teu nome, precisas de ajuda na cozinha?
Patrícia teve que se conter para
não fazer alguma besteira. Diante das palavras do enigmático Jaime, ela somente
pôs a sorrir nervosamente.
— Você sabe cozinhar? –questionou.
— Darei meu relatório a você:
nasci em Roma, Itália. Sou um informante da Interpol, fui parceiro do teu
querido russo algumas vezes, CEO de uma editora, doutor em História e louco. Literalmente.
Eu tenho um atestado do governo.
Ela achou tudo aquilo bem
interessante e quis tê-lo como amigo. Porque simplesmente Patrícia adorava
pessoas estranhas e ainda mais aquele que se dizia louco. Só podia ser louco
para ser parceiro de Johnny.
— Bem, confiarei em ti. Mostra-me
teus dons culinários.
— Mostrarei. Aviso que se meu
humor mudar e eu retornar a ser um homem mais antipático que Luchnik, não fique
surpresa. São minhas personalidades. Posso variar de psicótico a sorridente em
questão de segundos.
Ele parecia falar sério.
Patrícia correu o risco. Afinal,
sua vida nunca mais fora a mesma depois de morar no NOC.
— Os efeitos estão errados,
Ronnie! –Peter gritou, estressado. Era estranho vê-lo daquele jeito. — Coloque
mais tingimento nesta fonte!
— Oras, somos químicos! –rebateu Ronnie.
— As experiências precisam dar errado algumas vezes.
— Sim, somos químicos. Cinco malditos
anos na faculdade para aprender a misturar amido de milho com água e fazer com
que crianças idiotas afundem a maldita colher na solução!
— Não grite comigo! Tu que quis
montar essa fonte de amido!
— Pois! –Peter tomou a caixa de
amido de suas mãos. — Ajude Charlie no globo elétrico que está a montar na
sala!
— Aquela mulher não gosta que
ninguém se aproxime do maldito globo! –Ronnie tomou a caixa de volta.
— Ajude Patrícia com a comida –Peter
pegou-a de novo.
— Há um homem estranho com ela
lá. –disse.
Peter passou a mão pelo rosto e
suspirou.
‘Belo natal’, ele pensou. ‘Maldito
aniversário’.
— Onde está Johnny? –Peter gritou,
quase chorando.
— Trancado no quarto!
Johnny se sentou em frente à
janela com uma caixa gigante em mãos. Ainda de pijamas, o russo prendeu o
cabelo longo num rabo-de-cavalo e esperou que a noite caísse no céu. Era pouco
mais de 18h00min quando ele decidiu voltar a dormir. Antes disso, escondeu a
caixa debaixo da cama.
‘Se ela achar isso uma idiotice, concordarei’, resmungou enquanto
tirava a camisa e jogava-se no colchão. Encarou o teto.
Que belos olhos ele tinha.
Às 21h30min do mesmo dia, Peter
teve a brilhante ideia de acordar o russo com uma música não muito comum para a
ocasião. Com a ajuda dos demais moradores, conectaram todas as caixas de som do
andar e puseram a tocar a maldita canção como um coro.
And I sing, hey, yeah, yeah-eah
Hey, yeah, yeah
I said, hey! What's
goin' on?
And I sing, hey, yeah,
yeah-eah
Hey, yeah, yeah
I said, hey! What's
going on?
— O que
querem?! Derrubar os muros de Jericó?! –o russo, que muito depois de
pensar, surgiu à porta de seu quarto empunhando em mãos uma espada samurai
detalhadamente. Detalhes esses que diante da tensão atual serão esquecidos rapidamente
pelos rostos assustados dos moradores do prédio. Peter, por ventura, riu. — Eu
juro em nome de Odin que irei desligar o maldito som e pegar minha arma e
enfiar no rabo de cada um por cada estalo que meus tímpanos deram agora a
pouco! Em quem doerá mais? Digam-me!
— Feliz aniversário, Elsa! –Peter
gritou, arrebatando um ovo à distância. Johnny, embora sonolento, agarrou o ovo
ao ar e jogou de volta, acertando-lhe com força no rosto.
— Talvez eu comece por você,
filhote de Wendigo –rosnou. — Não é dia 25 ainda!
— É véspera de natal! Acorde, Valentina
Tereshkova! –Jaime surgiu da cozinha com Patrícia, que ria intensamente. Johnny
não gostou do que viu.
