segunda-feira, 24 de abril de 2017

Despacito

Despacito



Charlie utilizara de sua incrível capacidade de convencimento e nos arrastara para uma feira latina americana no subúrbio de Londres, em uma área muito parecida com os arredores de Camden Town. Eu não soube como me portar diante da súbita noite de diversão no fim de semana, uma vez que era tradição do NOC sentarmos diante da gigantesca TV da sala acrílica e assistirmos uma maratona de filmes aleatórios no sábado e o aguardado episódio semanal de Game of Thrones no domingo.
As confusões começaram antes mesmo de partirmos em direção ao local. Jess e Peter lotaram a pequena van que nos transportava à faculdade com tamanha rapidez que, ao aportar na calçada, recebi um olhar de compadecimento e um longo pedido de desculpas.
Desculpe, Pati, todos os lugares estão cheios. -Jess pediu. Franzi o cenho.
Eu acho que posso caber entre vocês dois. -apontei.
Ah, você não vai querer isso. -Peter devolveu, a apontar para o interior do prédio. – O russo vai sozinho, como sempre. Vá com ele.
E então, percebi que aquela súbita invasão de veículos era proposital. Queriam que eu fosse junto ao estranho de cabelo cinza.
Quem armou isto? -perguntei, curiosa.
Sra. Hiddleston. -Jess piscou o olho esquerdo com cumplicidade e eu só pude pôr as mãos na cintura para soprar um longo suspiro de derrota.
Charlie e sua impulsiva necessidade de unir casais.
E quanto ao italiano e a Amy? -questionei.
O banco de trás da Ferrari é tão pequeno e apertado. Vá no Aston Martin com o Johnny. -havia um vestígio de obrigação naquela voz pacífica de Peter.
Certo. Cruzes! -ergui as mãos ao céu, a caminhar de volta ao prédio. Tudo o que pude ouvir do lado externo fora a partida dos carros, a abandonar-me no maldito edifício com um russo de humor improvável.
Procurei-o através dos corredores, mas sem chamá-lo. Ele odiava isso. Era uma de suas peculiaridades: jamais atendia quando o chamávamos. Gostava de desafios e um deles era encontrá-lo.
Para a infelicidade de meu controle emocional, deparei-me com o vulto de sua silhueta altiva no segundo andar, a caminhar em direção à escadaria principal enquanto vestia uma camisa preta.
Ah, cacete! Ele precisa mesmo mostrar esse corpo demoníaco?!
Meus olhos trespassaram por seus braços fortes e dobrados sobre a cabeça, a enfiá-los pela vestimenta e assisti-a cair em seu tronco tonificado e pálido como um maldito papel. Disse a mim mesma para não decair em tentação e retomar à noite em que aparente inconsciência, ele dera-me um beijo caloroso na pista de patinação em gelo. Mas, como uma boa libertina, não pude parar de imaginar no todo comprimento de seu corpo alto. O que ele escondia por trás daquelas roupas escuras e tão sóbrias. Ele era a porra de um príncipe das trevas com tendências a elegância singular. O que me remetia à seu visual matinal, o qual usava para dar aulas em Oxford. Oxford!
Eu vou acabar a dar um derrame ao vê-lo dessa forma sempre.
A deixaram? -sua voz rouca pegou-me de surpresa. Engoli em seco.
Charlie mandou-me ir contigo. -expliquei.
Charlie manda em algo? -seu timbre sarcástico voltara com força total.
Bem, ela armou isso. Ela é quase genial. -brinquei.
Para física. Ler pessoas não é o forte daquela garota. -ele sacudiu as chaves no dedo indicador, e pareceu-me tão tentador que cheguei a indagar-me o que tinha de sensual em chaves. Talvez eu estivesse louca. – Espero que não se importe de passar um pouco de tempo comigo. Meu humor não é dos melhores. Mas é óbvio que você já sabe.
Eu iria para o inferno somente para babar em teu rosto, cara.
Não vejo problemas. Digo-te também que a minha personalidade tende a ser ácida e provocativa. Não importa-te, eu imagino. -aticei.
Segue. -indicou rumo à saída e o segui, fielmente.
Há duas coisas prazerosas em seguir aquele homem estonteante.
1- Ele é cheiroso como um inferno, e quando caminha, seu perfume tende a esvoaçar-se para trás. Em minha direção.
2- Aquela bunda deve ser aplaudida. Por mim.
Gostas da cultura latina e brasileira? -perguntei-o aleatoriamente, para suprir o silêncio sepulcral que nos envolvera.
Enfaticamente quente e irritantemente animado. -limitou-se. – Uma garrafa de vodka na neve estaria de bom grado para mim. Cerveja e dança, não.
Sorri com sua reclamação.
Isto é um esteriótipo. Como o mundo enxerga os latinos. Eles podem ser diferentes e nós estaríamos a ser preconceituosos com pré-definições. -argumentei.
Os únicos loucos que procuraram desentendimento com a cultura latina até agora foram os norte-americanos. Sou asiático e tu és europeia.
Asiático? Tu é tão europeu quanto eu. -rebati.
Nasci em uma cidade russa que faz parte do continente asiático, próximo à fronteira para o Japão. -informou-me com passividade, a fazer-me notar um vestígio de gracejo em sua voz.
Rússia. Sempre tão maldita e grande que toma dois continentes.
Mother Russia. -pronunciou em sotaque pesado, em um sussurro de zomba.
Seu Aston Martin estava curiosamente estacionado na outra esquina do prédio, numa área escura que podia muito bem servir de ponto de drogas ilícitas ou um ponto de encontro da máfia local. Havia algo inexplicável em Johnny, que induzia-me a sentir estranhamente segura ao seu lado, mesmo nos piores locais. Algo dizia-me que ninguém tentaria algo contra ele. E ao contrário do poder escancarado que o italiano repassava com sua postura rígida, a sobriedade e mistério de Luchnik era como um manto de proteção que, se desafiado, atacava.
Devo estar-me a envolver com criminosos e sequer sei. Sempre em problemáticas, Pati. Sempre em problemáticas. Droga.
Surpreendi-me e assustei-me com sua predisposição em abrir a porta para mim, com tamanha naturalidade que ergui as sobrancelhas para fitá-lo. Ele não aparentava ser cavalheiro.
Obrigada. -sacudi a cabeça.
Coisas estranhas acontecem.
Sua presença ao meu lado despertou um lado quase desesperador de minha personalidade. Não era de meu feitio grunhir de excitação por qualquer homem e aquele em especial estava a destruir minha insanidade aos poucos. Isso me instigava. Porra.
Arrependo-me todos os dias em ter conhecido aquela brasileira maluca. -resmungou, a acionar uma playlist de viking metal. Fechei os olhos em susto com o volume do som, a ocultar um riso em minha garganta.
Seus ataques de mau humor eram humorados, na realidade.
Ela não é tão má.
E depois o caralho do Mussolini sem bigode.
Ele não é um fascista. É bem mais para comunista… tal como tu. -provoquei, a virar-me para seu rosto.
Sabe pelo quê a Itália e os italianos são conhecidos? Sua enorme e falta de coragem. São uns merdinhas. Quando há guerra, traem mais que esposas de velhos ricos.
Céus. -gargalhei. – O que ele te fez?
Me arrastou para problemas.





P.S.: Ouvir essa música de agora em diante. 


