Despacito
Charlie
utilizara de sua incrível capacidade de convencimento e nos
arrastara para uma feira latina americana no subúrbio de Londres, em
uma área muito parecida com os arredores de Camden Town. Eu não
soube como me portar diante da súbita noite de diversão no fim de
semana, uma vez que era tradição do NOC sentarmos diante da
gigantesca TV da sala acrílica e assistirmos uma maratona de filmes
aleatórios no sábado e o aguardado episódio semanal de Game of
Thrones no domingo.
As
confusões começaram antes mesmo de partirmos em direção ao local.
Jess e Peter lotaram a pequena van que nos transportava à faculdade
com tamanha rapidez que, ao aportar na calçada, recebi um olhar de
compadecimento e um longo pedido de desculpas.
– Desculpe,
Pati, todos os lugares estão cheios. -Jess pediu. Franzi o cenho.
– Eu
acho que posso caber entre vocês dois. -apontei.
– Ah,
você não vai querer isso. -Peter devolveu, a apontar para o
interior do prédio. – O russo vai sozinho, como sempre. Vá com
ele.
E
então, percebi que aquela súbita invasão de veículos era
proposital. Queriam que eu fosse junto ao estranho de cabelo cinza.
– Quem
armou isto? -perguntei, curiosa.
– Sra.
Hiddleston. -Jess piscou o olho esquerdo com cumplicidade e eu só
pude pôr as mãos na cintura para soprar um longo suspiro de
derrota.
Charlie
e sua impulsiva necessidade de unir casais.
– E
quanto ao italiano e a Amy? -questionei.
– O
banco de trás da Ferrari é tão pequeno e apertado. Vá no Aston
Martin com o Johnny. -havia um vestígio de obrigação naquela voz
pacífica de Peter.
– Certo.
Cruzes! -ergui as mãos ao céu, a caminhar de volta ao prédio. Tudo
o que pude ouvir do lado externo fora a partida dos carros, a
abandonar-me no maldito edifício com um russo de humor improvável.
Procurei-o
através dos corredores, mas sem chamá-lo. Ele odiava isso. Era uma
de suas peculiaridades: jamais atendia quando o chamávamos. Gostava
de desafios e um deles era encontrá-lo.
Para
a infelicidade de meu controle emocional, deparei-me com o vulto de
sua silhueta altiva no segundo andar, a caminhar em direção à
escadaria principal enquanto vestia uma camisa preta.
Ah,
cacete! Ele precisa mesmo mostrar esse corpo demoníaco?!
Meus
olhos trespassaram por seus braços fortes e dobrados sobre a cabeça,
a enfiá-los pela vestimenta e assisti-a cair em seu tronco
tonificado e pálido como um maldito papel. Disse a mim mesma para
não decair em tentação e retomar à noite em que aparente
inconsciência, ele dera-me um beijo caloroso na pista de patinação
em gelo. Mas, como uma boa libertina, não pude parar de imaginar no
todo comprimento de seu corpo alto. O que ele escondia por trás
daquelas roupas escuras e tão sóbrias. Ele era a porra de um
príncipe das trevas com tendências a elegância singular. O que me
remetia à seu visual matinal, o qual usava para dar aulas em Oxford.
Oxford!
Eu
vou acabar a dar um derrame ao vê-lo dessa forma sempre.
– A
deixaram? -sua voz rouca pegou-me de surpresa. Engoli em seco.
– Charlie
mandou-me ir contigo. -expliquei.
– Charlie
manda em algo? -seu timbre sarcástico voltara com força total.
– Bem,
ela armou isso. Ela é quase genial. -brinquei.
– Para
física. Ler pessoas não é o forte daquela garota. -ele sacudiu as
chaves no dedo indicador, e pareceu-me tão tentador que cheguei a
indagar-me o que tinha de sensual em chaves. Talvez eu estivesse
louca. – Espero que não se importe de passar um pouco de tempo
comigo. Meu humor não é dos melhores. Mas é óbvio que você já
sabe.
Eu
iria para o inferno somente para babar em teu rosto, cara.
– Não
vejo problemas. Digo-te também que a minha personalidade tende a ser
ácida e provocativa. Não importa-te, eu imagino. -aticei.
– Segue.
-indicou rumo à saída e o segui, fielmente.
Há
duas coisas prazerosas em seguir aquele homem estonteante.
1-
Ele é cheiroso como um inferno, e quando caminha, seu perfume tende
a esvoaçar-se para trás. Em minha direção.
2-
Aquela bunda deve ser aplaudida. Por mim.
– Gostas
da cultura latina e brasileira? -perguntei-o aleatoriamente, para
suprir o silêncio sepulcral que nos envolvera.