— Vá se foder! –reclamou.
— Mais tarde foderei, tenha
certeza. Com a bela companhia de minha mulher. –respondeu sobriamente, retirando
o avental que Patrícia o cedera. — Vou buscá-la agora, falando nisto. Volto em
poucos minutos, russo –caminhou até ele, encarando divertidamente a espada. —
Sentirei saudades.
— Valentina Tereshkova foi um
elogio, digo já. –Johnny murmurou entredentes. — E vá se ferrar.
Cinco minutos depois, como Johnny
mesmo havia dito, ele saiu de sua toca escura que orgulhosamente chamava de
quarto. Trajado com uma camisa azul escura e jeans, balançando as pernas junto
às botas de cano longo e cabelo penteado –por fim!- o homem se apresentou na
sala do NOC.
Jaime saiu de sorriso largo,
gracejando. Por outro lado, os moradores ali reunidos somente encararam o russo
como se ele fosse um maldito louco armado. O que realmente ele era. Johnny
percebeu que estava apenas de calças e sem camisa. Só percebeu quando viu Patrícia
corou. Ele se trancou no quarto novamente.
— Saio em cinco minutos! –gritou ele,
fugindo.
Patrícia não o viu. Estava no
banheiro a se trocar.
Muitos moradores estavam em seus
respectivos quartos se trocando. Apenas Charlie e seu pequeno filho sentavam-se
no puff roxo do russo, que também orgulhosamente chamava de seu canto especial
da sala acrílica. A morena levantou-se em súbito, correndo para abraçá-lo.
Johnny aceitou de bom grado e apertou a pequena como um urso de pelúcia de
curvas suntuosas.
— Hamish escolheu teu presente.
Thomas irá trazê-lo. –ela sussurrou.
— Ele vai se suicidar? –motejou.
— Comporte-se uma vez na vida,
Nik. –bateu em seu braço. — Diga-me... tudo está pronto para Patrícia?
— O que quer dizer com isso?
— Sei o que está preparando. Você
a olha como Han Solo olha para a Milenium Falcon! –exclamou. O pequeno bebê
sorriu. Johnny semicerrou os olhos para o afilhado.
— Vocês estão confraternizando mágoas
comigo. Não estou a fazer nada.
— Acredito. Bem, diga-me também
quem és o homem maravilhosamente esculpido que saiu daqui?
— Esqueça-o! –Johnny rugiu,
tomando de seu colo o pequeno Hamish. — Todas vocês encaram o maldito italiano
como se fosse um pedaço de carne.
— Ele é. –Charlie insistiu. — Teu
amigo?
— Mais para inimigo. Ele cozinhou
a ceia com Patrícia. Longa história –desdenhou. — Garoto, tu estas crescendo
demais. –disse ao Hamish. — Por favor, não se pareça mais com seu pai.
O menino sorriu novamente,
encolhendo a cabeça nos ombros do homem. Charlie acenou e tentou pegar o filho
de volta, mas a criança insistiu em ficar com o padrinho. Quando estava prestes
a lutar pela guarda do filho, a mulher entreabriu a boca e olhou por cima dos
ombros de Johnny a saiu correndo na direção oposta. Johnny virou-se
tardiamente, mas pôde ver Patrícia surgir à porta com um sorriso estampado no
rosto.
Holy Putin, ele solavancou mentalmente.
A portuguesa vestia uma camisa
preta quase igual a do próprio russo, porém os dizeres ‘Star Wars’ estavam
estampados sobre seu peito. Ele sentiu um nó se formar em seu estômago quando
reparou que seus cabelos ruivos cacheados estavam caídos sobre os ombros e seu
sorriso largo lotava as bochechas coradas da moça. Hamish entendeu o que se
passava com o padrinho e tornou a sorrir. Ele era uma criança bastante
sorridente.
— Boa noite, Johnny –ela disse,
adentrando. Ele balançou a cabeça, ainda fixado nos dizeres de sua saga
preferida no blusão.
Patrícia no entanto sentiu que ele
olhava seus peitos.
— Hamish, querido, vamos
encontrar seu pai. –Charlie interviu, tomando o filho sem pedir. Sorriu
travessamente para os dois e caminhou até a porta. — A minha parte do presente
ficou no porta-malas do Jaguar. Já trago.
— Que presente? –Patrícia
indagou.
— Segredo de estado, Pati.
Divirtam-se.