O bendito russo tinha razão quanto ao calor e as danças. Logo ao estacionarmos diante da feira, fomos ambos recebidos com um grito em conjunto de Charlie, Amy e outras pessoas desconhecidas que rodeavam as ruas vazias com animação quase invejável. Fui agarrada por Amy e um enorme copo de cerveja gelada, o que me causou um súbito bom humor. Enquanto bebia, remexi os quadris junto à ela rumo ao grupo de casais aleatórios que uniam-se a bailar. Apesar da música espanhola, pude entender que o cantor estava a falar sobre alguém ter roubado seu coração. Involuntariamente minhas pupilas focaram no desajeitado russo antisocial que cruzava as ruas e se sentava numa mesa qualquer, distante da agitação.
Já o dobrou? -Amy gritou em meu ouvido.
O que?!
Johnny! Já conseguiu… -fez um movimento sugestivo, a fazer-me rir.
Ele é indobrável, querida.
Ah, não. Duvido. Ele só é um poço de pessimismo. Quando encontrar prazer na vida, vai saber se divertir um pouco.
Ao olhar para seu olhar de reprovação para o lugar dançante, as palavras de minha amiga pareciam distantes e impossíveis. E, em curiosidade, aquilo não me incomodava. Atraía-me sua disfunção quanto às pessoas. Seu amor por privacidade e a distância para socializar.
Ele é muito mais gostoso assim. -admiti.
Amy correu a atenção sobre o russo, a entortar os lábios vermelhos em gracejo quase libidinoso.
Ele é gostoso. Irritantemente gostoso. E a julgar pela altura, o pau…
Por favor, não me faça imaginar.
Querida, estou a te fazer um favor. Imagine. -bateu em meu ombro.
Charlie, que andejava bêbada como uma raposa inquieta, pulou entre nós com um copo de uma bebida roxa com fragrância de uva, a mover seus braços como um boneco de ar. Incentivei-a a continuar, irrompendo minha gargalhada ao alto.
Dei uma garrafa disso aqui para ele. -disse, a apontar para o belo rapaz de cabelo cinza. Visualizei Hiddleston entregá-lo uma garrafa, o qual foi recebida de bom grado. – Russos não dispensam bebida. Agradeça-me em alguns minutos.
Ah, céus. O que destes a ele?! -questionei.
Isso se chama Catuaba. Também conhecida como a bebida da felicidade e do sexo no Brasil. -riu consigo mesma, ébria e entusiasmada. Segurei-a pela cintura.
Tu, Charlie, é a porra da mulher mais louca que conheço. Não bastava ter-me feito vir com ele no automóvel?
Não.
Se quiserem ir além… diga-me que te arranjo preservativos. -Amy sussurrou entre nós, em sua habitual feição repleta de pecados. – E um quarto.
Vocês são insanas.
De nada. -falaram em uníssono.
Deixei-me para preocupar com os efeitos da bebida roxa depois, uma vez que sabia-me bem que ele tinha uma capacidade não humana de suportar grandes doses de álcool sem sequer perceber. Deu-me tempo o suficiente para dançar durante horas, até o ápice do suor escorrer por minha testa e pingar em meu decote, a transformar-me numa espécie estranha de latina por breves momentos. Charlie dava-me possibilidade para isso. Ela quebrava o padrão bronzeado e caramelado que latinos costumavam ter. E isso era um esteriótipo maldito. Amy, ao contrário, esvoaçava seus cachos tão parecidos com os meus, remexia as pernas e o traseiro em coreografias sensuais, mas não vulgares. Era o tipo de sensualidade que era atrativamente visual. Senti uma ligeira inveja do olhar atento de seu marido sobre ela, o qual sequer piscava. Parecia desejá-la mesmo à distância. Ao seu lado, a roubar minha fixação, Johnny virava o último gole da garrafa e empurrava com os dedos o cabelo para trás, a retirar de sua face ligeiramente corada. Talvez já fosse efeito do álcool que eu havia ingerido, talvez fosse apenas a monotonia de minha vida sexual ou até mesmo a excitação da atmosfera latina, mas quando dei-me por mim, rumei em passos longos até sua figura sentada. Encarei sua face rúbea, suas longas pernas esticadas e os lábios pequenos tão beijáveis que eu gostaria de beijar novamente.
Dança comigo. -atirei-lhe a mão, a pedi-lo.
Suas íris absolutamente verdes encararam-me com suposta rigidez.
Não sei dançar. -foi rude.
Dançastes comigo no gelo. -rebati.
Patinei. É uma ação oposta.
Todos estão bêbados demais para perceber se tu sabes ou não dançar, merda. -reclamei, a enlaçar minha mão em torno de seu pulso. Sua pele era macia e cálida, tão diferente de sua personalidade. Meus dedos, que sempre julgava médios, tornaram-se pequeninos ao lado dos seus. Uma timidez rápida vagou por meu corpo, porém, permaneci firme e forte. – Por favor!
Assisti-o soltar o ar pelo nariz em forma de desdém, contudo, quando estava prestes a desistir da ideia, seu par de sobrancelhas quase inexistentes ergueram-se em contra resposta. Era o maldito olhar inquisitivo. Aquele que somente em fitá-la é capaz de arrancar sua sanidade com facilidade absurda.
Ya me cansé de tu tornillo suelto, cerca de ti estoy en desventaja. -pronunciou roucamente, num espanhol delicioso que cercara sua voz com volúpia arrepiante. Tão focada em seu timbre grave que sequer tentara entender o significado de sua frase.
Ele não me concedeu tempo o suficiente, mesmo.
Johnny guiou-me à uma parte inteiramente solitária do espaço de dança, com exceção de algumas mesas onde repousavam as bebidas e comidas tradicionais. E como se já soubesse, a acústica do som tinha poderio ainda melhor naquele ângulo singular. Há alguns metros, por trás das pilastras do portão principal da feira, permaneciam em conjunto os demais em diversão. Uma salva de gritos estridentes nos atingiu, dando-me a impressão que alguém colocara uma música realmente boa para tocar. Foi questão de tempo para que o eco límpido nos rodeasse. Com ritmo tropical e quente, o instrumental iniciara e em quase imediata ação, senti uma das mãos do russo alcançarem minhas costas e a outra, quase incerta, levitou meu braço em postura de dança.
Ele não está fazendo isso…
Seu pé trespassou o meu, a inclinar meu corpo quase ao chão. Nossos narizes se tocaram em ato perigoso e pude sentir o aroma adocicado da bebida em seu hálito. Rapidamente, então, puxou-me de volta.

Sí, sabes que ya llevo un rato mirándote
Tengo que bailar contigo hoy
Vi que tu mirada ya estaba llamándome
Muéstrame el camino que yo voy
Tú, tú eres el imán y yo soy el metal
Me voy acercando y voy armando el plan
Solo con pensarlo se acelera el pulso

Os dedos firmes cruzaram minha cintura com quase malícia, a obrigar-me a mover junto a ele, em coreografia ritmada e ligeiramente semelhante à uma luta oriental. Ele movia-se com facilidade, maestria e uma dominação quase erótica. Pisquei sequencialmente, a procurar minha localização naquele turbilhão inédito de sensações.
Despacito
Quiero respirar tu cuello despacito
Deja que te diga cosas al oído
Para que te acuerdes si no estás conmigo
Despacito
Quiero desnudarte a besos despacito
Firmo en las paredes de tu laberinto
Y hacer de tu cuerpo todo un manuscrito

Agarrei-me em seu pescoço, rindo comigo mesma. Ele, nitidamente sério como de costume, apenas torceu os lábios em evidente satisfação com minha surpresa. Com a pouca sanidade que me restava, percebi que ele reproduzia em nossa coreografia tudo o que a letra da canção cantava. Em outro inclinar, recebi o arrastar de sua boca em meu pescoço úmido de suor, a dar-me beijos rápidos e lentos.
Si te pido un beso, ven dámelo
Yo sé que estás pensándolo
Llevo tiempo intentándolo
Mami, esto es dando y dándolo

Ele lia a minha mente, isso era evidente. E assustador. E excitante.
Em um giro quase completo, minhas costas deram-se em choque contra seu peito, a solidificar a diferença entre nossas alturas. Respirei profundamente, a buscar o fôlego que perdera. Seus passos eram ironicamente idênticos ao de Amy, com uma singela diferença no rebolado. Johnny não rebolava. Era elegante, ríspido e sedutor como um dançarino de tango. Porém, a maneira que me movia… obrigava-me a remexer cada parte de meu corpo. Sem querer.
Ao término da canção, ouvi-o respirar próximo a meu ouvido. Permanecemos paralisados, em silêncio. A brisa gélida da noite tocou-me as pernas desnudas, a retirar-me do vão mental.
Você não sabia dançar. -ralhei.
Imitei sua amiga brasileira e tentei lidar como se tudo isso fosse uma luta. Kung fu é bem semelhante. -distanciou-se, a fazer-me grunhir internamente.
Beija-me de novo! Imploro!
O que queres de mim? -arfei, dificultosamente.
Ele franziu o cenho em conturbação.
Foi você quem me arrastou até aqui. -observou, a fazer-me concordar com seu argumento. Aparentemente minha cabeça não funcionava com ele por perto.
Certo. -tossi propositalmente.
Senti-o se aproximar novamente, depositando então um beijo em minha testa.
Não quero ser um completo idiota contigo, por isso tento diverti-la um pouco, às vezes. Mas não creio que isso seja algo bom. Alguém como você não deveria se aproximar de alguém como eu. -sibilou entredentes, em timbre sussurrado como um segredo a ser contado. – Eu sou completamente fodido, portuguesa. E, portanto, não quero magoá-la com isso.
Você sequer sabe se também não sou fodida como tu.
Um sorriso irrompeu sua boca.
Você é como um nascer do sol e eu sou como uma chuva ácida. Esses são os níveis entre nós dois.
Sabes que disso nasce um arco-íris, não sabe? -interroguei.
Uma probabilidade escassa.
Droga, se não quer nada comigo, não me iluda. -cruzei os braços em irritação.
Não posso fazer isso, porque não sei o que quero. Eu entendo muitas coisas, mas a minha cabeça não é uma delas. -defendeu-se. – E o que você quer comigo, afinal?
Não faço a mínima ideia do que eu quero, só sei que quero agora.
Estou na mesma que você.

Ótimo. Dois fodidos. 





Feliz aniversário, Pati <3

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Filosofia literária nos levam a Pokemóns