– Enfaticamente
quente e irritantemente animado. -limitou-se. – Uma garrafa de
vodka na neve estaria de bom grado para mim. Cerveja e dança, não.
Sorri
com sua reclamação.
– Isto
é um esteriótipo. Como o mundo enxerga os latinos. Eles podem ser
diferentes e nós estaríamos a ser preconceituosos com
pré-definições. -argumentei.
– Os
únicos loucos que procuraram desentendimento com a cultura latina
até agora foram os norte-americanos. Sou asiático e tu és
europeia.
– Asiático?
Tu é tão europeu quanto eu. -rebati.
– Nasci
em uma cidade russa que faz parte do continente asiático, próximo à
fronteira para o Japão. -informou-me com passividade, a fazer-me
notar um vestígio de gracejo em sua voz.
– Rússia.
Sempre tão maldita e grande que toma dois continentes.
– Mother
Russia. -pronunciou em sotaque pesado, em um sussurro de zomba.
Seu
Aston Martin estava curiosamente estacionado na outra esquina do
prédio, numa área escura que podia muito bem servir de ponto de
drogas ilícitas ou um ponto de encontro da máfia local. Havia algo
inexplicável em Johnny, que induzia-me a sentir estranhamente segura
ao seu lado, mesmo nos piores locais. Algo dizia-me que ninguém
tentaria algo contra ele. E ao contrário do poder escancarado que o
italiano repassava com sua postura rígida, a sobriedade e mistério
de Luchnik era como um manto de proteção que, se desafiado,
atacava.
Devo
estar-me a envolver com criminosos e sequer sei. Sempre em
problemáticas, Pati. Sempre em problemáticas. Droga.
Surpreendi-me
e assustei-me com sua predisposição em abrir a porta para mim, com
tamanha naturalidade que ergui as sobrancelhas para fitá-lo. Ele não
aparentava ser cavalheiro.
– Obrigada.
-sacudi a cabeça.
Coisas
estranhas acontecem.
Sua
presença ao meu lado despertou um lado quase desesperador de minha
personalidade. Não era de meu feitio grunhir de excitação por
qualquer homem e aquele em especial estava a destruir minha
insanidade aos poucos. Isso me instigava. Porra.
– Arrependo-me
todos os dias em ter conhecido aquela brasileira maluca. -resmungou,
a acionar uma playlist de viking metal. Fechei os olhos em susto com
o volume do som, a ocultar um riso em minha garganta.
Seus
ataques de mau humor eram humorados, na realidade.
– Ela
não é tão má.
– E
depois o caralho do Mussolini sem bigode.
– Ele
não é um fascista. É bem mais para comunista… tal como tu.
-provoquei, a virar-me para seu rosto.
– Sabe
pelo quê a Itália e os italianos são conhecidos? Sua enorme e
falta de coragem. São uns merdinhas. Quando há guerra, traem mais
que esposas de velhos ricos.
– Céus.
-gargalhei. – O que ele te fez?
– Me
arrastou para problemas.
P.S.: Ouvir essa música de agora em diante.
O
bendito russo tinha razão quanto ao calor e as danças. Logo ao
estacionarmos diante da feira, fomos ambos recebidos com um grito em
conjunto de Charlie, Amy e outras pessoas desconhecidas que rodeavam
as ruas vazias com animação quase invejável. Fui agarrada por Amy
e um enorme copo de cerveja gelada, o que me causou um súbito bom
humor. Enquanto bebia, remexi os quadris junto à ela rumo ao grupo
de casais aleatórios que uniam-se a bailar. Apesar da música
espanhola, pude entender que o cantor estava a falar sobre alguém
ter roubado seu coração. Involuntariamente minhas pupilas focaram
no desajeitado russo antisocial que cruzava as ruas e se sentava numa
mesa qualquer, distante da agitação.
– Já
o dobrou? -Amy gritou em meu ouvido.
– O
que?!
– Johnny!
Já conseguiu… -fez um movimento sugestivo, a fazer-me rir.
– Ele
é indobrável, querida.
– Ah,
não. Duvido. Ele só é um poço de pessimismo. Quando encontrar
prazer na vida, vai saber se divertir um pouco.
Ao
olhar para seu olhar de reprovação para o lugar dançante, as
palavras de minha amiga pareciam distantes e impossíveis. E, em
curiosidade, aquilo não me incomodava. Atraía-me sua disfunção
quanto às pessoas. Seu amor por privacidade e a distância para
socializar.
– Ele
é muito mais gostoso assim. -admiti.
Amy
correu a atenção sobre o russo, a entortar os lábios vermelhos em
gracejo quase libidinoso.
– Ele
é gostoso. Irritantemente gostoso. E a julgar pela altura, o pau…
– Por
favor, não me faça imaginar.