Patrícia e Johnny se
entreolharam. Sempre que faziam aquilo, conectar as íris um do outro, sentiam
que poderiam sobreviver pelo resto da eternidade sem divergência alguma. Não
era algo romântico, porém. Johnny achava que poderia encontrar um mundo inteiro
quando dava sua atenção ao par de olhos abertos e límpidos da mulher, tanto que
não fazia questão de mostrar-se sóbrio quando o fazia. Seus verdes olhos
cobriam o da portuguesa com uma quase fome de saber. Saber o que ela escondia
por trás daquele sorriso absurdamente gostoso de se ver.
Ela por um acaso pensava em como
a vida era pequena quando entendeu que eles dois foram postos para se
conhecerem. Pois ele era improvável e talvez sua companhia e até morar junto
dele era algo como uma prenda simpática do destino. Aquele homem tinha um
significado especial. E novamente estava ela a babar por ele. Quando percebeu,
tossiu.
— Vamos jantar? –Johnny murmurou,
estendendo o braço a ela. Patrícia piscou seguidamente, encarando sua mão
grande com precaução.
— Sim, vamos. Jaime e eu tivemos
muito trabalho para deixarmos que somente os brutamontes comam tudo. –ela disse
a sorrir, encostando seus dedos nos dele. Prendeu a respiração quando Johnny,
surpreendendo-a, levou sua mão até os lábios finos e avermelhados e beijou-a
delicadamente. O cabelo longo do homem caiu sobre sua testa. Patrícia se
contorceu.
— É um costume russo beijar as
mãos das damas. Espero que não se importe. Normalmente não exerço esse costume.
O mau feitio me impede. –justificou de boca colada em sua mão, olhando-a
profundamente. Ele não sabia que aquilo era sexy.
— N... não. Ótimo! –Patrícia
tossiu, puxando-o para perto em um impulso inexplicável. Ele sem querer
encostou seu corpo no dela, de forma que quase se abraçaram. Em um rápido
movimento ele retomou a compostura, desculpando-se pela falta de decoro. — Eu
que te puxei. Desculpa.
— Vamos jantar. –Johnny entortou
os lábios, envolvendo seu braço ao redor de seus ombros.
Todos do NOC se reuniram no
corredor, onde Patrícia ornamentou que posicionassem a grande mesa de madeira
para que todos tivessem um lugar para se sentar. A mesa estava recheada de
comida; pães assados, vinho, cerveja, coca-cola, bolos, tortas, pratos
salgados, sorvete, peru, peixes, carnes e todos os tipos de pratos vegetarianos
possíveis para se preparar numa tarde. Os pratos italianos que o desconhecido
sedutor preparara estavam sendo servidos quando o mesmo anunciou-se à porta
junto da mulher. Usando uma jaqueta de couro e uma camisa de algodão branco por
baixo, ele parecia-se muito despojado. O russo com sua presença apenas
arregaçou as mangas da camisa, libertando seus braços largos para comer.
— Deixem-me dizer que o espaguete
está ótimo. Patrícia adicionou um ingrediente próprio em minha receita. –ele
disse.
— Ou seja, ela salvou o natal de
vocês. –a bela mulher que o acompanhava troçou, fazendo-o apertar o cenho em
censura. — Oh, seu narcisismo afeta os outros.
— Amélia –ele sussurrou. — Eu
cozinhei. Sério.
— Aposto que passou a tarde toda
com as vadias. –ela rolou os olhos, tomando um lugar ao lado do russo, que
acolheu bem. — Boa noite, pessoal. Vejo
que Jaime já intrometeu-se aqui com vocês então estou pegando a intimidade. Não
se importem, sou brasileira. Chegamos desse modo em todos os lugares.
— Sabemos. Charlie se comporta
como uma sanguessuga. Fique à vontade. –Robbie sorriu derretido, encantado com
a nova garota.
— Obrigada. –Amélia respondeu. —
Vai ficar de pé, querido? –questionou a Jaime. Ele, em resposta, sentou-se ao
lado de Jess e ofereceu-a um sorriso torto.
Oh, sim, brigas de casais.
E em falar em casais, minutos
depois Thomas e Charlie trouxeram os presentes dos moradores e também a secreta
prenda que comentara com o russo. Quando Patrícia tentou enxergar o que ela
havia trazido, Charlie ameaçou-a com uma torta contra o rosto. Amélia pôs-se a
rir e esqueceu-se de indagar o que Thomas fazia ali. A garota já estava bêbada.