Algumas mulheres trajadas provocativamente formaram um cerco ao redor do russo que, abstido na extravagantemente grande tela de smartphone, sequer notou. Ele tentou afastá-las com um aceno grosseiro de mão, mas as garotas pareciam querer entender sua atitude.
— Vocês podem sair do meu caminho? –rugiu ele, encarando-as, então.
— Querido, você está em um espaço reservado para encontros casuais e sexo. –uma delas deu uma risadinha, gesticulando de forma que o alto homem notasse onde estava a ir.
— Eu sei onde estou. –ele respondeu.
— Então... o que deseja? –a mesma interrogou.
— De vocês? Nada. –ignorou-as.
Elas pareceram levar um balde de água fria.
— Então o que está fazendo aqui?! –perguntaram-lhe, inquietas.
— HÁ A DROGA DE UM POKEMÓN NO ESTANDE DE VOCÊS! SAIAM DA MINHA FRENTE!
Irritado, Johnny empurrou-as para os lados e seguiu o rastro da câmera de seu aparelho eletrônico, arfando em impaciência.
Você deve estar se perguntando ‘O que diabos estou lendo?’ ou então ‘Bem, eu sei que lembro que parei de ler no beijo entre o russo e a portuguesa! Que diabo é isso?’. E suas dúvidas serão saciadas, querida.
Johnny, muito preocupado com o destino que os beijos e esforços íntimos da noite passada, decidiu carregar Patrícia até o quarto 09 após vê-la a dormir no sofá e, antes mesmo que fechasse a porta, um certo italiano o parou no corredor.
— Noite longa, hein? –provocou-lhe, a encostar-se na parede.
— Não sei do que está a falar –o russo checou o relógio e franziu a testa. — De acordo com a matemática, a noite passada teve a mesma duração que qualquer outra noite.
— Isso é um modo de fuga que os psiquiatras chamam de ‘sou um bebê babão e não sei arcar com as consequências de ter beijado Patrícia diversas vezes em meu sofá de couro velho e provavelmente também não sei lidar com o fato de que esse foi o meu primeiro beijo em cinco anos e que também há a possibilidade da ruiva nunca mais falar comigo, porque eu sou um grande idiota e não sei agir com as mulheres, mas tudo bem, eu posso me esconder por trás dessa máscara de sangue frio russo e me prender no quarto da mesma forma que Stalin faria se ainda estivéssemos em guerra’ mas claro, quem sou eu para repreendê-lo com isso... –o italiano falava diretamente, com calma impassível. Ciente de seu próprio sarcasmo a alto nível, ele encarou a porta de madeira do ex-quarto de Charlie e suspirou. — Qual é, cara, se eu fosse você, estaria lá dentro, agora.
— Talvez sua voz e companhia seja mais apreciada no quarto de cima, com sua bela esposa que certamente seria sexualmente mais satisfeita se continuasse com o inglesinho mela-cueca. –Johnny rebateu, abrupto como sempre. Seus olhos verdes faiscaram irritação. O italiano, no entanto, apenas apertou suas íris azuis por trás das pálpebras e soltou-lhe um sorriso torto cafajeste.
— Está a começar a aprender falar como homem. Ótimo.
Johnny crispou os punhos.
— O que inferno você quer, Martini?! –rugiu entredentes, a forçar sua voz não sair como um rosnado alto suficiente para despertar a ruiva do outro lado.
— O comunismo. –brincou ele, a olhar para a parede com humor. — Mas, para hoje, dou-me por satisfeito se tu me acompanhares a um clube.
— A julgar tua personalidade, o clube é horrível.
— A tirar as mulheres nuas e o assédio sexual, é suportável.
— Cacete. Tu não pensas em nada além de sexo, cretino?
— Em comunismo. Mas como eu disse, não por hoje.
Luchnik segurou sua ira como faria se pudesse segurar o pescoço do homem em sua frente. Ele o asfixiaria lentamente, cravando suas unhas em suas artérias e assistiria seu rosto se transformar em uma bola inchada de cor roxa. Seus olhos se tornaram vermelhos por conta do sangue.
E, só então depois de toda a tortura, ele o quebraria o pescoço com uma torcida tão forte que os ossos de suas vértebras sairiam para fora da pele.
O pensamento fez o russo respirar melhor.
— Não quero estar no prédio quando Patrícia acordar, mesmo.
E assim, ele aceitou.
Veja bem, Johnny é reconhecido mundialmente por sua coragem irresponsável. Se queres que ele pule de um avião, ele o faz. Se queres que ele invada a casa de um milionário com apenas uma espada em mãos, ele também o fará e talvez a rir. Mas lidar com pessoas, mulheres, não era o seu forte. A bebida o tornava mais volátil para romantismo e a vodca incendiava partes de seu corpo que ele sequer sabia que tinha, mas o que o fez agarrar a ruiva na outra noite não era fora isso.
Bebida alguma o faria perder o controle.
Mas Patrícia, talvez.
Era esse pensamento que o assustava todas as vezes que fechava seus belos e extremamente verdes olhos. Perder o controle. Por uma mulher.
Merda, isso acontecera com Charlie no maldito ano em que a mesma se mudara para o prédio. E, para seu total desprezo, a outra ruiva se envolvera com Hiddleston antes mesmo que ele pudesse perceber o quão afetado ele se tornara por ela.
Ruivas. Sempre ruivas. Se contabilizassem todos os interesses femininos que o jovem Luchnik tivera em toda a sua vida, essa seria a lista, em ordem cronológica.
1— Velma, de Scooby-Doo
2— Hermione Granger, de Harry Potter
3— Yggrite, de Game of Thrones
4— Donna, do seriado Suits
5— Kimmy, de Unbreakable Kimmy Schmidt
6— Wisty, da trilogia Bruxos e Bruxas
7— Amy Pond, de Doctor Who
8— Charlie, a maldita do quarto 09
9— Patrícia, a outra maldita do quarto 09 que não existia para ele até uma maldita viagem na qual ela o ajudara a cuidar de sua empresa em Singapura e agora a maldita não saía de sua fodida mente.
A contabilizar as não-ruivas:
1— Ksenja, a maldita que fora assassinada e quebrara o coração do russo
2— Jaimie Alexander, a badass do seriado Blindspot (ele beijaria cada uma de suas tatuagens, duas vezes).
3—Amélia, a doida que o italiano não merecia ter (o russo amava a forma que ela era rude, bebia como uma raposa louca, sabia lutar e assistia programas que ele achava que ninguém assistia)
4— Lagertha, do seriado Vikings. Esta nem mesmo ele sabe explicar a razão. Ela é badass, somente. Don’t mess with Lagertha, bitch.

Eis o que elas têm em comum: chutam bundas.
E russo ama chutar bundas.

Retornando, nosso querido Johnny estava a caçar pokemóns. O italiano prometera voltar para sua companhia assim que buscasse algo para sua mulher dentro do clube erótico. Sozinho e entediado, Johnny decidira sacar seu smartphone e jogar um pouco de Pokemón Go. Para a sua sorte, ele logo recebera o alerta de um Charizard entre os estandes de roupa íntima próximas a ele. Foi o sinal para agir.
Se o ilustríssimo presidente Vladimir Putin observasse um de seus melhores mercenários a vagar por uma loja repleta de mulheres, mas não à procura de sexo, mas de pokemóns, ele certamente diria, num tom de voz ameaçador como um sádico: A maldita Inglaterra fode a cabeça deste homem! Tragam-no de volta para a Rússia!





De volta ao NOC, os dois homens saíram da Ferrari Califórnia cor de vinho com objetos diferentes em suas mãos. O italiano, satisfeito, carregava uma sacola de papel com uma fantasia erótica que provavelmente assolava sua mente desde que a vira e o russo, esse mal humorado como sempre, com um balde de carne frita, bastante molho de churrasco e uma garrafa de uma boa vodca russa.
— Largue esse animal indefeso agora mesmo, Johnny Grigory Luchnik! –era a voz de Patrícia, a gritar por sua janela no segundo andar.
Ele encarou-a com inquisição no semblante.
— Que animal? –ele retribuiu, calmamente.
— Esse bovino em seu balde! Seu assassino! –rebateu.
O italiano, logo ao lado, pensou em dizer o quão certa ela estava ao referi-lo como assassino, mas sabia que o russo ainda não contara a ela sua história sombria. Então, a rir com a situação, ele apenas adentrou o prédio.
— Não me venha com essa conversa de vegetariano agora, ruiva. –ele rosnou.
— Carne faz mal a saúde. –ela disse.
— Bebida alcoólica também, mas nós a bebemos. –Touché.
— Bebidas não são feitas de animais mortos. –ela era igualmente boa no debate.
Johnny mergulhou sua mão esquerda no balde, a apanhar seu bife apimentado com os dedos. Ainda a encará-la, ele mordeu como um selvagem viking e ignorou os bons modos –ele não tinha bons modos, mesmo- a comer sem qualquer pudor.
Patrícia entreabriu a boca para reclamar de sua repugnância, mas o molho de churrasco manchara o rosto pálido de Johnny como se, de certa forma, fosse sangue. A ideia de assistir aquele homem coberto de sangue a deixava inexplicavelmente excitada. Isso a tornava uma mulher louca.
— Eu comeria isso até se fosse carne humana, portuguesa –ele balbuciou, a chupar os dedos. — Não seria capaz de fazer metade das coisas que faço se não me alimentasse de carne. Sou um leão, baby. Sangue faz parte da minha dieta.
Porra. Era o tipo de frase que afastaria qualquer ser humano normal.
— Não fale ‘baby’ como se fosse o tal Christian Grey, cretino!
— Grey? O suposto CEO com insegurança interpessoal, frouxo e mais fresco que um veado em um concerto da Beyoncé? Não, obrigado. Eu falo baby como Winchester chama o Impala.
Dito isso, ele adentrou o prédio.
E Patrícia, inerte na discussão –aquilo foi uma discussão?- ainda ponderava a ideia do russo tê-la chamado de Impala.
— Então, baby, você é o Impala daquele cara agora. –a doidinha brasileira, que estava sentada em sua cama a observá-los conversar, provocou. — E como mulher de outro doido por carros, eu digo-te, é uma porra de um elogio e tanto. Ele pode ainda não saber, mas já te ama.
— Por isso tu és doida, Amélia. –Patrícia murmurou, a fechar a janela. — Argh. Nem mesmo eu suporto esse papo de amor. Amor é para idiotas.
— O sexo que vem com ele é ótimo. –a brasileira comentou, a morder o lábio em humor. Patrícia arqueou as sobrancelhas.
— Damn, girl. –falou em gracejo. — Tu podes dizer isso, porque teu homem é gostoso como um inferno. Mas o ‘meu’ homem, apesar de ser igualmente gostoso, não reconheceria um sentimento mesmo se esse o aparecesse vestido como uma AK-47 diante de um terrorista.
Amy riu-se.
— Querida, acredite em mim, o teu homem sabe como usar uma arma. Entenda como quiser.
Dito isso, Amélia a deixou sozinha, porém não sem antes dá-la um olhar instigante. Patrícia, agora a sós, grunhiu como uma gata mal humorada e retornou a fitar o horizonte através de sua janela. O céu avermelhado de Londres encobria a cidade como um manto colossal cujo abraçava os prédios e refletia suas cores nas vidraças que faziam parte do estilo arquitetônico do centro da cidade mais ao longe. A rua do NOC, entretanto, permanecia na mesma quietude sobrenatural. A ruiva se indagou, pela milésima vez, a razão do russo tê-lo comprado aquele prédio tão antigo em uma área não-nobre da cidade, embora tivesse dinheiro o suficiente para isso e muito mais. Talvez esse fosse mais uma de suas misteriosas formas de agir e até mesmo, num futuro próximo, ele imaginasse remodelar a área e transformar o prédio num chamativo a mais. Tudo era de se esperar de Johnny.
A abandonar sua linha de raciocínio, a mulher tomou um banho rápido e trocou-se na mesma rapidez, a dirigir-se, então, para a cozinha. Ela quase se arrependeu de ter descido o andar. A caminhar pelo corredor, observou as velhas garrafas de bebida alcoólica ingeridas na noite anterior; os pratos sujos de comida sobre a pia; a bagunça na sala do quadro acrílico e, para o desmaiar de sua consciência, deu-se conta de que ainda não lembrara do que havia acontecido entre Johnny e ela.
Culpou a bebida por isso. A agarrar seus cachos com os dedos, a ruiva permaneceu paralisada diante do sofá onde, de acordo com suas memórias rasas, havia sido o local de seus beijos ardentes com o homem. Involuntariamente, Patrícia deslizou a ponta dos dedos sobre os lábios inexplicavelmente doloridos –agora ela tinha um argumento – e riu-se sozinha, não de felicidade ou prazer, mas de nervosismo. A fitar a sala quase escura, fechou os olhos e deixou-se cair no estofado, com o corpo pesado de justificativas não alcançadas.
— Não, nós não fizemos isso... –ela balbuciou para o relento, incrédula. — Ele estava bêbado como um gambá e eu também.
A bater em sua testa, a mulher refletiu por incontáveis minutos. Uma vontade de gargalhar por descrença entorpeceu seu corpo, porém, mesmo sem ela entender, ao invés de rir, prendeu uma crise de choro. Por que raios estou a querer chorar?! Ela sabia a resposta, mas não queria acreditar em tal futilidade. Merda, não. Por que tudo parece tão confuso em minha cabeça?! É este maldito homem! Ele nunca age como um ser humano! Ora me beija, ora me ignora!
A ruiva ponderou em sua mente o que poderia responder suas perguntas à respeito de Johnny. Ninguém entendia aquele homem. Ninguém jamais se dera ao trabalho de tentar compreende-lo e ela não seria a primeira a isso. Ou seria? Patrícia suspirou em reação à ansiedade que assolou seus nervos e praguejou baixinho suas frustrações. Ela sentia como se lidasse com uma pessoa com perda de memória ou humor volátil. Uma pessoa que um dia a reconhecia e no outro, não. Isso a doía. A machucava. E essa ideia de se machucar a fazia sentir raiva, porque ela era uma mulher resolvida. E dúvidas, receio e dor não eram coisas que ela pensava sentir por conta de um homem.
Principalmente por Johnny. Porque ele, acima de todos os homens, não era alguém com quem se entrava numa briga.
Ela se recordou da noite de natal, em que ele a fez se sentir como uma adolescente feliz. Ele a presenteara com coisas maravilhosas, a levara para passear de moto em plena nevasca e depois, como se já não fosse o suficiente, a ensinara a patinar no gelo sem cair. Naquele momento, debaixo das luzes coloridas natalinas, encobertos pela névoa gélida da nevasca e o ar que escapuliam de suas bocas sempre que se falavam, o universo parecia ter parado para observá-los. Johnny, de repente, era alguém acessível. Ele sorrira um pouco para ela. Aquele sorriso delicioso que nem mesmo ela sabia que ele tinha. Porque nunca o vira sorrir com sinceridade.
E, depois, ele a beijara.
Patrícia imaginou que morreria naquele instante. Não por paixão, por satisfação ou futilidades amorosas. Ela morreria de surpresa, pelo gesto do homem. Ela morreria de curiosidade para entender a razão que explicava seu comportamento com ela. Será que ele gosta de mim? Ou o espírito natalino o fizera agir sem pensar? Não, ele não parece alguém que age sem pensar. Ele é russo. Por que ele é tão sensível e agradável às vezes e, noutras, é um completo selvagem irresponsável, grosseiro e solitário?
Ele ao menos sabe o que causa em mim? Ou ele sabe e se diverte com isso?
Ele é um psicopata? Um sociopata?
E por tens que ser tão gostoso daquela forma?!
O que eu fiz para merecer isso?!
Merda!
A recuperar seu fôlego, a mulher se arqueou do sofá com a pouca força que coletara de suas reflexões. Uniu-se a seu casaco –o mesmíssimo que Johnny a dera- e, com relutância, encarou o frio da cidade rumo à parada de ônibus. A ouvir um rock progressivo em seus fones de ouvido, Patrícia trilhou as ruas com a mente a viajar em outra dimensão. A cidade a acompanhava por onde quer que ela fosse. Luzes natalinas continuavam a enfeitar a vitrine de lojas e a montar figuras de animais e papais Noéis ao redor das propriedades; as pessoas trilhavam as calçadas vestidas como pequenas bolas de tecido cobertas com tanta roupa e, outras, elegantes como modelos com seus sobretudos e botas de couro.
Patrícia deu-se por louca quando encostou-se ao portão gigantesco da casa de Hiddleston. Às vezes ela não acreditava que se tornara amiga íntima do cara. Ou que sua amiga Charlie era sua esposa. Ou até mesmo que Hamish, o filho deles, era seu afilhado. E Johnny o padrinho. Porque eles fazem isso de propósito.