– Querida,
estou a te fazer um favor. Imagine. -bateu em meu ombro.
Charlie,
que andejava bêbada como uma raposa inquieta, pulou entre nós com
um copo de uma bebida roxa com fragrância de uva, a mover seus
braços como um boneco de ar. Incentivei-a a continuar, irrompendo
minha gargalhada ao alto.
– Dei
uma garrafa disso aqui para ele. -disse, a apontar para o belo rapaz
de cabelo cinza. Visualizei Hiddleston entregá-lo uma garrafa, o
qual foi recebida de bom grado. – Russos não dispensam bebida.
Agradeça-me em alguns minutos.
– Ah,
céus. O que destes a ele?! -questionei.
– Isso
se chama Catuaba. Também conhecida como a bebida da felicidade e do
sexo no Brasil. -riu consigo mesma, ébria e entusiasmada. Segurei-a
pela cintura.
– Tu,
Charlie, é a porra da mulher mais louca que conheço. Não bastava
ter-me feito vir com ele no automóvel?
– Não.
– Se
quiserem ir além… diga-me que te arranjo preservativos. -Amy
sussurrou entre nós, em sua habitual feição repleta de pecados. –
E um quarto.
– Vocês
são insanas.
– De
nada. -falaram em uníssono.
Deixei-me
para preocupar com os efeitos da bebida roxa depois, uma vez que
sabia-me bem que ele tinha uma capacidade não humana de suportar
grandes doses de álcool sem sequer perceber. Deu-me tempo o
suficiente para dançar durante horas, até o ápice do suor escorrer
por minha testa e pingar em meu decote, a transformar-me numa espécie
estranha de latina por breves momentos. Charlie dava-me possibilidade
para isso. Ela quebrava o padrão bronzeado e caramelado que latinos
costumavam ter. E isso era um esteriótipo maldito. Amy, ao
contrário, esvoaçava seus cachos tão parecidos com os meus,
remexia as pernas e o traseiro em coreografias sensuais, mas não
vulgares. Era o tipo de sensualidade que era atrativamente visual.
Senti uma ligeira inveja do olhar atento de seu marido sobre ela, o
qual sequer piscava. Parecia desejá-la mesmo à distância. Ao seu
lado, a roubar minha fixação, Johnny virava o último gole da
garrafa e empurrava com os dedos o cabelo para trás, a retirar de
sua face ligeiramente corada. Talvez já fosse efeito do álcool que
eu havia ingerido, talvez fosse apenas a monotonia de minha vida
sexual ou até mesmo a excitação da atmosfera latina, mas quando
dei-me por mim, rumei em passos longos até sua figura sentada.
Encarei sua face rúbea, suas longas pernas esticadas e os lábios
pequenos tão beijáveis que eu gostaria de beijar novamente.
– Dança
comigo. -atirei-lhe a mão, a pedi-lo.
Suas
íris absolutamente verdes encararam-me com suposta rigidez.
– Não
sei dançar. -foi rude.
– Dançastes
comigo no gelo. -rebati.
– Patinei.
É uma ação oposta.
– Todos
estão bêbados demais para perceber se tu sabes ou não dançar,
merda. -reclamei, a enlaçar minha mão em torno de seu pulso. Sua
pele era macia e cálida, tão diferente de sua personalidade. Meus
dedos, que sempre julgava médios, tornaram-se pequeninos ao lado dos
seus. Uma timidez rápida vagou por meu corpo, porém, permaneci
firme e forte. – Por favor!
Assisti-o
soltar o ar pelo nariz em forma de desdém, contudo, quando estava
prestes a desistir da ideia, seu par de sobrancelhas quase
inexistentes ergueram-se em contra resposta. Era o maldito olhar
inquisitivo. Aquele que somente em fitá-la é capaz de arrancar sua
sanidade com facilidade absurda.
– Ya
me cansé de tu tornillo suelto, cerca de ti estoy en desventaja.
-pronunciou
roucamente, num espanhol delicioso que cercara sua voz com volúpia
arrepiante. Tão focada em seu timbre grave que sequer tentara
entender o significado de sua frase.
Ele
não me concedeu tempo o suficiente, mesmo.
Johnny
guiou-me à uma parte inteiramente solitária do espaço de dança,
com exceção de algumas mesas onde repousavam as bebidas e comidas
tradicionais. E como se já soubesse, a acústica do som tinha
poderio ainda melhor naquele ângulo singular. Há alguns metros, por
trás das pilastras do portão principal da feira, permaneciam em
conjunto os demais em diversão. Uma salva de gritos estridentes nos
atingiu, dando-me a impressão que alguém colocara uma música
realmente boa para tocar. Foi questão de tempo para que o eco
límpido nos rodeasse. Com ritmo tropical e quente, o instrumental
iniciara e em quase imediata ação, senti uma das mãos do russo
alcançarem minhas costas e a outra, quase incerta, levitou meu braço
em postura de dança.