Jaime, por outro lado, não. Houve
alguns gritos da parte de ambos. Muita história veio à tona. Deixaremos isso em
segundo plano. O que realmente importa é o seguimento do jantar.
Quando Johnny conseguiu acalmar
os dois homens, deixou-os em cantos opostos na sala. Charlie e Amélia, pelo
contrário, tornaram-se boas colegas. Charlie soube que a mulher tinha um filho
com o italiano e logo trataram de conversar sobre filhos amistosamente. Os
demais moradores do NOC cantaram em um karaokê a mesma música que despertou o
russo e em resposta, Luchnik xingou-os de todos os palavrões possíveis em vinte
línguas diferentes.
É óbvio que houve mais briga e
todos lutaram como vikings bêbados.
À meia-noite, quando o dia 25
chegou, deixaram as desavenças para trás e parabenizaram o russo. Patrícia
trouxe um bolo gigantesco com uma bandeira russa desenhada com doces
minúsculos. Ao invés de champanhe, brindaram com vodka e isso fez com que
Johnny se sentisse bem pela primeira vez em muito tempo.
Ele procurou esperar até que a
movimentação no NOC se dissipasse para correr atrás da portuguesa e agradecer
pelo esforço tido para agradá-lo. Mas todos pareciam querer cumprimenta-la pela
boa festa, tão que o russo esperou e esperou por toda a noite até que ela se
sentasse ao lado de seu puff roxo, exausta e com chocolate quente em mãos. Uma
música lenta ecoava pelo prédio, embalando a dança embriagada dos nerds.
Somente ela e o russo estavam ali, sentados na sala acrílica. Ele, afundado no
puff. Ela balançava as pernas ao ar.
— Obrigado. –sussurrou ele. Ela
piscou.
— Oh. Deixa-te de merdas. Foi um prazer.
–ela gargalhou. Estava pouco corada pela bebida. — Espere um pouco... Hoje é
natal –a portuguesa iniciou, deixando de lado sua caneca de chocolate quente
sobre a pequena mesa de centro que Charlie insistira em trazer para a ceia. O
russo, por outro lado, balançou a cabeça levemente.
— Percebi. –disse em mau humor.
Patrícia sorriu divertida por sua carranca eternamente desgostosa e
levantou-se.
Ela lhe estendeu a mão, olhando-o
com ambas as íris brilhando em entusiasmo. As órbitas verdes do homem, porém,
pairaram na imagem de sua pequena mão estirada como se uma análise detalhada
não fosse o suficiente para fazê-lo apertar seu cumprimento.
— O que planeja? –ele perguntou,
sussurrando.
— Dar-lhe sua prenda de Natal,
oras –ela disse como se nada temesse, até mesmo entortou seu sorriso aberto.
Johnny desviou sua atenção para sua boca larga, perdendo um pouco de seus
pensamentos nos dentes alinhados da mulher. ‘Droga, eu quero sorrir quando ela sorri. Instigante’, ele pensou
contra a vontade.
Por fim, ele cobriu seus longos
dedos ao redor da palma quente da ruiva. Ele se arqueou de seu querido puff
roxo e pôs-se de pé, fazendo-a se perder em sua pequena estatura ao lado dele.
O rosto de Patrícia estava à altura de sua clavícula. Ela sempre odiara e amara
ser tão minúscula próxima de Johnny. Gostava de relembrar-se disso sempre.
A garota inclinou-se rumo à
árvore de natal onde anteriormente Johnny se escondera para assustar os
moradores. Emparelhado ao tronco, apanhou uma pequena caixa de presente de cores
variadas e um grande laço colorido, entregando-o com um olhar debochado. Ele
entendeu que ela brincara com a embalagem infantil. Ele tentou rebater, mas
deixou-se suspirar em resposta. Gostava de sua ousadia.
Enfim, ele abriu.
Seus olhos verdes talvez tiveram
pouco tempo para assimilar o que ela lhe presenteara. Uma delicada peça azul,
como uma miniatura perfeitamente montada de uma pequena casinha em madeira. Era
exatamente como a maquete que eles se desafiaram a construir para passar os
dias em que ela estivera resfriada. Quando ninguém mais estava no prédio do
NOC. Ele riu.