Após alguns toques, a própria Charlie abrira a porta para que ela pudesse entrar. Com um sorriso cansado em seu rosto jovial, a outra brasileira abraçou-a fortemente e a convidou para tomar um chá. Agradecida, Patrícia respirou melhor com o aconchego da casa quentinha. Juntas, elas foram até a cozinha colossal de móveis planejados adornados em granito e aço. Patrícia tinha uma atração perigosa com móveis e decoração. Era seu trabalho, afinal. E a casa dos Hiddlestons era como a Comic Con dos design de interiores. Cada centímetro daquele lugar era batizado por elegância e bom gosto. Luxo, praticidade, grandiosidade e criatividade.
Charlie odiava aquele lugar.
— O que a traz aqui, logo em um dia de nevasca? –a brasileira perguntou, servindo-a uma xícara enorme da bebida quente. A ruiva assoprou o calor e bebericou.
— Preciso fazer algumas perguntas a você, se não se importar... –admitiu.
— É claro que não. –Charlie deu um pequeno riso, porém deu-lhe sua expressão de curiosidade. — Sobre o quê são as perguntas?
Patrícia respirou fundo. Apesar de ser bastante franca e sincera com as pessoas, a portuguesa tinha certos receios ao falar de sua vida pessoal. Mas Charlie era como sua irmã, em muitos aspectos. Tinham os mesmos gostos. As mesmas ideias. Até falavam o mesmo idioma.
— É sobre o russo. –desabafou. Charlie alargou os lábios rosados com quase malícia e Patrícia a interrompeu instantaneamente. — Não é o que está a pensar!
— No que estou a pensar? –provocou a amiga.
— Sexo, certamente. Porque tu és uma incorrigível.
— Está me confundindo com a Amélia. –Charlie desdenhou.
Foi a vez de Patrícia sorrir.
— Sente ciúmes dela com Thomas, não?
Charlie bebericou o chá como se fosse um copo de cerveja. A coloração de seu rosto se tornou vermelho e a portuguesa riu-se ainda mais, pois sabia que ela havia ingerido a bebida quente demais. Mas a amiga era durona. Aguentaria aquela queimadura na boca por tempo necessário até que Patrícia parasse de gargalhar.
— Ora, ela anda para cima e para baixo com aquele traseiro arrebitado e Tom já esteve dentro dele. –argumentou, rude. — Ela tem cara de vadia.
Patrícia inspirou.
— Ela é uma vadia legal. –a portuguesa comentou. — Libertina. Bissexual. Resolvida sexualmente, independente, luta kickboxing, tem um Mustang e um marido gostoso. Bem, eu quero ser essa vadia algum dia.
Charlie engasgou-se.
— Podemos voltar com o assunto do russo, por favor? –pediu a brasileira.
Patrícia cruzou os braços acima do mármore do balcão, a endireitar sua postura. Sequer sabia por onde começar.
— Primeiro... tu sabe dizer se ele tem algum problema psiquiátrico? –a ruiva questionou.
— Ah... –Charlie passou a contar com os dedos. Patrícia se preocupou. — Talvez... bem, sim, ele tem. Não sou capaz de contabilizar.
— Porra! Ele é realmente louco?!
— Não! –Charlie defendeu-o. — Ele teve uma vida difícil, Pati. Muitos traumas. Viu coisas horríveis. Fez coisas horríveis.
— Está a começar a me assustar.
Charlie soprou o ar pela boca, entrecortada. Então, subitamente, ela entrelaçou a mão nas de Patrícia e puxou-a em direção a sala, a desviar dos brinquedos de Hamish jogados sobre o chão. Juntas, sentaram-se no sofá em formato de L.
— Johnny tem muitos problemas de personalidade, Pati. –foi direta. — É chamado Transtorno de Personalidade Limítrofe.
— O mesmo da Amélia?! –Pati se excedeu, a gritar espantada.
— Sim, o mesmo. Mas eles diferem bastante em seus estados de humor. –Charlie disse, a tentar se lembrar do que lera no perfil psicológico do russo ao descobrir que ele era um mercenário, dois anos atrás. A palavra mercenário era proibida nos diálogos com Patrícia, por pedido pessoal de Johnny. — O Nik é como uma concha com pérolas roubadas, entende? Todos nós nascemos com uma personalidade principal, a qual desenvolvemos com o passar de nossos anos, certo? O Johnny não teve isto. Bem, tudo o que eu posso lhe dizer que ele foi impedido de ter sua própria personalidade, pois vivia num rígido governo e seguia regras lamentáveis. Ele foi ensinado a fazer certas coisas desde quando criança e cresceu sob essa perspectiva. E essas coisas o atrapalharam no desenvolvimento emocional. Por isso o quociente intelectual dele é tão alto e ele é um gênio. Quanto maior o intelectual, menor o sentimental.
Patrícia assemelhava-se a um desenho animado, porém sem a parte animada. Ouvir a voz da amiga a explicar um pouco de Johnny era como receber uma carga elétrica de dúvidas, questionamentos, angústia e empatia pelo homem. Uma enorme curiosidade torturou sua cabeça: o que diabos havia acontecido com ele?
— Sabes de algo a mais? –gaguejou a portuguesa.
— Sei que ele não sabe quem é. Quando o conheci, Johnny era um nerd mal humorado que gostava de reclamar. Com o passar do tempo, viramos grandes amigos. Ele, mesmo com aquele jeitinho abrupto, sabia me fazer sentir bem. Ele é engraçado, às vezes. Me fazia rir. E quando ele bebe, deus...
— A primeira vez que o vi, ele estava bêbado. –Patrícia sorriu quase comovida, a recordar-se da noite em que o vira, vestido de Stormtrooper, na festa de formatura da Universidade em que ele dava aulas e que Vincent a convidara. Também, no mesmíssimo dia, conhecera o NOC. E Hiddleston. — O melhor dia da minha vida. –falara ela, humorada.
— Ele me fazia chorar e rir no mesmo dia. Passava meses sem dar-me um oi e em uma semana levava-me para jogar Dungeons and Dragons. Dizia-me para esquecê-lo e outra vez foi ao Brasil me visitar. Ele é repleto de polos opostos, Pati.
— Sim, disto eu sei bem. –ela suspirou.
— Eu acho que Johnny tem vários Johnnys dentro dele. Mas ele não sabe uni-los numa pessoa só.
— Como Jaime? Múltiplas personalidades?
— Não... mais como Jack, de Fight Club.
Pati pensou.
— Agora estou a imaginá-lo a lutar.
Charlie riu internamente, segurando-se para não dizer ‘Ele luta melhor que os caras do filme, Pati, querida’. Mas, ao invés disso, ela acariciara seus ombros e beijou-lhe a testa carinhosamente.
— Sei que há algo entre vocês desde aquela primeira dança na universidade. E, querida, é algo grande. Tudo com aquele homem se torna intenso, possessivo e interminável. Você vai ao inferno e chega aos céus com ele. Johnny é um demónio e um anjo, simultaneamente. E foi por isso que pedi para que você tomasse meu quarto quando eu partisse. Sei que você lidará bem com aquele russo impossível.
Pati mordeu os lábios, quase emocionada. Charlie era como um livro de conselhos ambulante. E, depois que se tornara mãe do pequeno Hamish, ela ficara melhor nisto. Era como uma mãe para todos que a procuravam. E a coitada ainda tinha 23 anos!
— Como sabe que isso é romance, Charlie, sua doida? Eu só disse que queria perguntar algo sobre ele! –Pati se indignou, gracejando.
— Depois do natal, eu aposto que há algo a mais que amizade entre vocês. Querida, eu sou míope, mas não sou cega.
Patrícia deu-se a gargalhar.
— Ele me beijou. –secretou, divertida.
Charlie abriu a boca.
— Oh meu deus! –exclamou, incrédula. — Ele beija?!
— Muito bem, posso lhe dizer...
— Merda, e como foi?
— Intenso. –disse, sem vergonha alguma. — Ele... segura meu rosto com as duas mãos quando o faz. É como se me prendesse diante dele, como se eu pudesse fugir de seu toque.
— ‘Quando o faz’, então foi mais que um beijo???
— Bem, ontem nós nos beijamos após aquele jogo de verdade ou desafio. Nos beijamos muito. –a ruiva mordeu a parte interna da bochecha, conturbada. — Talvez tenha sido a bebida, mas, deus, ele me beijou como eu nunca fui beijada antes. Foi... lascivo. Quente. Por alguns segundos tive a ligeira ideia que iríamos tirar as roupas e transarmos naquela sala. E eu quis que ele fizesse. Deus, como eu queria. Foi tão arrebatador.
— Conte-me mais, estou a amar isto. –Charlie ditou, de rosto sério.
— Você já viu aquele abdômen, certo? Aqueles braços que poderiam nocautear uma pessoa num abraço?
Charlie revirou os olhos, tentada.
— Qual é, garota, eu passava metade do dia a olhar para aquele tronco.
Pati riu-se.
— Imaginas aquele corpo todo em cima de ti. Estávamos assim, ontem. Eu abracei sua cintura, toquei suas costas largas, senti seu perfume, seu calor por cima do moletom. Não sei como continuei sã.
— Puta que pariu.
— Eu não sei como, mas ele conseguiu ser ainda mais tentador que aquela dança que o italiano fez comigo.
Charlie balançou a cabeça, como se seus cabelos tivessem a pegar fogo. Era o desespero de imaginar os dois homens. Pati entendia bem.
— Por favor, não fale daquele homem. –pediu a amiga brasileira. — Ele não é um bom...
— Ah, ele é bom. Muito bom.
— Não, ele não é. Ele olha para mim como se quisesse...
— Te foder. –a portuguesa completou. Charlie, chocada, negou. — Querida, ele quer. Ele mesmo disse a mim.
Charlie sentiu-se tão pequena e envergonhada que poderia esconder-se numa caixa de fósforos.
— Como ele pode dizer isso sobre mim? Ele é casado. Eu sou casada. Céus.
— Acho que eles chamam isso de orgia. Quando ele fala que quer te foder, ele quer te foder junto a mulher dele.
Charlie poderia desmaiar com aquilo.
— Sabe qual é uma boa ideia? Converse com o italiano sobre o russo. Ele é marido da louca, então sabe lidar com este transtorno. E, além disso, é amigo do russo. Ele responderá melhor do que eu. –engoliu em seco.
— Ele responderá, mas eu não irei entender nada, porque estarei ocupada a imaginá-lo nu.
— Bem, compreensível.
— Aqueles olhos podem te engravidar.
— Não, obrigada.
— Eu faria dez bebês com ele.
— Foque no russo, Patrícia. No russo. –Charlie enfatizou.
— Eu faria vinte filhos com o russo. Meu útero é bom, realmente bom. Meus ovários são esplêndidos. Falta-me o homem. Eu farei tantos filhos com eles dois que me tornarei uma versão feminina do Ragnar Lothbrook, o rei dos Vikings.
Charlie, apesar de confusa, sorriu com a brincadeira da portuguesa.
— Não se anime. Ter filhos é bastante dolorido. Experiência própria. Você não sentirá sua vagina por três meses.
— Tudo bem, eu posso adotar.