Ele
não está fazendo isso…
Seu
pé trespassou o meu, a inclinar meu corpo quase ao chão. Nossos
narizes se tocaram em ato perigoso e pude sentir o aroma adocicado da
bebida em seu hálito. Rapidamente, então, puxou-me de volta.
Sí,
sabes que ya llevo un rato mirándote
Tengo
que bailar contigo hoy
Vi
que tu mirada ya estaba llamándome
Muéstrame
el camino que yo voy
Tú,
tú eres el imán y yo soy el metal
Me
voy acercando y voy armando el plan
Solo
con pensarlo se acelera el pulso
Os
dedos firmes cruzaram minha cintura com quase malícia, a obrigar-me
a mover junto a ele, em coreografia ritmada e ligeiramente semelhante
à uma luta oriental. Ele movia-se com facilidade, maestria e uma
dominação quase erótica. Pisquei sequencialmente, a procurar minha
localização naquele turbilhão inédito de sensações.
Despacito
Quiero
respirar tu cuello despacito
Deja
que te diga cosas al oído
Para
que te acuerdes si no estás conmigo
Despacito
Quiero
desnudarte a besos despacito
Firmo
en las paredes de tu laberinto
Y
hacer de tu cuerpo todo un manuscrito
Agarrei-me
em seu pescoço, rindo comigo mesma. Ele, nitidamente sério como de
costume, apenas torceu os lábios em evidente satisfação com minha
surpresa. Com a pouca sanidade que me restava, percebi que ele
reproduzia em nossa coreografia tudo o que a letra da canção
cantava. Em outro inclinar, recebi o arrastar de sua boca em meu
pescoço úmido de suor, a dar-me beijos rápidos e lentos.
Si
te pido un beso, ven dámelo
Yo
sé que estás pensándolo
Llevo
tiempo intentándolo
Mami,
esto es dando y dándolo
Ele
lia a minha mente, isso era evidente. E assustador. E excitante.
Em
um giro quase completo, minhas costas deram-se em choque contra seu
peito, a solidificar a diferença entre nossas alturas. Respirei
profundamente, a buscar o fôlego que perdera. Seus passos eram
ironicamente idênticos ao de Amy, com uma singela diferença no
rebolado. Johnny não rebolava. Era elegante, ríspido e sedutor como
um dançarino de tango. Porém, a maneira que me movia… obrigava-me
a remexer cada parte de meu corpo. Sem querer.
Ao
término da canção, ouvi-o respirar próximo a meu ouvido.
Permanecemos paralisados, em silêncio. A brisa gélida da noite
tocou-me as pernas desnudas, a retirar-me do vão mental.
– Você
não sabia dançar. -ralhei.
– Imitei
sua amiga brasileira e tentei lidar como se tudo isso fosse uma luta.
Kung fu é bem semelhante. -distanciou-se, a fazer-me grunhir
internamente.
Beija-me
de novo! Imploro!
– O
que queres de mim? -arfei, dificultosamente.
Ele
franziu o cenho em conturbação.
– Foi
você quem me arrastou até aqui. -observou, a fazer-me concordar com
seu argumento. Aparentemente minha cabeça não funcionava com ele
por perto.
– Certo.
-tossi propositalmente.
Senti-o
se aproximar novamente, depositando então um beijo em minha testa.
– Não
quero ser um completo idiota contigo, por isso tento diverti-la um
pouco, às vezes. Mas não creio que isso seja algo bom. Alguém como
você não deveria se aproximar de alguém como eu. -sibilou
entredentes, em timbre sussurrado como um segredo a ser contado. –
Eu sou completamente fodido, portuguesa. E, portanto, não quero
magoá-la com isso.
– Você
sequer sabe se também não sou fodida como tu.
Um
sorriso irrompeu sua boca.
– Você
é como um nascer do sol e eu sou como uma chuva ácida. Esses são
os níveis entre nós dois.
– Sabes
que disso nasce um arco-íris, não sabe? -interroguei.
– Uma
probabilidade escassa.
– Droga,
se não quer nada comigo, não me iluda. -cruzei os braços em
irritação.
– Não
posso fazer isso, porque não sei o que quero. Eu entendo muitas
coisas, mas a minha cabeça não é uma delas. -defendeu-se. – E o
que você quer comigo, afinal?
Não
faço a mínima ideia do que eu quero, só sei que quero agora.
– Estou
na mesma que você.
– Ótimo.
Dois fodidos.
Feliz aniversário, Pati <3
Feliz aniversário, Pati <3