— Tu és uma pecinha difícil de se encontrar atualmente, pois –Johnny
prendeu a língua, arriscando seu português pouco exercitado. Patrícia
revirou-se internamente, ouvindo a deliciosa sensação de ouvir sua língua pela
boca travessa do russo. O sotaque a fez se sentir agradecida por ter tanto
trabalho ao construir tão minúscula casa. Ela iria falar algo em resposta, mas
ele pousou seus dedos sobre seus lábios e pediu silêncio. — Muito obrigado. Tenho que dizer que também
preparei algo para ti. Espere um segundo. –ele continuou em português,
puxando charmosamente o ‘r’ e o ‘s’ como um nativo, mas sem deixar seu rústico
russo de lado.
Patrícia torceu as mãos em
surpresa. ‘Ele tem algo para mim??’ , gritou
mentalmente.
Quando Johnny retornou, tinha em
mãos uma gigantesca caixa de madeira decorada com pequenos desenhos verticais,
como linhas elegantes perpendiculares. O acabamento era em tinta dourada e os
dizeres ‘Patrícia V. Caetano’, em preto detalhavam a superfície superior. Ela
se queixou um pouco pelo tamanho e a elegância, mas lembrou-se que ele era
rico. E que por mais que ela pedisse para não preparar-lhe aquilo, ele
prepararia por sua teimosia. Ela aceitou.
— Não precisavas disto. –ela
disse.
— Não me dê ordens. Apenas
abra-a.
Ela sorriu um pouco receosa, mas
pôs por pousar suas mãos para abri-la. A tampa suscitou um ruído de travas
interiores e com um puxão, ela se abriu, revelando departamentos e prateleiras
iluminadas com luzes minúsculas de LED em seu interior. Por Odin, era
extremamente luxuoso.
— Tire o plástico de proteção.
Tua prenda está dentro.
Patrícia arregalou os olhos,
porém prendeu os lábios nos dentes e puxou o maldito plástico de uma vez.
— Puta que pariu! –gritou,
entusiasmada.
Na primeira prateleira um
exemplar de ‘Os Lusíadas’ em impressão original tomava lugar. Ela apanhou-o e
então havia uma página marcada com uma fita vermelha.
— Leia. –Johnny pediu.
"Tu só, tu, puro Amor, com
força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano".
— “Os Lusíadas” -
Episódio de Inês de Castro (Canto III, estrofes 118 a 135)
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| Achei uma representação de Pati e Johnny! Ahahahahaha! |
Ela levou as mãos à boca,
sentindo os olhos despejarem então algumas gotas de lágrima. Não sabia a razão
de chorar no momento, mas tinha certeza que jamais alguém a descrevera um poema
de Luís de Camões com tanta sutileza. Quanto ao sangue retratado, ela sorriu.
Sorriu porque sabia que aquele trecho, por mais sombrio que parecesse ser,
tratava-se da sublime personalidade de Johnny.
E se ele aras banhar em sangue
humano, ela sabia que aquilo era algo importante a dizê-la.
— Russo... –ela sorriu, encarando
a caixa com mais animação.
— Espero que anote para ti o
significado do trecho. Continue a explorar tua caixa. Terás detalhes do resto
da noite cá aí.
Ela descansou o livro sobre a
mesa de centro e embora com bochechas úmidas de choro, explorou-a com destreza.
Da segunda prateleira conseguiu enxergar um par de sapatos de patins de gelo,
com grossas lâminas debaixo de suas solas. Um casaco de espessura e detalhes
pequeninos em azul, o qual ela percebeu ser pequenas TARDIS de Doctor Who
também tomava lugar ali. Ela encarou-os com os olhos trêmulos em curiosidade, e
o russo apenas acenou divertido.
— Vista o casaco. Segurarei os
patins para ti. –ele apanhou-os, segurando junto de si. — Olhe a terceira
prateleira.
Ela o fez. E quando o fez, gritou
em felicidade.
Um capacete de motocicleta de
adesivos de caveiras enfeitava a última prateleira da gigantesca caixa. Suas
iniciais pintadas em dourado, ao contrário da decoração, fizeram com que a
portuguesa atirasse-se sobre o russo com afinco e abraçasse-o mais forte do que
podia. Respirou seu cheiro de lavanda mentalizada e notou que não se tratava
daquilo. Ele mentia ao dizer seu cheiro. E ela sabia que seu cheiro era melhor
do que qualquer outra coisa explicável. Suspirou fundo.