A retornar para o prédio do NOC no subúrbio de Londres, a cabeça de Patrícia, pela primeira vez em muitos dias, se tornara mais leve. Graças a Charlie. E como se os conselhos e explicações não fossem o suficiente, a amiga a dera uma bolsa de couro francês de uma marca famosa que a mesma não sabia qual era. Esse era o maior problema de Charlie ao viver com Hiddleston: presentes luxuosos. E Charlie os odeia.
E usa Patrícia para escapar.
Ou seja, a portuguesa ocasionalmente tem em seu quarto caixas e mais caixas de roupas, bolsas, perfumes e produtos da elite do mundo. E a única razão pelo qual ela os aceita, é porque Patrícia tem bom gosto. E, claro, ela adora a liberdade de poder misturar suas peças de roupa excêntricas com artigos de luxo e provocar pequenos infartos nas ruas e olhares distantes de madames de vadias ricas. Patrícia ama encará-las e poder enxergar em seus olhos o pensamento                 onde aquela mulher roubou dinheiro para comprar essas roupas e meu deus quanta heresia da parte da Chanel.
Johnny faz o mesmo ao esbanjar sua fortuna em outro continente e permanecer a viver num prédio rústico. Nós chamamos isso de ‘Sarcasmo, a língua primordial da humanidade’ ou, como o italiano costuma falar ‘Filosofia de Tyler Durden, de Fight Club’. Amélia, no entanto, embora sem saber deste curioso fato de amizade entre Charlie e Patrícia, também colabora para o derrame cerebral de senhoras ricas da elite londrina. Ela costuma usar a Ferrari do marido para se locomover e estacionar em locais luxuosos, porém, sempre se veste como uma lésbica participante de Orange is the new black. Sem pentear o cabelo. Ela chama isso de ‘Houston, nós temos um problema’, porque, sim, foda-se eles.
Patrícia suspirou alto ao se acolher no calor do prédio ao entrar. A neve que caia a fazia pensar em como Portugal parecia quente, mesmo que o seu país realmente não fosse nada quente. Nesses momentos a ruiva lamentava pela diferença climática entre o Brasil e a Inglaterra e parabenizava suas amigas brasileiras pela resistência ao frio. Nesses momentos infinitos de reflexão, Patrícia enfim entendeu a razão de Charlie nunca sair no inverno. E, agora, por ver Amy enfurnada em seu quarto desde que chegara na cidade. Assustando-a, Jess surgiu no corredor com um pincel acrílico em mãos. Seu rosto angelical parecia perturbado. Patrícia arregalou os olhos.
— Meu Deus! O que aconteceu?! –perguntou a ruiva.
Jess ofegou.
— Johnny conseguiu driblar o sistema de GPS de Pokemón Go e agora sabe as coordenadas para capturar os mais raros! –exclamou, a alargar a boca num sorriso quase psicótico. — Ele encontrou um Mewtwo.
Patrícia arqueou as sobrancelhas, mais intrigada do que surpresa. Ela tinha conhecimento da genialidade do russo, mas nunca a vira em ação até então. E ficara um pouco desapontada que a primeira experiência tivera sido com um jogo. Mas seu lado fã do anime japonês e da programação de aplicativos a fez manear a cabeça em um gesto de positividade e, enfim, marchou até a sala do quadro acrílico para apreciar a testa franzida do homem de cabelo cinza.
— Então, você come animais mortos para descobrir pokemóns, que são um tipo virtual de animais que você também irá capturar? –Patrícia questionou ao russo, de timbre irônico em sua voz.
— Não, eu como animais mortos porque estou no topo da cadeia alimentar. Descobrir como quebrar o sistema do jogo é uma consequência que uma boa alimentação me traz. Deverias tentar. Se comesse um prato do meu melhor churrasco, terminaria suas maquetes em tempo recorde. –provocou ele, altivo como usual.
— Vocês são incapazes de dizer ‘oi’ e se cumprimentarem como pessoas normais? –Amy interpôs, de semblante conturbado.
— Quem é você para discutir isso? Você é louca! –Johnny rebateu, contudo havia um vestígio de humor raro em sua rouquidão. — Todos nós nesse maldito prédio somos loucos.
— Eu tenho que concordar com o homem. –a portuguesa apoiou.
O russo olhou-a com um brilho de satisfação em suas íris verdes.
— Essa será a primeira vez que o faz. –disse ele. Abruptamente, seu corpo se arqueou da poltrona e atirou o pincel –que parecia minúsculo em suas mãos marcadas- acima da mesa de centro e sacou-lhe o smartphone do bolso, a abrir a tela inicial do aplicativo que corrupiara. Com os lábios presos em uma expressão maquiavélica, Johnny ergueu o aparelho a todos. — Estão todos de férias?
Os moradores do prédio pareciam não acreditar em sua pergunta. Porém, embora conturbados, concordaram com a cabeça.
— O que quer com isso? –Peter finalmente inquirira.
— Alguém topa caçar Pokemóns ao redor do mundo?
Um cochicho mútuo se fez na sala principal do prédio do NOC. Patrícia, intrigada, juntou-se a cacofonia das vozes espantadas dos colegas de moradia, a tentar se situar no ocorrido. Os únicos silenciosos da quadra, não surpreendentemente, eram Johnny, o casal de loucos e Hans, que preferia rir ao se juntar aos fanáticos.
— O que você quer dizer com isso, cara? –Peter novamente perguntou. Johnny encarou-o com descrença.
— Está a perder seus neurônios, químico. O que acha que eu sugiro com a pergunta?
— Não sei, cara, porque você é doido!
O italiano entortou o riso ao assisti-los.
— Luchnik quer usar suas férias para um tipo de... excursão pelo mundo. Mas, ao invés de conhecermos países e sermos meros turistas, teremos a missão de capturar todos os pokemóns e zerar o aplicativo.
O NOC pareceu desmaiar. Todos, simultaneamente.
— Eu disse. A carne deixa ele louco. –Patrícia finalizou.

domingo, 24 de abril de 2016

Comic Con Não É Um Bom Lugar Para Se Apaixonar

Flashback. Londres, Inglaterra. Rumo aos Estados Unidos.



A cabeleira cinza de um jovem muito alto sacodia à medida que suas longas pernas vagavam em uma corrida entre os muitos passageiros ao redor do Aeroporto Internacional, a causar um alvoroço de seus colegas que o seguiam na mesma pressa. De malas em mãos, o líder do singelo prédio do NOC – Nerds Obsessivos Compulsivos, estava a xingar mentalmente a maldita aeromoça que não lhe informara que o avião já se encontrava em solo.
— Vamos! Apressem-se, idiotas! –gritava Johnny, a acenar com os braços um caminho alternativo para que os trinta colegas de morada atravessassem.
— Estamos a causar polemica! –Patrícia riu alto logo atrás, a movimentar suas pernas sobre os saltos altos que decididamente se arrependeu de usar. Ela não podia se culpar, é claro. Ninguém adivinharia que seriam enrolados pela comissária de voo.
— Causaremos mais se eu quebrar o pescoço de algum piloto! –o russo instigou-se, a abrir uma trilha entre as demais pessoas. Elas reclamaram em resposta, a sentirem-se pessoalmente atacadas pelo louco de sotaque forte.
— Eu gostaria de ressaltar que se tivéssemos seguido o meu plano de horário, não estaríamos neste problema –Vincent rumou à uma certa distância, incapaz de aproximar-se por conta de suas múltiplas alergias. O mínimo contato com os passageiros o causaria uma incrível onda de coceiras estranhas.
— Cale-se se não desejar que eu corte sua língua! –Johnny rosnou.
Patrícia sorriu tortamente.
A ruiva era a novata da turma do NOC. Há poucas semanas incluída no quarto 09, deixado por Charlie, Patrícia aprendera que para sobreviver no mundo daqueles nerds, era necessário força de vontade para enfrentar certos desafios que, certamente não apareceriam para qualquer pessoa. Como por exemplo, aquela situação embaraçosa no meio do aeroporto era uma delas.
Inicialmente Vincent entrara em colapso ao saber do horário do voo para San Diego, na Califórnia. Seu primo então decidira que convenceria a todos que o melhor era seguir para o aeroporto uma hora antes do planejado, pois sua experiência em voos de Portugal a Londres era o suficiente para lhe dar uma posição de destaque na lista dos passageiros mais azarados do mundo. Com uma cota de 12 voos perdidos e 14 atrasados, obviamente ninguém o ouviria, mesmo.
Johnny por sua vez ameaçou jogá-lo para fora da aeronave se lhe perturbasse com aquilo.
Era duro viver entre aqueles loucos. Mas Patrícia gostava.
— Talvez nós devêssemos aguardar o próximo voo? –Peter sugeriu, a ofegar.
— E NOS ATRASAR PARA A COMIC CON?! alguns falaram em uníssono, inclusive a ruiva portuguesa. — Imbecil!
— Respeitem-no! –a pequena Jess pediu, a defender seu namorado.
— Ignore essa ratinha de laboratório –Nik desdenhou. Era evidente a irritação do homem.
A dizer melhor, irritação era a aparentemente o único sentimento que lhe parecia ter.
Atenção! Última chamada para o voo 3498 com destino à Califórnia, EUA. Embarque imediato pelo portão A-9.
A voz mecânica ecoou pelo aeroporto, a causar arrepios pelos jovens e atrasados nerds.
— SE OUSAREM SAIR EU OS DERRUBO EM PLENO AR! –Johnny gritou, quase a alcançar o balcão de despache de bagagem. — Quem é o maldito dono desta empresa aérea?! –indagou para a moça que ali os aguardava, de cabeça erguida.
— Mr. Alísio Green. –ela lhe informou com a usual e falsamente simpática voz.
— Todos os Greens são imprestáveis? –Johnny murmurou, a lembrar de um velho agente do FBI que o perseguira anos atrás. — Reservamos trinta assentos neste voo. Abra a maldita porta.
— Senhor, acalme-se. Temos que checar os passaportes...
— Eu a farei engoli-los se me irritar, senhorita. –rosnou baixo, como um cão valente. A mulher olhou-o com receio, a desistir seguidamente de enfrentá-lo.
— Senhor, eu insisto...
— Eu paguei miseráveis quarenta mil dólares nessas passagens. À vista. Quer discutir sobre poder? Lhe mostrarei meu talão de cheques. –o russo foi firme, a causar um arrepio involuntário da jovem portuguesa à suas costas.
A comissária endireitou-se na cadeira imediatamente.
— Pode me dizer seu nome, senhor?
— Luchnik. –cuspiu ele.
Ela solavancou sobre o balcão, assustada.
— Perdão! Perdão! Imaginei que o senhor fosse mais velho... –engasgou-se duramente. — Digo, o senhor é presidente de uma Holding poderosa.
— Se eu lhe digo que comprei trinta passagens em dinheiro achas que sou o quê? Um vendedor de rua?
— Claro que não, senhor.
— Então por que infernos as malditas portas ainda não abriram para mim?
— P... per...
— Não quero ouvir suas desculpas. Abra a maldita porta se não desejar que eu embargue esta empresa aérea e chute seu chefe pela janela do último andar de seu prédio e depois a faça limpar os restos mortais do cadáver. –paulatinamente, o russo despejou.
Puta que pariu, ele é quente. E assustador. Gostoso. God. Patrícia pensou, a morder os lábios a segurar uma risada.
Imediatamente as portas foram reabertas, possibilitando que os moradores do NOC adentrassem no túnel que os levaria ao avião pousado.