— Obrigada, obrigada! –ela
repetiu, apertando-lhe. Ele soltou o ar pelo nariz, abraçando-a também. Era a
primeira vez que iam tão longe.
— Não agradeça ainda. A surpresa
maior há de vir. Todas as prendas têm um significado.
Johnny levantou-se do puff com
Patrícia em seu colo, fazendo-a exclamar um ruído de susto. Sem escutá-la, o
russo sorriu pela primeira vez em todo o dia e levou-a de pernas ao redor de
sua cintura pelo NOC, surpreendendo os moradores com a cena. Patrícia sentiu o
rosto avermelhar-se em timidez, mas o seu querido companheiro parecia
desfilá-la como um prêmio divertido aos demais colegas. Jaime e Amélia que ali
estavam, gritaram frases de malícia enquanto Thomas e Charlie ao lado, acenavam
para que logo se beijassem. Patrícia escondeu seu rosto na curva do pescoço de
Johnny. E se sentiu mais envergonhada com isso.
Ela percebeu que ele a carregava
com facilidade, como se seu corpo fosse como um pequeno gato qualquer. Ele era
forte, pois. E abraçá-lo para não cair era a parte mais vergonhosa de tudo. Nik
era muito alto, também. Se ela por um acaso soltasse-se, iria cair ao chão e
machucar seu joelho que há pouco tempo estava a doer. A saída era segurar-lhe
com força, mesmo.
Como se também não o incomodasse,
Johnny levava o capacete de Patrícia e os sapatos de gelo em uma das mãos.
Saíram do prédio e caíram na nevasca de Londres, enfrentando o frio que ali
fazia. Patrícia encolheu-se no casaco. Johnny se sentiu em casa com o frio. Ele
por fim colocou-a no chão. Ela puxou a blusa que havia arqueado ligeiramente
instantaneamente, embaraçada.
— Tu és doido! –disse ela.
— Vamos lá, comemore meu
aniversário comigo! –ele exclamou. — Suba em minha moto. Coloque já este
capacete.
— Odin! –Patrícia retrucou. —
Onde está ela?!
— Coloque o capacete e me siga. Tenho
que mostrar-te algo. –ele piscou-lhe o olho direito. Ela sentiu o estômago
dançar tango.
— Vamos, russo medíocre! Termine
o que tens que fazer! –Charlie gritou da janela do quarto 09, ecoando sua voz
para toda a rua. Hiddleston encostou-se ao seu lado, tampando-lhe a boca com as
mãos. Ela se debateu, afastando seu toque. — Não me atrapalhe, inglês maldito!
Vamos, Johnny Grigory Luchnik! Acabe com isso!
— Charlie, cale a boca! –Johnny
fez um gesto com os dedos, olhando-a friamente. Patrícia não entendia o que
estava ocorrendo. — Thomas, vá comer sua mulher! Tire-a daqui!
— À vontade, maldito. Só tenho
que dizer que a próxima a gritar será a Amélia. –alertou, rindo bastante.
— Mande o italiano amarrá-la na
árvore de natal, porra! Ou amarre você mesmo. Costumava fazer isso antes, não?
–provocou-o. Charlie socou o ombro de Tom com força. Johnny riu em escárnio.
Por fim, entre brigas e tapas, o casal retirou-se da janela e deixou com que o
silêncio e a privacidade retornasse aos dois que conversavam na calçada.
O russo direcionou seus olhos
para Patrícia que, em reflexo, engoliu em seco, mas manteve-se altiva. Ele
suspirou.
— É talvez a coisa mais íntima
que já mostrei a alguém. –continuou, voltando à puxá-la pela rua desértica. Ela
o seguiu pelo percurso da avenida pouco iluminada, enfrentando a neve que caía
torrencialmente. Patrícia meteu suas mãos nos bolsos do casaco, encarando a
camisa de algodão que Johnny vestia com furor. ‘Ele não sente frio?’, pensou.
— O que é? –ela perguntou.
— Meu passado.
Aquilo soou estranhamente
dramático. Eles seguiram ao norte da rua, onde um velho galpão tomava o
restante do quarteirão. Como se nada quisesse, Luchnik guiou Patrícia pela
escuridão, experiente em andejar em locais como aquele. Desviando de
obstáculos, ele destravou o alarme de sua Ducati 1199 Panigale S Senna. Um nome
bem esquisito para uma moto. Ele trespassou suas pernas pelo contorno do veículo
e subiu, ligando-o. Os faróis acenderam e a portuguesa teve um ímpeto de
conhecer o motor de perto.