Patrícia movimentava a cabeça circularmente à procura de arquear seu cabelo ruivo ao máximo possível. Enquanto isso, discutia com Jess sobre suas fantasias para a maior feira de convenções de interesses nerds do mundo. A portuguesa, com suas curvas acentuadas pelo vestido branco de aparência suja –este traje usual – referente à Noiva Cadáver, caia-lhe muito bem, obrigada. E obviamente ela se sentia estranhamente poderosa ao vesti-lo.
— Então Charlie realmente tem uma chance de entrar na Marvel? –Jess replicou. — Isso é incrível!
— Não é? –Pati riu. — Teremos uma infiltrada na rede! Ela poderá nos informar segredos!
— Oh... eu não acho que ela poderá, Pati.
— Claro que pode. É a Charlie. Ela sempre apronta.
— Bem, sim. –Jess calçou os sapatos. — E com Johnny sendo seu professor nisso, ela certamente aprontará.
— Diga-me... se Charlie não fodesse com Thomas, ela foderia com o russo? –Patrícia inquiriu, a causar um arregalar de olhos de sua colega. A portuguesa sempre se esquecia de como a pequena não era acostumada com seu palavreado aberto. — Desculpa-me. Perguntinha básica.
— Vejo que sim. –Jess limpou a garganta. — Então, eu acho que Johnny gosta da Charlie. Ele sempre a persegue e maltrata como faz conosco, mas há uma sutileza nas ações com ela.
— Huh. O russo quer foder com a Charlie. –Pati provocou.
— Mais fácil ele querer foder contigo. –a voz de Peter ecoou pelo quarto, a espantá-las.
— O quê?! –Pati repetiu, incrédula.
— Eu sou o melhor amigo dele. Sei para quem ele direciona os olhares. Sei para qual traseiro ele olha.
— Ora, não diga merdas! –a portuguesa sentiu o rosto ferver. — Johnny a olhar para mim? Haha!
— Bem, pense o que quiser. Mas mantenha os olhos abertos para ele, portuguesa. –Peter riu, piscando-lhe. Em seguida abraçou Jess, dando-lhe um beijo estalado nos lábios. — Está linda, querida. Mesmo verde.
— Obrigada! –satisfez-se a garota. — Sou uma ótima Gamora, não achas?
— E eu um ótimo Star Lord. –Peter retribuiu.
— Arrumem uma cama! –Patrícia exclamou, gargalhando com a intimidade do casal.
Após a cena romântica, Hans aportou no cômodo a chamá-los para pegarem o ônibus alugado para seguirem à Comic Con. Patrícia se perguntou sobre o paradeiro do russo, que não os seguia e nem os xingara até então. Foi informada que ele chegaria um pouco mais tarde, pois acompanhava Charlie em sua entrevista na Marvel. A portuguesa torceu para que a amiga fosse selecionada.
Ao frear do carro de frente para o enorme estacionamento da feira, Patrícia assoviou em exclamação. Era a melhor visão que tivera desde que se deparara com o rosto de Johnny embriagado por baixo de sua máscara de Stormtrooper quando o conheceu na festa de formatura na faculdade. Seus olhos rodearam todos os metros quadrados à frente: uma multidão de pessoas fantasiadas de seus personagens favoritos conversavam animadamente uma com a outra enquanto andavam em direção ao arco imponente de entrada do evento. Pati se apaixonou por dezenas de homens belíssimos em suas armaduras brilhantes, elfos da Terra Média e alguns Hobbits que de pequenos nada haviam. Eram gostosos, inclusive. De repente isso me parece Mordor. Que calor! Pensou a portuguesa, a deliciar-se com a visão.
Desceu do veículo com a câmera em mãos, a tirar fotos até mesmo do chão que pisava. O sol brilhava ao horizonte, fraco, porém cálido. Respirar o ar americano lhe fazia pensar em como o país tinha uma forma estranha de mostrar a todos que era o mais rico e que certamente poderia destruir os outros sem pedir permissão. Nenhum país ousava discutir com ele.
A não ser, é claro, a Rússia.
Porque russos são estranhos.
E é óbvio que a portuguesa não pôde se livrar dos pensamentos sobre o país, pois sua cabeça estava focalizada no paradeiro de Luchnik, sua atual paixão passageira. Mesmo que algo lhe dissesse que aquela paixão duraria para sempre, enquanto ele passeasse com seu corpo delicioso próximo dela. E ela sentia falta daquele temperamento ardido e mal humorado a provocar a todos com sua acidez irresistível. Talvez fosse estranho suspirar por um desgraçado infeliz, mas esses eram os que a mais atraía.
Enfim, vamos pular as ideias pervertidas da ruiva. Passamos para a parte interior da feira.
Plataformas montadas em torno do enorme, enorme, enorme –pense em algo enorme e multiplique por dez- salão da Comic Con; e o barulho de pessoas a conversar, gritar e chorar de emoção fazia Pati suspirar de ansiedade. À princípio ela imaginou que a feira era algo como o desfile das universidades de seu país, a cacofonia errônea e toda a bebida do mundo junto aos jovens loucos. Mas ao visualizar o evento, ela notara o quão errada estava.
A Comic Con era como um orgasmo ambulante.
Um orgasmo ambulante causado por sexo selvagem com Jared Leto, no mínimo.
E a tremer dos pés à cabeça, a portuguesa se desprendeu do grupo e iniciou uma explorada aventureira pelos estandartes da feira. Passeou por painéis de séries, filmes e jogos. Leu prévias de livros ainda não lançados, ouviu músicas novas e aprendeu palavras em línguas diferentes. Tirou tantas fotos que a memória de sua câmera reclamara. Ali era sua nova casa. O cheiro de novidade, o barulho das vozes desconhecidas, o gosto da comida estranha que os nerds faziam em imitação de pratos de ficção e até mesmo a assustadora loucura de alguns fãs a instigava.
— Hey, girl! –a voz animada da criança quase adolescente que ela conhecia bem se anunciou. Ao virar para trás, deparou-se com a imagem querida de Mikhail, o filho adotivo de Johnny.
— Mikhail! –gritou ela, a correr para abraçá-lo.
— Está gostosa! –disse ele, a olhá-la bem. — O que te a fez tão bem? Algum homem na jogada?
— Que nada! –Pati riu. — E quanto a ti, querido?
— A estudar a teoria dos campos quânticos. –falou, a suspirar. — Ótima matéria. Pena que em minha universidade eles idolatram a tese que meu pai escreveu em uma de suas bebedeiras.
— Opa. –Pati franziu o cenho. — Johnny escreveu teses?
— Ele estava bêbado. –repetiu Mikhail, a sorrir. — Então? Onde está ele?
— Com Charlie, na Marvel.
— Charlie? Preciso provocá-la. –o garoto a acompanhou de volta aos painéis, a caminhar juntos em risadas.
Para a surpresa de Patrícia, poucos minutos depois sua visão foi presenteada com a melhor imagem que vira até os seus dias de vida.
O maldito russo adentrava a feira. Seus olhos correram diretamente para o tronco desnudo do homem, este marcado e definido como uma zona de guerra melhorara pelo criador. A pele alva, aparentemente macia, desenhava ondas por seu abdômen malhado e dividido perfeitamente em músculos. O peito forte, porém não tão largo, delineado por mangas de couro de seu sobretudo vermelho caia-lhe irritantemente bem. De calças pretas e botas até próximo ao joelho e uma longa espada pendurada nas costas, finalizava a fantasia mais real de Dante May Cry já feita no universo.
Gostoso. Para. Porra.
Foda-me. Por. Favor.
O cabelo cinza caído sobre o rosto deixava-o com uma aparência assustadoramente sexy. Ela quis lambê-lo todo. Centímetro por centímetro. A maldita paixão não cessava.
Pati sentia que iria morrer se continuasse com aquele homem tão distante de seu corpo.
Assim, correu até Charlie para abraçá-la. O que, também, era uma desculpa para visualizar melhor Luchnik. Girou-a, apertou-a, fez a pobre coitada como um grande urso de pelúcia. Charlie apenas sorriu com a chegada animada da amiga.
— Você já abriu a caixinha? Johnny quase teve um infarto fulminante quando percebeu que ela havia sumido! –murmurou Pati, aproveitando-se da barulheira de tantas vozes para disfarçar a sua.
— Pensei que só pudesse abri-la quando casasse com Thomas.
— Não, esqueça isso. Você deve abrir antes, porque precisa entregar o objeto que está dentro dela para ele.
— O que tem dentro daquela caixa, céus? –indagou a brasileira.
— Tanzanita. –balbuciou a ruiva. — O que você precisa saber é que Johnny iria entregá-la de qualquer maneira, então não se preocupe se achas que roubei. Só adiantei a entrega. –piscou seu olho divertida, fazendo-a rir com as órbitas arroxeadas em volta de seus olhos.
Alguém vestido de Ezio Auditore passou ao lado, deliciando-se com um sorriso malicioso para Patrícia. A portuguesa, ciente da olhada que lhe dera, apenas sorriu torto. Ao contrário de sua passividade, o russo pareceu queimar por dentro.
— Você não é o único assassino aqui, cara. –Johnny intrometeu-se. — Seu personagem é uma marica.
O homem desconcertou-se. Charlie começou a gargalhar,  intrigada com a mudança repentina de humor de Johnny, que começou a rodear a área como um cão de guarda, imitando o caminhar de Dante.
— Vou te dizer, os Templários facilitam muito para vocês. –o russo provocou.
— E você apanhou do seu sobrinho. –rebateu o Ezio.
— Eu vou mostrar para você o que é apanhar se continuar a olhar para ela. –franziu o cenho, ameaçador.
— É proibido? –indagou, sorrindo ironicamente.
— Se quiser continuar tendo dois olhos, sim.
Patrícia esboçou uma expressão de tédio, puxando de um bolso interno do sobretudo vermelho de Johnny uma arma que reconhecia muito bem como de outro personagem do jogo que Johnny estava dando vida.
— Ezio, Dante, não quero ouvir disputas irrelevantes aqui. –balançou a arma em suas mãos. — Johnny, eu já disse que não faço parte do grupo das garotas que você protege no NOC. Eu sei me cuidar bem. Obrigada.
Johnny arqueou as sobrancelhas, afetado. Ezio fez uma reverência muito provocativa para Patrícia e saiu, não sem antes encarar o russo mais uma vez. 
-Não acredito que deixou ele sair vivo. –Mikhail desacreditou-se, indo ao encontro de Johnny. Patrícia entregou a arma para o garoto e Johnny deu de ombros para sua presença, talvez irritado com sua última atitude.
— Mikahail, matar alguém nos Estados Unidos é uma grande burocracia. –murmurou mal-humorado o russo.
— Porque seu pai tem retardo mental, garoto. –Patrícia puxou-o para perto, fazendo uma expressão rude para Johnny. — Essa aí é a Charlie.
— Meu pai tem uma ligeira obsessão por você. –levantou sua mão para me cumprimentar, provocando um riso meu. — Ele nomeou um de seus ratos de Charlie.
— Obrigada. –Charlie apertou a boca, visivelmente confusa.  Johnny puxou o garoto pela gola do sobretudo, levando-o para longe. Patrícia apontou para frente, indicando alguns desenhistas que já havia conhecido antes de chegar a feira. Ela sabia que a apresentação dos desenhistas iria começar.





Quando Charlie finalmente encontrou seu caminho junto aos demais, Patrícia decidiu comprar algo para comer enquanto aguardava a tão esperada notícia de quem seria contratado pela Marvel para o novo lançamento de quadrinhos feitos por fãs. E ao chegar na loja de doces, notou a presença de Johnny encostado à parede, deliciando-se com uma barra inteira de chocolate como se a simples existência da guloseima fosse um ataque à Rússia e a única escapatória era comê-la toda. Patrícia se esgueirou sem deixar de olhá-lo mais uma vez. Os lábios contornados presos na barra, mastigando-a lentamente a fez retorcer o estomago ao associar o que via com algo que ele muito bem poderia fazer entre suas pernas.
Pensamentos maliciosos.
Sempre presentes.
Com uma tosse programada, a ruiva escolheu uma caixa de bombons de licor. Álcool. Ela precisava de álcool para suportar àquilo.
— Você tem algo contra Assassin’s Creed? –Pati perguntou, incapaz de guardar as duvidas o episódio de ciúmes no pátio.
—  Não. –respondeu seco.
— Algo contra o Ezio? –retumbou.
— Não. –replicou o russo.
— Algo contra o homem que me paquerava? –insistiu.
— Sim. –Johnny respondeu, calmo.
— O que tinha contra ele? –a portuguesa investiu.
— Estava a olhar para alguém que não o pertence. –ditou.
— Esse alguém seria eu? –Patrícia pôs as mãos na cintura, questionada.
— Quem mais seria? –ele fez-se de inocente.
— E a quem eu pertenço, russo? –ela retribuiu, a saber que aquela pequena pergunta a assombraria por muitos dias.
A mesma pergunta assombraria Johnny por muitos dias, também.
— Espero que eu possa lhe responder futuramente. –disse ele.
Em contrapartida, Luchnik escorregou o dedo sobre a barra de chocolate e lambuzou a bochecha da ruiva em provocação, a desenhar um pequeno pentagrama invertido. Algo totalmente demoníaco. Patrícia nada fez, pois sua cabeça estava fixada no maldito tronco perfumado e gostoso do homem à sua frente.
Para o terror dos ovários da portuguesa, Johnny roçou seu nariz em seu pescoço e deslizou sua língua por seu maxilar, a seguir então, lentamente, para o desenho formado em chocolate em seu rosto. Ela sentiu sua boca quente em contato com a pele avermelhada em susto; sentiu o cheiro amadeirado e ao mesmo tempo cítrico de seu perfume irresistível enquanto lidava com a proximidade de seu corpo gigantesco ao seu.
Ao fim, Johnny encarou-a friamente. Com seus olhos verdes exuberantes.
Aquele verde que nenhuma palheta de cor saberia formar.
Aquele verde intenso que mais parecia um farol no meio do oceano. A trazer para a superfície após se afogar. Se afogar nele.
E então, Patrícia soube que aquela paixão platônica não acabaria tão cedo.
Porque o maldito era bom demais para ser esquecido e perigoso demais para ser lembrado.








De volta ao tempo normal.