A Ducati assemelhava-se a algo
grandioso. As grandes rodas largas e tintura cinzenta metalizada, banco alto e desenho
futurista agradaram cada mínimo gosto da ruiva. E com razão.
— Suba! –Johnny mandou-a.
Por mais que se sentisse estática
com tantas surpresas de uma só vez, ela o obedeceu. Respirou fundo e abraçou a
cintura do homem, pois era o único lugar seguro. Ele nada fez, apenas fechou o
capacete. Ela fez o mesmo. Em uma única retirada, ele acelerou. Ela sentiu o
corpo pender para trás junto ao ar que cortou-os, porém a sensação era tão
libertadora e agraciada que de sua boca apenas ecoaram risos afoitos e gritos
de animação. O russo sorriu com a alegria da ruiva e apertou o punho no
acelerador. 200km/h era o ponto máximo que conseguiam na cidade.
O vento gélido a fez abraçar-lhe
mais forte. Os flashes de Londres pela velocidade anormal da Ducati junto ao
barulho de seu motor entorpeceram os sentidos da portuguesa como se lhe
injetassem alguma droga líquida. Odin, a sensação era muito boa.
Quando ela acostumara-se com o
modo ágil e agressivo dele dirigir, estacionaram.
E então, recobrando a sanidade
após a alta velocidade, seus olhos se depararam com a gigantesca pista de gelo
que tomava o quarteirão rumo ao grande jardim central. E ela só pôde segurar o
braço do homem de tão paralisada que se encontrava.
— Seus patins, por favor. –Johnny
divertiu-se, colocando os capacetes no banco da Ducati. O cabelo dele estava
arqueado com o vento, mas aquilo dava-lhe uma aparência jovial e rock’n roll o
bastante para agarrá-lo.
— Para isto? Juras?
— Prometi te mostrar meu passado.
–ele falou. — Eu patinava quando criança. Era muito bom nisso. –estendeu-lhe a
mão. — Vamos?
— Odin... eu não sei fazer isso. –ela
temeu.
— Portuguesa, tu irá entrar neste
inferno comigo mesmo que eu a carregue nos ombros. –ele ameaçou, abaixando-se
diante dela. — Levante os pés, vou pôr seus sapatos.
— Levante daí! Estão a nos
observar!
— Foda-se isso! Ei, babacas! Olhe
como estou ajoelhado diante dessa bela garota! Ela não é linda?! Olhe este
sorriso! Apaixonante! E eu sequer sei o que é admirar-se por estas coisas! –ele
gritou com sua voz rouca poderosa, fazendo-a aquecer o rosto em vergonha e
constrangimento.
Patrícia colocou as mãos no
rosto, desejando sumir. Enquanto buscava
esconder-se, e enquanto tentava, o russo trocou seu par de all-star pelos
patins de gelo sem ela mesma perceber. Quando finalizou, bateu amistosamente na
perna da garota.
— Vamos lá. O pior já passou. –ele
incentivou.
Ela ponderou sobre o quão insano era
estar com ele, por mais que apenas alguns minutos tivessem se passado. E quando
se deu conta, percebeu que ele já a levava para o centro da grande pista de
patinação. Patrícia descreveu aquele momento como ‘flutuar nas nuvens com o
homem mais improvável do mundo’. Seus olhos se submeteram à paisagem linda do
inverno inglês, das grandiosas árvores decoradas com pequenas luzes natalinas,
com as sequenciais quedas que as crianças levavam ao redor do parque e, com
gentileza, viu alguns casais velhinhos andejarem nas calçadas. Quando Johnny
entrelaçou suas mãos nas dela, ela pensou ter um infarto. Somente notou que ele
a segurava para que não caísse no gelo quando percebeu que realmente adentrou a
pista, deslizando a lâmina do desconfortável sapato.
E como ele patinava bem. Johnny
era gracioso e elegante ao desviar das demais pessoas; segurava-a com força e
firmeza, sem deixá-la perder o equilíbrio. Quando Patrícia tomava seu próprio ritmo,
ele retirou uma das mãos e apenas com a esquerda segurando sua direita, rumou
com ela em seu enlaço. Ele gargalhou quando ela gritou para que ele a
esperasse. Johnny, porém, rodopiou um salto extravagante que fez com que os desconhecidos
parassem para observá-lo. De pernas duras, Patrícia lamentou. Luchnik desgrudou-se
dela por um segundo e quando ela menos esperou, sentiu suas duas mãos gigantes
agarrarem-na pela cintura, por trás.
— Guiarei você. –ele sussurrou. Ela
prendeu a respiração.
Juntos, eles desbravaram toda a pista
com sutileza. Ele a guiava, realmente. Como Jack e Rose, em Titanic. Ele atrás,
ela à frente. Em certo momento Patrícia abriu os braços para sentir o vento
enquanto ele, logo em seguida, desvencilhava-a dos obstáculos. Os dedos do
homens poderiam segurá-la para sempre.
Ele se sentiu a liberdade pela
primeira vez. E ao patinar, ouviu o rugir de seu espírito russo ao fundo de sua
cabeça.
Patrícia gargalhava nervosa e
animada o tempo todo.
Por fim, só então aí, que Johnny
contornou o corpo da ruiva e pôs-se diante dela. E ela pôde ver seu rosto
límpido, pálido e sorridente. O sorriso dele queimava como o fogo de mil
dragões. Os lábios dele pediam para falar algo. E ele o fez.
— O natal na Rússia é atrasado 13
dias. Seguimos o calendário juliano. –ele iniciou. — Então não, eu não nasci no
dia do salvador dos crentes.
Ela sorriu, pois o homem sempre
tinha vários assuntos a dizer.
— Nos séculos 16 e 17, os czares
visitavam asilos e prisões a distribuírem dinheiro aos carentes. Mendigos e
necessitados vagavam por Moscou e se juntavam em grupos, pois sabiam que à
meia-noite, o czar passaria pelas ruas espalhando moedas. Chamamos isso de ‘Sotchelnik’
–ele murmurou em russo, fazendo-a se arrepiar. — Então voltamos para casa,
comemos kutja, um prato principal do nosso natal. Sei que tu não é adepta a
carne, pois então posso sugerir que coma-o. É feito com grãos e mel, frutas
secas e nozes.
— Está me convidando?
— Para o meu natal, no dia 7 de
janeiro. –ele completou. — Vamos bailar como czares. Distribuindo dinheiro aos
necessitados. É isso o que eu faço com os meus ganhos anuais.
Patrícia riu-se como uma criança
orgulhosa. O coração do homem era bom, afinal. Disso ela sempre soube. Questionou-se
sobre a razão dele estar sendo tão atencioso com ela, subitamente. Johnny
sempre atribuía-lhe ciúmes e possessão com os outros, mas aquilo... aquilo era
simplesmente, romance. Ela teve que se segurar. Talvez estivesse enganada. Afinal,
eles eram amigos. Amigos faziam aquilo, sempre. Talvez de forma mais simples.
Mas nada era simples com Johnny.
— O que queres de mim, russo? –ela
soprou. Ele mordeu os lábios.
— Eu não sou bom com palavras,
Patrícia Viegas Caetano. A não ser quando praguejo alguém.
— Disso eu sei.
— Mostrei-te com gestos o que eu
prendia por esse tempo. Podes me entender?
— O quê? –ela tremulou.
— Gosto de ti. De um modo... não
convencional.
— O que seria isto? –ela riu
nervosa.
Johnny piscou os olhos verdes
como um felino à caça. O vapor de suas respirações embaçava dramaticamente o
cenário daquela noite em especial. Do rosto vermelho da portuguesa ao pálido do
russo, muitos pensamentos se dissipavam. Do cheiro desconhecido de Johnny, ela
nada podia pensar. Apenas que... era bom estar ali.
Johnny Grigory Luchnik repensou
diversas vezes o que falar. Mas realmente ele não era bom com palavras.
Como dizer que apesar de toda a
frieza e comportamento psicótico, ele sabia reconhecer que gostava de alguém?
Ele sequer sabia diferenciar amor de amizade. Sequer sabia sentir amor, na
realidade.
O amor é algo para burros, ele
sempre dizia.
E ele quis se sentir burro, ali. Somente
naquele instante. E com esse pensamento, Johnny segurou o rosto de Patrícia.
Com esse pensamento, ele
aproximou-se.
Com o mesmo pensamento, ele a beijou.
Intensamente.