Aqueles olhos estavam a encará-la, novamente. O cheiro de bebida no ar, a tensão sexual e o maldito formigar em suas pernas a castigava intensamente. Ela ainda não se recuperara do desafio feito onde Johnny teria que dormir com ela.
Na cabeça do homem, parcialmente embriagado, a ideia de dormir com Patrícia não era impossível. Após o beijo às pressas que deram na pista de patinação, Johnny entendera melhor o que era aquele ciúme doentio que o causava irritação sempre que a portuguesa estava envolvida. Para alguém teórico e calculista como ele, paixão e atração são coisas que não se podem ser medidas tão rapidamente. Johnny tem um ligeiro retardo mental quando se trata de seus sentimentos. O que há de inteligência em termos acadêmicos, tem de burrice na vida pessoal. Porque afinal, sua personalidade costuma expulsar todos de seu redor.
Menos aquela mulher. Aquela ruiva de olhos curiosos, cabelo cacheado e língua afiada. Nem mesmo Charlie e sua divina paciência o aguentava como Patrícia o aguentava. E Luchnik aprendera a gostar de ser acompanhado por ela.
Ele gostava de seu cheiro. Gostava de como ela sempre vagava pelo prédio e seu perfume ficava impregnado nos cômodos. Gostava de como ela era uma louca por bebidas e que sempre a encontrava alcoolizada pela casa. Gostava de vê-la prender o cabelo com um lápis enquanto trabalhava em suas maquetes, totalmente inerte em seus pensamentos. Gostava também de assisti-la rir. Aquela risada alta, estridente.
Ele gostava de seu sorriso largo e seu sotaque.
Ele gostava de sua voz. Da rapidez com que falava.
De sua pressa. De como ela sempre estava a fazer algo. De como sempre estava ocupada.
Merda, ele gostava dela. E por isso, ele não conseguia levá-la para sua cama. Porque Johnny sabe que quando gosta de uma mulher, ele tende a estragar tudo depois. E perder Patrícia não era algo que ele queria.
— Vamos assistir Netflix? –perguntou ele, a livrar-se dos pensamentos.
— Vamos! –disse ela, a rir. — God, essa tensão estava a me matar.
O maldito sorriso que ele gostava. O maldito humor.
A negar sua própria perdição, o russo ajudou-a a levantar e juntos se acomodaram no sofá. Luchnik configurou a programação em decisão conjunta, iniciaram uma maratona de Daredevil. Ele se sentia melhor em ver pessoas sendo espancadas.
Ela se sentia melhor com a visão de Matt Murdock em suas roupas coladas.
Patrícia inconscientemente encostou-se no ombro de Johnny, a apoiar sua cabeça pesada da bebida. Ele pareceu não se incomodar, apenas olhou-a rapidamente e desviou novamente para a tela da TV. Não se sabia dizer se a ressaca de Patrícia já começara ou se era algo alucinógeno, mas a garota não podia fechar os olhos sem deixar-se ser levada pelo perfume do homem ao seu lado. A proximidade com ele era algo tão inimaginável. Ela sabia que no dia seguinte ele voltaria a seu manto de indiferença e mau humor e que aquela noite só estava bem porque ele não queria magoá-la. Ele era muito bom nisso. Magoar.
Mas ela sempre decidia perdoá-lo. Algo lhe dizia que não era sua culpa ser um bastardo infeliz. E ela se apetecia dele mesmo assim.
Ela direcionou suas órbitas para o russo, que tinha atenção à série. A ruiva analisou o perfil esculpido de seu rosto atentamente. O nariz levemente arrebitado e muito fino. As maçãs do rosto fundas, mas ressaltadas. A sobrancelha clara, falha e quase inexistente. Apenas havia pelo o suficiente para dá-lo uma sombra em seu olhar penetrante. Os lábios levemente inchados, porém ainda delicados. O queixo quadrado. O maxilar perfeito. O pescoço largo e forte.
O cabelo. O cabelo que ela tanto gostava. Aquele cinza não tão branco e nem tão escuro. Como uma gota preta num balde de tinta prata. Um cinza grafite. Uma cor tão difícil. Ela desceu o olhar para suas mãos. Largas, grandes. Dedos longos. Unhas escurecidas. Ela não sabia a razão de suas unhas serem daquela tonalidade. Certamente Johnny não as pintava de preto. Talvez fosse algo a mais de seu mistério. Aquela aparência estranha a fazia suspirar.
Uma mulher estranha de gostos estranhos só podia gostar de um homem mais estranho ainda.
Quando Patrícia se deu conta, Luchnik havia torcido seu rosto em seu rumo. Ele a encarava com neutralidade, como se algo estivesse preso em seu nariz. Era aquele olhar de sempre. Inquisitório. Impenetrável. Com tantos significados que ela sequer sabia como entender. Podia ser algo ruim. Podia ser algo bom. Ele nunca deixava transparecer.
Luchnik inclinou-se levemente, roçando a ponta de seu nariz no dela. Sua respiração controlada a fez se esquentar.
Não faça isso. Pensou ele, a repreender a atitude que seu corpo fazia. Controle-se.
Mas o corpo gritava um ‘foda-se’ enorme.
E quando menos se esperou, ele preencheu os lábios dela lentamente. Patrícia solavancou de susto, sem acreditar no que estava a acontecer. Aquele maldito homem estava a beija-la de novo. Duas noites seguidas!
Ele pediu passagem para a língua e ela cedeu de bom grado. Com o gosto de sua boca, a ruiva revirou os olhos fechados e suspirou. O sabor da vodka ainda estava em seu paladar. Ela deslizou a ponta da língua por cima da dele, lambendo-o lascivamente enquanto o via dobrar a sua contra seus lábios. Ele a mordeu com afinco, quase dolorosamente. Ela apenas gemeu contra sua boca.
O russo agarrou-a pela nuca, a afundar seu rosto contra o dela. Possessivo, desbravou cada mínimo canto de sua cavidade como se por trás de suas bochechas houvesse um tesouro a ser encontrado. Ele sorriu mentalmente ao lembrar que lambera seu rosto em provocação pouco tempo atrás. E agora, sua língua estava enrolada na dela.
Johnny acariciou seu cabelo com certa agressividade, mas Pati parecia não se importar. Aparentemente ele não tinha a mínima ideia de como ser delicado.
E ela não tinha reclamações sobre isso.
Ela apertou os ombros do homem, a procurar um lugar para livrar-se de sua ansiedade e emoção. O fôlego começava a faltar, mas eles dois não decidiam se soltar tão cedo.
Gostavam da sensação de estarem a explorar um ao outro. Mesmo que aquilo fosse apenas um beijo.
Um beijo depravado.
Ela estremeceu a um som próximo a um gemido, dito por ele. God. Como pode beijar tão bem e ainda rosnar? Ela pensou.
Em súbito, ele desgrudou seus lábios dos dela. Ofegante, ele a encarou. O rosto da garota estava vermelho como fogo. A boca entreaberta, ainda com memória do beijo, excitou-o de uma forma que ele nem saberia explicar. Desejou que aquela boca estivesse em outro lugar de seu corpo.
Logo abandonou o pensamento.
Para ser substituído por outro.
Ele queria prová-la em outra parte do corpo, também.
E merda, ele queria muito isso.
Sexo é coisa para retardatários e idiotas. Sexo diminui o quociente de inteligência. Sexo nunca levou ninguém ao prêmio Nobel. Sexo é opcional. Sexo faz os humanos parecerem animais.
Sexo é proibido.
Não magoe a garota.
— Próximo episódio. –murmurou sua voz de trovão.
Claro, se eu ainda tiver forças para isso. Porra!!!! Pensou Patrícia.

A espiar pelo corredor, um italiano sorriu silenciosamente enquanto comia um pêssego. A cena ficaria mais estranha se detalhasse que o homem usava apenas boxers e que há poucos minutos estava a foder sua mulher, mas dane-se, o NOC é estranho.
— O russo vai perder a virgindade, finalmente. –ele sussurrou provocativo, rindo consigo mesmo.
— Ele parece beijar melhor que você. –Amy disparou, a morder sua fruta. Ele a fitou irritado.
— Nós acabamos de fazer sexo e você diz que ele beija melhor que eu?
— O que eu posso dizer? Acho que estou a ficar excitada novamente. –ela gargalhou abafado, a virar as costas para o homem. Ele a seguiu com o olhar, vendo o traseiro empinado e delicioso dela sumir pelo corredor.
No dia que Luchnik souber o que é cair aos pés de uma mulher, será sua perdição. Porque uma vez com elas, dominado você é. Pensou ele, distante.





Eram seis da manhã quando algum infeliz bateu na porta do NOC. Johnny, acordado desde a madrugada a assistir Daredevil com Patrícia –esta adormecida ao seu lado no sofá- , apenas largou o controle sobre a mesa de centro da sala do quadro acrílico e suspirou. Não atendeu.
Em resultado, as batidas irritantes voltaram a ecoar. O russo, raivoso, levantou-se e decidiu por um fim no incomodo.
Abriu a porta.
Dois homens de terno e bíblias sobre os braços sorriram maravilhados com o atendimento. Johnny, percebendo que eram crentes, desejou atirá-los uma pilha de livros de física e ensiná-los que não houve nenhum homem de barro.
— Você tem um minuto para falar sobre o nosso Senhor? –um deles perguntou, sorridente.
Luchnik juntou as sobrancelhas.
— Não. –foi direto.
A voz rouca carregada de mau humor não foi o suficiente para que os testemunhas de Jeová fossem embora.
— Sua vida terá uma nova visão após o que iremos lhe ensinar... –o outro homem insistiu.
— Sua fé irá se multiplicar! –o outro repetiu.
— Eu sou ateu. –Johnny interrompeu-os, seriamente.
A frase fez com que os cristãos abrissem a boca em horror. O mais alto, cujo perguntara a ultima vez, inclinou-se como se falasse com alguma entidade invisível. O russo, observando atentamente, desejou retornar a cozinha e apanhar algumas facas.
— Podemos fazê-lo mudar de ideia! Dá-lo algo para seguir! –falou o mais baixo.
— Sua alma ficará livre dos pecados! –o outro prometeu.
— Pecados. –o russo sibilou. — Gosto de colecioná-los. –foi sádico.
Os dois hesitaram.
— Isso não é algo que se diga, jovem! –ralhou um deles. — Tens que comprar tua entrada no paraíso! Você já escolheu onde passará a sua eternidade após a morte? –o testemunha perguntou.
— Sim, no fogo do inferno. Tenham um bom dia. –o russo ameaçou fechar a porta, mas um pé o interrompeu. Péssima ação. Irritado, Johnny puxou a maçaneta e prendeu o sapato de aparência barata entre a parede.
— Argh! Abre essa porta! –gritou o machucado.
— Livre-se dos teus pecados, ainda há tempo! –resmungou o outro. Johnny abriu a porta, novamente. O homem de pé preso puxou a perna de volta, murmurando grunhidos de dor.
— Não queira ir ao inferno, jovem... –sussurrou como um segredo. — Apenas um pecado é o suficiente para levá-lo até lá!
— Veja bem. –o russo saiu do prédio, de postura neutra. Encarou os dois homens como se em suas cabeças existissem alvos e em suas mãos um arco e flecha de aço. — Se um pecado é o suficiente para nos levar ao inferno, por que não cometemos mil e entramos junto ao diabo como lendas? –sorriu torto, enviesado.
Os cristão puseram-se a se despedir.
— A escolha é sua... –gaguejou eles.
— Vejo vocês no fogo do inferno, queridos. Tenham um ótimo dia!
Lá estava o assassino russo novamente.

Pobre Patrícia. 
 

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